Agentes da misericórdia, Código de Hamurábi e conservadores

Uma das minhas cenas preferidas de uma das minhas obras de arte preferidas é julgamento dos mortos no Auto da Compadecida, do genial Ariano Suassuna.

João Grilo, lívido de medo de ir para o inferno, garante que vai apelar contra as acusações do Encourado para a “mãe da justiça”. Ninguém entende o que ele quis dizer. E quem é que é a mãe da justiça?

É a misericórdia.

***

É uma história real, contada pela Dra. Meghann Kaiser.

Um homem abusivo, inconformado com o término do relacionamento, esfaqueou a ex-namorada 30 vezes e depois apunhalou o próprio estômago. Os dois receberam atendimento médico e passaram por cirurgias. O rapaz ficou vários dias no hospital, sob os cuidados da Dra. Kaiser.

Todos os dias, ela visitava seu leito e lhe dispensava os cuidados ordinários de todos os pacientes em pós-operatório. Apesar do crime hediondo que ele cometera, seu tratamento não era diferente daquele de outros paciente: era o melhor possível.

Depois de alguns dias, uma aluna da Dra. Kaiser lhe interpelou sobre aquela situação. Ela não aguentava mais: “Como você consegue tratá-lo tão bem? Esse cara é um monstro! Ele não merece tudo isso!”.

A médica respondeu:

No mundo existem agentes da misericórdia e agentes da justiça, e nós precisamos dos dois. Eu, como médica, sou agente da misericórdia.

***

O Código de Hamurábi é a origem do famoso “olho por olho, dente por dente”. Hoje, essa frase e esse conjunto de normas são considerados bárbaros, violentos e cruéis. Mas nem sempre foi assim.

A verdade é que o Código de Hamurábi não serviu para garantir que os criminosos fossem gravemente punidos por seus crimes. Não, não, era exatamente o contrário. As leis de Hamurábi eram garantidoras de direito.

Imagine uma terra sem lei, em que se mata por dívida ou por honra. Quem era roubado se sentia no direito de torturar e matar o ladrão, por exemplo. Os abusos eram comuns. A história humana é repleta de momentos assim.

Nesse contexto, o Código de Hamurábi serviu para limitar os excessos nas punições, não para criar penas rígidas.

Hoje, em larga escala o Código Penal ainda serve para isso: garantir que não haverá excessos nas aplicações dos castigos penais. É um marco civilizatório. Pois na lei da selva, o abuso é a regra.

É um instrumento de justiça, mas uma justiça misericordiosa. E é assim que deve ser.

***

Ainda bem que a humanidade mudou muito dos tempos de Hamurábi para cá, e mudou para melhor. De fato, estamos vivendo a melhor época de todas e o mundo é cada vez mais convidativo aos seres humanos.

Às vezes eu penso que essas mudanças positivas na humanidade se devem em grande parte ao trabalho dos progressistas. Afinal, se hoje a escravidão está abolida, foi a ideologia progressista que conseguiu romper a tradição. Se hoje gays são mais respeitados do que nunca foram na sociedade ocidental, isso se deve aos progressistas. Et cetera.

Pensando dessa forma, parece óbvio que os progressistas são muito mais espertos do que os conservadores.

Mas não é bem assim.

Enquanto o progresso (ético e social, não apenas tecnológico) de fato permite que os seres humanos vivam cada vez maior, o conservadorismo garante que as instituições e as conquistas passadas se mantenham fortes e continuem beneficiando a todos.

Existem agentes do progresso e agentes da tradição, e nós precisamos dos dois.

“Nós” neste caso se refere à sociedade. Os dois são importantes para a humanidade em geral. A nível individual, conservadores são muito mais chatos. Muito mais.

Mas é bom saber que eles são pessoas boas.

***

Segundo o tal Ariano Suassuna que eu falei lá em cima, o otimista é um tolo e o pessimista é um chato; bom mesmo é ser um realista esperançoso.

Por saber que os bons são maioria e que o melhor ainda está por vir, eu mantenho o meu realismo esperançoso firme e forte e inabalável.

Creio que num futuro não muito distante reconheceremos que prender alguém que gosta de uma droga diferente da sua é uma insensatez tremenda. Acredito que nos daremos conta de que não vale a pena proteger um punhado amorfo de células insensíveis só porque elas têm um genoma parecido com o nosso. Estou convencido de que passaremos a ver mais e mais os animais como seres dignos de nossa total compaixão. Convenceremo-nos de que a misericórdia é a mãe da justiça e que todo excesso é uma fraqueza e não um insulto.

O mundo já é muito melhor do que foi. Mas pode ser muito mais.

Até lá, olho por olho e dente por dente.

19.08.03. Agentes da misericórdia, Código de Hamurábi e conservadores.jpg

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑