Como surgem os palavrões?

AVISO: Este texto tem palavrões pra c*ralho.

Alguns assuntos são considerados “sensíveis” nas mais diversas culturas. Palavras relacionadas a religião, sexo, algumas partes do corpo e o que sai dessas partes estão entre as mais propensas a se tornarem tabu. Falar sobre morte, algumas doenças e os parentes de alguém também costuma causar aversão. Todos esses assuntos soam naturalmente ofensivos.

Na medicina, regularmente nós encontramos termos que não são palavrões, mas que causam grande desconforto, principalmente nos pacientes. Câncer, HIV, hemorroida, toque retal. As pessoas evitam, quando podem, utilizar tais palavras, recorrendo a eufemismos ou referências indiretas como “o toque” ou “essa doença”. A própria palavra “doença” é um pouco sensível, sendo substituída por “enfermidade” ou “distúrbio” em alguns contextos.

E quando você está puto com alguém e tem de fato a intenção de ofender? Você pode amaldiçoá-lo com uma doença terrível, ou desejar-lhe a morte, ou compará-lo a algum órgão ou excreta humana.

Se as pessoas começam a usar demais essas palavras nesses sentidos, elas passam a ser ofensivas em si mesmas, e não apenas pelo que representam. As próprias palavras tornam-se tabus. Xingamentos. Palavrões.

Por isso, um professor que diz vagina no meio de uma aula causará algum estranhamento e desconforto, mas muito menos do que se dissesse boceta, apesar de ambos os termos representarem a mesma coisa.

Grosseiramente, o ciclo da vida de um palavrão é: uma palavra normal que representa algo sensível (como falamos no primeiro parágrafo); o uso dessa palavra em contextos mais vulgares ou ofensivos; a vulgarização da própria palavra e a recusa em dizê-la em contextos mais sérios.

Ao invés de ser uma palavra normal que representa algo sensível, o futuro palavrão também pode ser uma palavra normal que representa algo normal (o filhote da galinha, p. ex.), cujo significado é transmitido a algo sensível (o órgão sexual masculino), já em contexto vulgar.

Hoje, pinto não é “o filhote da galinha”, boceta não é uma “caixinha redonda ou oval usada para guardar pequenos objetos” e trepar não é “subir agarrando-se com os pés e as mãos”. Pelo menos não na maioria das vezes.

19.02.21. Como surgem os palavrões
Ei, se liga, sua perereca! Figura por Renato Augusto Martins.

Essa forma de gerar um palavrão muitas vezes decorre da própria recusa em utilizar um termo chulo para descrever algo sensível. Um escritor que usa mastro, membro ou ferramenta como metáfora para o órgão sexual masculino pela primeira vez, na recusa de usar pênis ou caralho, planta a semente do que pode vir a ser um palavrão.

Se a palavra terá sucesso no mundo da vulgaridade (como pinto, pau, boceta ou cu) depende de vários fatores, incluindo a influência social de quem disse, tempo e pura sorte, e até mesmo as características fonéticas da palavra.

No português, para os substantivos chulos, gostamos de palavras curtas (geralmente de duas sílabas, menos comumente de três ou apenas uma), paroxítonas, terminadas “o”, se do gênero masculino, ou “a”, se do feminino: puta, pinto, pica, merda, mijo, porra, foda, bosta etc.

Alguns palavrões têm um longo caminho na obscenidade. O termo cu, por exemplo, já era usado em latim (culus) para se referir ao ânus de forma mais ou menos vulgar. De culus, além de cu, temos o frânces cul, o italiano culo e o espanhol culo, todos de certa forma vulgares. Anus, por outro lado, era uma palavra formal para se referir à abertura caudal do trato digestivo no latim; seu significado original, porém, era anel. Hoje, em português, podemos usar anel para nos referir a ânus, informalmente.

Outra palavra antiga é merda, que do latim passou para o português e o italiano como merda, para o francês como merde e para o espanhol como mierda, sempre significando fezes. Muitíssimo curiosamente, deu origem ao verbo romeno dezmierdare, que significa algo como “demonstrar carinho”. A princípio, dezmierdare tinha o sentido de “limpar o ânus de fezes”, o que foi associado a pais cuidando de seus bebês, o que levou à associação com cuidado e carinho.

Outras obscenidades latinas que sobrevivem nos idiomas românicos incluem mingere e meiere (mijar, mear), cacare (cagar) e futuere (foder, follar, foutre, fottere).

Alguns objetos têm maior tendência a serem usados para representar obscenidades em diferentes culturas, de forma aparentemente independente. Cock, inglês para galo, representa pênis, de forma semelhante a pinto. Bitch, inglês para cadela, é usado para se referir a mulheres de forma pejorativa, como cachorra em português. Pussy, inglês para gata, é usada para se referir a vagina, assim como chatte, em francês, e xana, em português.

E é mais ou menos assim que palavras inocentes tornam-se palavrões.

***

Nesta estrofe de um poema galego-português do século XIII, uma cantiga de escárnio e maldizer do cancioneiro João Soares Coelho, podemos ver o verbo foder e também o termo pissuça, derivado de pissa, que significa pênis:

Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,
que ja non pode sol cospir a saíva
e, de pran, semelha máis morta ca viva,
e, se lh’ardess’a casa, non s’ergería.
Par Deus, Luzía Sánchez, Dona Luzía,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ía.

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