O mineirês, o francês, e o mundo que segue girando

Quando comecei a aprender francês, achei engraçado como sua pronúncia lembra o sotaque mineiro. Sabe como se escreve “eles gostam” em frânces? “Ils aiment”. Sabe como se diz? “Is ême”. Muito parecido com o mineirês: “e’s ama”.

Um dos exemplos mais icônicos de mineiridade no discurso é o “fia”, traduzido para o português formal como “filha”. Em francês, “fille” serve tanto para “filha” como para “menina”. A pronúncia? “Fie”, com um “i” bem longo (quase dois) e um “e” bem aberto.

A conjugação do verbo “aimer” (gostar) é: “j’aime, tu aimes, il aime, nous aimons, vous aimez, ils aiment”. O verbo se flexiona em todas as pessoas, como em grande parte das línguas latinas. A pronúncia, porém, é a mesma para todas as flexões, exceto a primeira e a segunda pessoas do plural.

Fica assim: (j’) ême, (tu) ême, (il) ême, (nous) emôn, (vous) emê, (ils) ême.

E em mineirês: eu amo, cê ama, ele ama, nois ama, cês ama, es ama.

O espanhol é a língua mais parecida com o português. Mas o francês é a língua mais parecida com o mineirês.

***

Por volta do século XII, a língua falada no norte da atual França e em algumas regiões da Bélgica, e a língua franca de grande parte da elite comercial e militar da época, incluindo vassalos na Inglaterra e comerciantes na Sicília, era o Francês Antigo.

Muito diferentemente do Francês Moderno, no Francês Antigo praticamente todas as letras eram pronunciadas; havia muito maior correspondência entre a ortografia e a fonética. Ao longo dos séculos, o francês parou de pronunciar suas consoantes finais (e depois os “e”s que as acompanhavam), mudou o som de algumas vogais e trocou a tonicidade de alguns ditongos, produzindo uma pronúncia muito diferente daquela dos tempos antigos.

Mas a forma de escrever não mudou tanto.

Por isso, até hoje, a ortografia do francês reflete mais a fonética do século XII do que a moderna.

Assim, enquanto “soit” em Francês Antigo seria pronunciado mais ou menos como “soét”, em Francês Moderno é mais ou menos “soá”. “Chantent” era “tchantent”, e hoje é “shant”. Ou seja, os franceses simplesmente comeram três oitavos da pronúncia da palavra, e continuam escrevendo do mesmo jeito que oito séculos atrás.

“Fille” era “filhe” e virou “fie”. Da mesma forma, em mineirês, pegamos o “filha” do português e transformamos em “fia”.

O mineiro é o francês do Brasil.

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Janela de monastério em Brandenburg, Alemanha. Por Dietmar Rabich.

***

As mudanças fonéticas que aconteceram com o francês são normais. Os idiomas estão em constante e rápida mudança. Blog, SMS, tuíte, internet são todas palavras bem novas no português.

Junto a essas mudanças, como em tudo na vida, vem o saudosismo da geração passada. “Na minha época não existia ‘vc’, era ‘você’. Vocês estão matando o português!”.

E geração após geração, matamos o português.

As línguas humanas são incríveis. É difícil imaginar as características que podem existir.

No dinamarquês, artigos definidos vêm pospostos aos substantivos a que referem, aglutinados a eles. Ou seja, é como se “o barril” fosse “barrilo”: o “o” vem depois do substantivo, unido a ele. “O pão” é “brødet”, enquanto “um pão” é “et brød”.

No latim, não importa se o sujeito ou o objeto vem antes ou depois do verbo: “puer amat deum” é o mesmo que “deum amat puer”: “o menino ama o deus”. Ambos são bem diferentes de “deus amat puerum” e “puerum amat deus”: “o deus ama o menino”.

Todas essas coisas loucas só existem porque, geração após geração, os pirralhos assassinaram suas línguas nativas.

Francês, português, dinamarquês e latim são idiomas muito diferentes entre si. Mas todos têm algo em comum, que dividem com todos os outros idiomas do mundo: eles evoluem. Essa é a única regra universal da linguística. Provavelmente, franceses e dinamarqueses estão agora mesmo reclamando de como suas crianças perverteram seus lindos idiomas.

Mas o mundo segue girando. Nenhum grande desastre foi causado até agora pelos garotos que escrevem português errado e não brincam mais de pega-pega na rua. Se houve algum prejuízo, o próprio ambiente se reequilibrou para saná-lo.

Como dizem os franceses, “laissez passer, le monde va de lui même”.

Neste momento, daqui do escritório, eu ouço meu avô, lá no quintal, dizer para minha mãe: “O Nícolas tá com essa mania de escrever em computador agora. Na minha época não existia isso. Quando eu tinha vinte anos eu gostava era de trepar escondido”.

As coisas mudam, vô. As coisas mudam.

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Um comentário em “O mineirês, o francês, e o mundo que segue girando

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  1. Texto gostoso de ler e, também, traz muitas informação interessantes. Comparar o francês ao mineirês ajuda no combate ao preconceito linguístico. Afinal, o complexo de vira-latas do brasileiro se nutre bastante do preconceito linguístico contra os próprios conterrâneos.

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