A seleção natural dos memes

Desde que criei o blog antigo, tempo perdido, muitos amigos me zoam por causa dele: alguns me chamam de “blogueirinho”, outros dizem (ironicamente): “por que você não faz um texto sobre isso?” sempre que eu falo qualquer coisa, e por aí vai. Agora mesmo, estava conversando com uma amiga e ela disse (ironicamente): “por que você não faz um texto sobre memes?”.

Eu não acho que ela realmente queira um texto sobre memes, nem que ela os ache tão interessantes assim. Porém, coincidentemente, existe algo sobre memes que é muito legal.

Acho que foi em 2011 que eu li a obra de ciência popular debutante de Richard Dawkins, O Gene Egoísta. Um livro muito bom de ler, informativo e divertido. Nele, Dawkins propõe que a unidade fundamental onde a seleção natural atua é o gene (e não a espécie, ou um grupo, ou o indivíduo). O autor diz que nós, organismos vivos, somos meras máquinas desengonçadas a serviço do egoísmo dos replicadores (a.k.a. genes), cujo único objetivo é perpetuamente se replicar.

No final do livro, Dawkins faz uma analogia entre o ambiente natural e a cultura humana e inventa uma palavra para designar “pedacinhos de cultura” que se replicam, de humano em humano, até se tornar ou não um “pedacinho de cultura” relevante, numeroso no ambiente cultural. Essa palavra era meme.

O nome vem da raiz grega “mimeme”, que significa “imitação” ou “cópia”. Daí, ele encolheu a palavra, para que ela ficasse mais sonora e mais parecida com gene. Dawkins comparava o gene, um “pedacinho de informação genética”, ao meme, um “pedacinho de informação cultural”. Isso foi em 1976.

Há muitas semelhanças entre a ideia do gene e a do meme. Imagine, por exemplo, lembrando o Choque de Cultura, a frase “é verão, brother”. Essa frase às vezes “gruda” em nossa mente, e passamos a repeti-la. Se a frase (meme) tiver certas características que favoreçam sua “sobrevivência”, como ser de fácil memorização, ser engraçada, estar em português (no caso do Brasil) etc., o meme vai “se espalhar” no ambiente cultural em que foi inserido. Quanto mais repetimos o meme entre nossos amigos, maior a chance de eles também começarem a usá-lo, como se fosse um gene se espalhando numa população.

O meme também sofre mutações. As mutações podem ser ao acaso, por exemplo, quando alguém ouve errado alguma palavra da frase, e passa a repetir essa frase na forma “errônea” (que na verdade não é errada, é apenas alternativa; não há parâmetros objetivos aqui). Essa “frase mutada” vai se espalhar? Depende de suas características.

Se a frase nova for “reverão, brother!”, provavelmente o meme não se espalhará, porque ninguém entende muito bem o que isso poderia dizer. Ainda assim, se a frase errada começasse a ser utilizada, por exemplo, pelo Fausto Silva, com seu jeito próprio de falar, as pessoas começariam a imitá-lo, e o meme vingaria.

Outras mutações podem ser, de alguma forma, previstas. “É verão, bródi” é uma variante preditível da frase original. Talvez em alguns grupos ele se torne prevalente, enquanto em outros a variante “é verão, brother” prevaleça. Sabe, assim como no mar prevalecem barbatanas e na terra, braços.

Esse sentido que Dawkins deu ao termo que ele próprio cunhou, meme, é parecido com o sentido que lhe atribuímos hoje; porém, mais geral. Hoje, meme ainda é, de certa forma, um “pedaço de informação cultural”, mas principalmente um pedaço de informação cultural veiculado pela internet e de cunho humorístico.

18.12.13. A seleção natural dos memes
Esqueleto no Georgia Aquarium.
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