La voglia, la pazzia

Toquinho esteve na Itália pela primeira vez em 1968, ajudando Chico Buarque em um disco. Era época de ditadura militar e o AI-5 seria decretado naquele mesmo ano. Vários artistas deixaram o país, entre eles Chico, refugiado na Itália. Em 1969, ele lançaria o álbum Chico Buarque de Hollanda na Itália.

Nessa época, ainda antes de começarem os mais de dez anos da parceria Toquinho-Vinicius, Toquinho colaborou na gravação do álbum La vita, amico, è l’arte dell’incontro, uma homenagem do italiano Sérgio Bardotti ao Poetinha. O álbum continha uma série de versões italianas de canções do Vinicius com parceiros como Tom Jobim e Baden Powell. Foi lançado também em 1969.

Em novembro desse mesmo ano, Toquinho pediu ao parceiro Chico Buarque que desse letra a um “tema de despedida” que havia composto, já decidido a voltar ao Brasil. Chico Buarque terminou a encomenda no mesmo dia. A música ficaria conhecida como Samba de Orly, nome do aeroporto francês por onde os brasileiros exilados chegavam à Europa na época, apesar de Toquinho ter voltado ao Brasil por Fiumicino, Roma.

Um ano depois, já no Rio, Vinicius contribuiu para a letra do samba acrescentando um único verso. O que era, na versão de Chico:

Pede perdão

Pela duração dessa temporada

Virou:

Pede perdão

Pela omissão um tanto forçada

A letra desse samba é cantada duas vezes durante a música, então hoje em dia geralmente se canta primeiro uma versão, depois a outra. Mas na época em que a música saiu no disco de Chico, a ditadura censurou o verso de Vinicius de Moraes. Ao saber da notícia, o Poetinha teria dito: “A frase eles podem proibir, mas a parceira, não”.

E assim Vinicius entrou na parceria dessa canção, que é um dos meus sambas preferidos, tanto na letra como na música.

***

Toquinho, Vinicius, Chico e outros cantores da MPB tiveram uma relação próxima com a Itália naquela época, fazendo vários shows e parcerias com artistas italianos. Em 1977, por exemplo, saiu o espetáculo Ao vivo no Canecão, que reunia Vinicius, Tom, Toquinho e Miúcha no palco. Depois do lançamento, o show foi apresentado em algumas cidades fora do Brasil, incluindo algumas italianas.

Em uma dessas apresentações, depois de subir teatralmente ao palco ao som de Samba pra Vinicius, copo de uísque na mão, o Poetinha pega o microfone e se dirige a Miúcha:

Miúcha, […] your brother, Chico Buarque de Hollanda, who has…

O poeta então se dá conta de que estava na Itália e pergunta, retoricamente:

Wh-why am I speaking English? I don’t know… Perché… Parlavo inglese… Vamos continuar.

E então, em meio aos risos de Toquinho e da plateia, Vinicius introduz, agora em italiano, a música Vai levando, de Chico Buarque.

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Vinicius de Moraes e Toquinho, 1973. Foto em domínio público.

***

Em 1974, a canção Uma rosa em minha mão, parceria de Toquinho e Vinicius de Moraes, foi lançada na trilha sonora de uma novela da Globo. Essa música continha o mesmo tema que seria usado anos depois, em 1982, em um dos maiores sucessos de Toquinho, a canção Aquarela.

Aquarela é uma das minhas canções preferidas de todos os tempos. No Brasil, muitos a conhecemos desde criança, devido a seu aspecto lúdico e onírico, adequado a crianças. Mais tarde, passamos a entender melhor a qualidade da poesia e da melodia incríveis dessa canção, que são um exemplo do que põe Toquinho em um grupo privilegiado de músicos-letristas brasileiros excepcionais.

Qual não foi minha surpresa ao descobrir que a letra original dessa música na verdade é Acquarello, composta pelo italiano Guido Morra, e que a melodia é composta pelo tema de Toquinho que já havia sido usado em Uma rosa em minha mão e por outro tema, composto pelo italiano Maurizio Fabrizio.

Ou seja, de Toquinho mesmo, Aquarela só tem a versão em português e metade da melodia.

***

E que maravilha não é Acquarello! A paisagem geral da letra é bem parecida com a versão brasileira, mas nesta há algumas particularidades, inclusive algumas imagens introduzidas por Toquinho que são geniais. Esta aqui, por exemplo:

Vai voando, contornando a imensa curva norte-sul

Uma das metáforas mais interessantes da letra brasileira para mim, a “curva norte-sul” é invenção de Toquinho. Na versão original italiana, no lugar do verso acima, temos:

Verso il mare, a volare, ed il mare è tutto blu

Ou seja,

Em direção ao mar, a voar, e o mar é todo azul

Outra metáfora linda de Aquarela/Acquarello, o futuro que é “uma astronave que não tem tempo nem piedade”, por outro lado, veio da cabeça de Guido Morra:

E il futuro è un’astronave che non ha tempo né pietà

Va su Marte, va dove vuole, niente ma lo sai, la fermerà

Que, em tradução livre, fica:

E o futuro é uma astronave que não tem tempo nem piedade

Vai a Marte, vai aonde quiser, e você sabe que nada a parará

E, na versão em português:

E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar

Não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar

Que se completa com ainda mais graciosidade:

Sem pedir licença muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada, não nos cabe conhecer ou ver o que virá

O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar

Finalmente, a terceira grande metáfora dessa letra tão apaixonante, “a aquarela que descolorirá” (que descolorirá), é também uma invenção de Guido:

Siamo tutti in ballo, siamo sul più bello

In un acquarello che scolorirà, che scolorirà

O primeiro verso, literalmente, seria “estamos todos a dançar, estamos na [parte] mais bela”.

Estarmos “dançando” significa estarmos resolvendo um problema, improvisando uma solução. Estamos “nos virando”, vivendo como conseguimos, sendo como podemos.

Estarmos “no mais belo” significa gozarmos a vida. Estamos no mundo sem saber por quê, mas é a nossa única chance de estarmos aqui. Por isso, estamos na melhor hora possível, que é a única hora possível, nessa aquarela que um dia enfim descolorirá.

Na versão em português:

Vamos todos numa linda passarela de uma aquarela

Que um dia enfim descolorirá

***

Em 1975, Toquinho e Vinicius lançaram mais um de seus discos em parceria. Este continha a canção Se ela quisesse, que em italiano, cantada pelos dois e por Ornella Vanoni, seria conhecida como La voglia, la pazzia, algo como “A vontade, a loucura”.

O conteúdo das duas letras é bem diferente. Na versão em italiano, temos uma pessoa que exalta o momento romântico que está passando com seu amado. Está tudo lindo, ela está apaixonada e está certa de que ele também está:

A questo punto, buonanotte all’incertezza

Ai problemi, all’amarezza

Sento il carnavale entrare in me

E sento crescere la voglia, la pazzia

L’incoscienza, l’alegria

Di morir d’amore insieme a te

Em português:

A essa altura, boa noite à incerteza

Aos problemas, à amargura

Sinto o carnaval entrar em mim

E sinto crescer a vontade, a loucura

A inconsciência, a alegria

De morrer de amor junto a você

Na versão brasileira, porém, é diferente.

A letra original do Poetinha e de Toquinho fala de alguém que lamenta a falta de entrega de sua companheira. “Se ela quisesse”, “se ela pudesse”, “se ela me desse”. Os últimos seis versos da canção, equivalentes aos anteriores da letra em italiano, são assim:

Se ela quisesse, se tivesse essa certeza

De repente, que beleza

Ter a vida assim ao seu dispor

Ela veria, saberia que doçura

Que delícia, que loucura

Como é lindo se morrer de amor

Uma estrofe que tem tudo para falar sobre um amor pleno em consumação, igual à letra em italiano, não fossem os subjuntivos e os futuros do pretérito.

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