A poesia de Carlos Marrom Filho

Um dia uma pessoa muito próxima a mim disse que achava louco Charlie Brown Junior ser minha banda preferida. Disse que CBJr era uma banda de adolescente, que as pessoas gostavam até os 16 anos e depois paravam de ouvir.

Ela não podia estar mais errada.

Primeiro porque, apesar de gostar bastante de CBJr, minha banda preferida se chama Raimundos. E os Raimundos, sim, são uma banda para meninos de 16 anos, como podemos perceber simplesmente examinando os nomes de suas canções:

Puteiro em João Pessoa, Esporrei na Manivela, Opa! Peraí, Caceta e Pitando no Kombão.

Só para falar de alguns títulos de canções. Imagina as letras em si. Imagina.

Charlie Brown é diferente. Muita gente guarda a ideia de que Chorão era o skatista bon vivant de Transpiração Contínua Prolongada ou o moleque briguento que deu uma cabeçada em Marcelo Camelo (paia). E, bem, ele realmente era, pelo menos em parte.

19.01.24. a poesia de carlos marrom filho
Tchenken uou tikiplei shalibrau mané! Foto de Editorial J.

Mas Chorão também era um letrista muito competente e, podem me xingar, eu ponho ele no mesmo nível de Renato Russo, que talvez esteja acima de Cazuza (que é meu cantor preferido, aliás), e talvez todos os três estejam acima de Vinicius (lyrics-wise apenas, não estou falando de poesia; o título foi apenas uma estratégia para tentar conseguir mais leitores para o texto).

Não é uma classificação cravada em pedra no meu arcabouço de opiniões musicalísticas, mas talvez seja isso mesmo. Ele tem cacife para competir com Cazuza e Renato e para deixar Vinicius no chinelo. Digo com tranquilidade.

(Desculpa, Vininha.)

***

De todos os versos de Chorão, melódicos e xingantes, profundos e superficiais, dois bateram forte em mim hoje, por conta de circunstâncias personalíssimas. Falo deles a seguir.

Cada escolha uma renúncia, isso é a vida

A ideia de que a vida consiste em escolhas que fazemos e que essas escolhas inevitavelmente incluem abrir mão de outras coisas que também queremos não é original; mas Chorão colocou ela numa frase curta melhor do que ninguém. Uma escolha, uma renúncia. Escolhe, renuncia. E o pior: é impossível fugir a essa dura realidade, já que isso é a vida.

Uma vez em fiz um curso de psicologia positiva, i.e. psicologia da felicidade, e me contaram que o ser humano é mais feliz quando não tem escolhas do que quando tem.

É claro, isso não se sustenta se a escolha for “ser um escravo no Brasil colonial ou ser filho de um bilionário no Brasil do século XXI?”. Mas a agonia de decisões como fazer Direito ou Engenharia, mudar de cidade ou ficar em casa, casar ou comprar uma bicicleta, dizem os pesquisadores, mina a nossa felicidade.

Isso porque, além do estresse de tomar a decisão, temos o estresse de imaginar pelo resto da existência como estaríamos vivendo bem melhor se tivéssemos partido com nossa bicicleta para fazer Engenharia em Ilhéus, ao invés de estarmos aqui fazendo Direito e brigando sobre frivolidades com nossos consortes de casamento.

Mas, para o bem e para o mal, a vida é isso: escolhas. E, inexoravelmente, renúncias.

Tudo é simples, calmo visto de cima

Talvez esta seja minha frase preferida de Chorão, próxima a “mesmo o mais sábio às vezes não encontra uma saída”, do La Família 013. E, pelo menos para mim, ela encerra um pensamento não tão óbvio, não tão intuitivo, mas valioso e por vezes até raro, no sentido de inacessível a nossa consciência.

Foi a partir desse verso, numa música pouco conhecida e de letra bem curta do CBJr, que eu comecei a perceber uma disposição perversa que nossa mente tem e põe em prática nos momentos mais críticos de nossa vida mental: a tendência a fazer o mundo ruir ao nosso redor.

Eu costumo dizer que, enquanto estamos dentro do redemoinho, não conseguimos enxergar nada ao nosso redor. Tudo está girando descontroladamente, a poeira nos cega os olhos, o vento é frio e irrespirável, e nosso corpo rodopia sem controle autônomo. É o fim do mundo sob qualquer avaliação sensata.

Mas apenas porque nosso ponto de vista é muito ruim. Afinal, estamos dentro do redemoinho.

Se pudéssemos nos elevar algumas centenas de metros acima de toda aquela ventania poeirenta e olhar para baixo, veríamos um mar de mansuetude natural, apenas conturbada por um pequeno redemoinho que logo, logo deve passar, dando lugar à tranquilidade absoluta daquela paisagem (até outro redemoinho chegar).

Assim é a nossa vida. É comum acharmos que o mundo vai desabar quando o relacionamento acaba, a vaga no concurso não sai, o pé quebra…

Mas, na imensa maioria das vezes, ele vai continuar firme. E nós podemos perceber isso, se conseguirmos tomar distância e ver tudo do alto, de cima.

Pois, por mais que em nossos piores dias a vida pareça um emaranhado de problemas irresolvíveis que se enrolam uns sobre os outros, isso é só uma impressão viciada pelo ponto de vista anuviado do redemoinho. A realidade é muito menos apocalíptica. Na verdade, tudo é simples e calmo. Basta ver de cima.

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