O Alienista

18.11.13. O Alienista

Mário chegou rápido, com o Alienista na mão e as calças nos joelhos. Sentou-se na louça fria e, no susto, fechou com força os esfíncteres anais. Baixou a tampa do vaso e sentou-se de novo.

Agora sim.

Você imagina como foi relaxante aquele momento. Todos sabemos o prazer que sentimos ao aprovar o laissez-passer do nosso cocô.

O odor familiar da massa que havia sido sua companheira nas últimas doze horas se fez notar, enquanto o cheiro do chiclete na boca já não podia ser sentido. Mas ele ainda o mascava. Dois minutos depois, nem mais o cheiro das fezes era sentido. Se ele quisesse, teria que sair do banheiro, tomar uma água e voltar. Aí, sim, seu faro reconheceria de novo o fedor fecal.

Recém-divorciado, Mário é ligeiramente careca, ligeiramente gordo, ligeiramente impotente e ligeiramente medroso. Mas naquele momento, com a leitura do Alienista, com o intestino satisfeito e com o chiclete na boca, ele era feliz. Autenticamente feliz. Feliz como golfinhos em águas mornas.

A vontade de se masturbar pode ter vindo do relaxamento ou da falta de algo mais excitante para fazer. Mas, será? Depois tenho que limpar tudo, tomar banho, não tem nenhuma revista aqui, nem meu celular. Melhor não.

E volta a ler o Alienista.

Já o leu antes; afinal, é um clássico. Um clássico, ligeiramente gordo e careca, tal qual Mário. Combina com o momento da defecação. Que também é um momento clássico.

E a vontade de se masturbar volta, um pouco mais forte que da outra vez. Ainda que os níveis de testosterona de Mário já não sejam os de vinte anos atrás, ele sempre pensa em coisas libidinosas quando fica pelado. Por uma força do costume. Em psicologia, eles chamam isso de reflexo condicionado: o cérebro dele foi condicionado a pensar em órgãos genitais entrando e saindo uns dos outros toda vez que ele tira as calças, como os cães de Pavlov salivavam toda vez que ouviam o sino.

E ali, com a bunda suja de cocô, começou a passar a mão no pau. A princípio despretensiosamente.

Mário já não se concentrava tanto no Alienista. Voltou o parágrafo inteiro para relê-lo. Não prestou atenção de novo. Seu pinto já estava duro, ridiculamente duro, pressionando seu baixo ventre ligeiramente gordo e peludo.

Há quanto tempo aquele pau não roçava em pelos pubianos femininos, isso ele não saberia dizer. E se soubesse, não entregaria seu orgulho tão facilmente contando a vocês.

Nesse momento, já não há mais volta. Mário masturbará e gozará gotas grandes, gordas e brancas em sua barriga. Em sua barriga gozadamente grande, gorda e branca.

Deixando o Alienista ao lado, no chão, Mário senta mais na ponta do vaso, quase sujando a louça com sua bunda suja. Inclina-se, encostando a parte superior das costas na parede atrás do vaso. Não estranhe, é uma posição realmente humilhante. Você sabe.

Você sabe.

Sua mão direita sobe e desce em seu pinto feio, enquanto a esquerda faz cafuné em seus testículos. Seus olhos estão fechados, ajudando a mente a imaginar uma universitária de vinte anos num ato que ele nunca, nunca, nunca consumará.

Até uma enfermeira acharia aquela situação humilhante.

Sua respiração fica mais ofegante e os movimentos, mais rápidos, até que ele finalmente goza gotas grandes, gordas e brancas em sua barriga gozadamente grande, gorda e branca.

Você não imagina a depressão que ele sentiu naquele momento. Foi a depressão da vergonha, da vergonha de si mesmo, da vergonha de morar em seu próprio corpo. Foi isso que Mário sentiu.

Sentiu saudades da ex-esposa e sentiu-se humilhado por estar trancado sozinho em um banheiro, com a bunda suja de merda e a barriga, o pau e a mão sujos de porra. Sentiu vontade de escrever sobre a falta de sentido da vida, sobre a solidão, sobre ex-esposas, sobre métodos para lidar com ansiedade e depressão sem recorrer a drogas ou suicídio.

E foi lá, no fundo do poço, que Mário teve a ideia mais bonita que já teve. O texto se fazia em sua mente como se escrito por um profissional. Começo, meio, fim, correção ortográfica, elementos de coesão, plot twist… Uma obra de arte literária codificada em sinapses que precisava urgentemente ser transcrita em um papel para depois ser lida por todos os pequenos seres humanos deste planeta chamado Terra.

Mas ele não tinha papel nem caneta nem celular nem nada.

Eu simpatizo com essa situação desagradável de nosso Mário. É horrível ter uma ideia boa e não poder anotá-la em algum lugar. Ainda mais com o bumbum melequento.

Num esforço bobo, ficou repetindo mentalmente a ideia que lhe surgiu, na tentativa de não esquecê-la.

Mas ele sabia que era impossível. Mário, com sua larga e infrutífera experiência em escrita amadora, sabia que não se lembraria da epifania que teve depois que saísse do banheiro. E isso só aumentou sua depressão.

Teria, afinal, que se resignar e deixá-la ir, jogá-la no limbo das ideias perdidas, onde talvez estejam poemas melhores que os de Camões, contos (ou novelas) melhores que os de Machado, a cura do câncer, o melhor filme de toda a humanidade.

E ao pensar nisso, Mário sentiu-se desolado e sem esperanças, como uma velhinha ateia.

E foi então que resolveu mudar sua atitude.

Ei, eu sou o Mário, e apesar de ligeiramente careca, ligeiramente gordo, ligeiramente impotente, e apesar do bumbum, do pau, da barriga e da mão melequenta, eu ainda sou um homem, o topo da cadeia alimentar, o ser capaz de controlar o fogo, de prever o movimento dos astros e de derrubar florestas.

Decidido, ajeitou-se na louça, limpou as sementes da vida retidas em seus pelos abdominais, limpou o cocô que ficou na tampa do vaso quando ele se recostou e fez o que um homem deve fazer: pôs-se a pensar.

Não há lugar melhor que o vaso para isso.

O dedo é grande demais… Talvez o mindinho? Não, mesmo assim não dá certo… A unha atrapalharia. Olhou ao seu redor… A ponta da toalha? Pode ser que dê certo… Abriu uma gaveta e viu um grampo de cabelo, provavelmente da ex-mulher… Fino demais.

Em cima da pia, como que por milagre, ainda que fosse óbvio que ela estaria lá, sua escova de dente.

Com a mão esquerda, pegou o Alienista, aberto em uma página qualquer. Com a mão direita, passou a extremidade sem cerdas da escova em sua bunda grande, gorda e branca, como quem molha a pena num tinteiro. Depois, sobre a estória de Simão Bacamarte, escreveu a brilhante ideia que teve, em letras grandes, gordas e marrons que tomaram umas seis páginas, sempre molhando o cabo da escova na bunda quando o cocô secava.

Registrada a ideia, fui tomar banho satisfeito. Quando saí, comecei a escrever este texto.

 

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