Medicina, tatuagem, dor e arrependimento

Do you know what a duvet is?

***

Muitas vezes já me perguntaram por que eu deixei de estudar direito para estudar medicina, e sempre perguntam se eu não gostava do direito. Eu gostava. Não amava, mas gostava.

Eu não acho que eu serei mais feliz ou realizado ou satisfeito na vida por estar fazendo medicina do que seria se tivesse feito direito ou engenharia ou psicologia ou letras ou economia. Eu ainda gosto de discutir os aspectos normativos da sociedade, adoro a lógica crua da matemática, sou fascinado pela mente humana, não paro de escrever e sonho em trabalhar no mercado financeiro. Mas também gosto da ideia de estancar um sangramento interno mortal na barriga de um candidato à presidência, mesmo que seja o único candidato que de forma alguma eu gostaria que ganhasse.

Parece que a gente tem uma tara com isso de achar a “profissão certa” para nós. Esses dias uma colega disse que não sabia se gostava mesmo de medicina ou se queria fazer outra coisa. Eu lhe disse que isso não importava, que se preocupar com isso era narcisismo. Ela se sentiu ultrajada:

Como assim, não importa? O trabalho que eu vou realizar o resto da vida, mais uns 40 ou 50 ou 60 anos não importa? E se eu não gostar mesmo de medicina? Vou ter que continuar fazendo isso, mesmo sem gostar, o resto da vida? Preocupar-me com meu bem-estar é narcisismo?

E eu lhe disse:

É!

O que importa se você não gosta do seu emprego? Você não trabalha para se satisfazer, você trabalha porque precisa. E daí que você não é feliz? A vida não serve para ser feliz; ela serve para ser vivida. Você pode até querer a felicidade, custe o que custar, mas pelo menos admita que isso é fruto de seu narcisismo desvairado.

E ela, claro, não concordou com essa insensatez, e chegamos a checar a definição de narcisismo na internet:

Narcisismo é o amor de um indivíduo por si próprio ou por sua própria imagem.

E ela continuou:

Quer dizer que você acha que se eu me preocupo comigo mesmo, a ponto de não querer ficar o resto da vida fazendo algo que não me agrada, isso faz de mim uma narcisista? Eu não posso escolher nada, então, que é narcisismo? Não posso escolher uma faculdade, pois isso já é narcisismo?

E eu lhe disse:

É!

A questão não é escolher ou não a faculdade: de alguma forma ou de outra temos que escolher. O problema é escolher com base no medo de um futuro triste e na esperança de um futuro feliz; escolher com base na autopreservação, no amor-próprio: no narcisismo. Não importa que curso você faça: não há razão para acreditar que você teria sido mais feliz fazendo outra coisa. Imaginar-se fazendo outra faculdade e comparar sua vida imaginária com a vida que você tem em mãos é estupidez. E é narcisismo.

Eu sempre penso essa mesma coisa quando alguém fala que tem vontade de fazer tatuagem, mas tem medo de se arrepender depois, ou de enjoar. Qual seria a fonte desse medo bobo, senão um culto desmedido a si próprio e ao próprio corpo? Se sua pele vai enrugar e cair, se seus cabelos vão perder a cor (e/ou cair), se seus telômeros vão se encurtar, seus olhos se entupirão de proteínas que opacificarão sua visão, se seus ossos se tornarão porosos, enfim, se o tempo lhe reserva o definhamento total de seu corpo físico e de suas faculdades mentais, por que se preocupar com uma imagem em um pedaço de pele? Por que você é tão importante assim? Você é realmente tão especial?

Uma tatuagem arrependida é apenas uma lembrança de que você já foi mais bobo do que é agora. A ausência da tatuagem é a lembrança de que, além de bobo, você era covarde.

A incerteza quanto ao “curso certo” que garantirá nossa felicidade futura tem a mesma base do medo do arrependimento de uma tatuagem: narcisismo.

E não é só nosso curso que importa: queremos achar o companheiro ideal, o trabalho ideal, a casa ideal, na cidade ideal. Até o tapete deve ser o tapete certo. Vivemos no constante medo de não nos agradarmos o máximo que poderíamos.

E aí, a gente tem medo de chegar no final da vida e se arrepender. Tememos nos arrepender de não ter amado mais, chorado mais e visto o sol se pôr. Tememos nos arrepender de não haver trabalhado menos e nos preocupado menos com problemas pequenos. Tememos nos arrepender de não ter visto o sol se pôr.

Mas quando a gente encara a vida com a obrigação de fazer as escolhas certas (para ser feliz ou qualquer coisa), sempre vai haver razão para arrependimento. Porque sempre vai haver uma escolha não escolhida que tinha o potencial de ser melhor do que a que você escolheu.

Ser advogado é legal, mas se eu tivesse estudado letras…

Se eu tivesse me dedicado mais àquele projeto ao invés de ir para a praia…

Se eu tivesse voltado para casa em vez de ficar para ver o sol se pôr…

Se vivermos assim, no final, vamos nos arrepender de ter tido tanto medo de nos arrepender.

***

Gostaria de terminar com duas passagens, uma de Tyler Durden e outra de Zeca Pagodinho, com mensagens similares. Tente adivinhar quem disse qual:

1) Pare de tentar ser completo, pare de tentar ser perfeito. Vamos evoluir! Deixe que as coisas aconteçam como elas devem acontecer.

2) Deixa a vida me levar; vida leva eu!

19.04.10. A tatuagem, o vestibular e o arrependimento
Foto de Roberto Filho (2014).

***

It’s a blanket. Just a blanket.

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