Deuses, ditados e cavalos

Uma das tarefas do escritor de não-ficção é resumir pensamentos complexos em frases curtas e de fácil assimilação que consigam capturar a essência do tal pensamento. Não é uma incumbência particularmente importante — eu acho. Mas é útil.

Humanos parecem ser naturalmente inclinados a gostar de frases curtas e de fácil assimilação. As maiores verdades da humanidade podem ser destiladas em frases breves de fácil entendimento:

A pressa é inimiga da perfeição.

Quando um não quer, dois não brigam.

Deus ajuda quem cedo madruga.

Elas são muitas vezes chamadas ditados ou provérbios.

Provérbios são pequenas sentenças que resumem conhecimentos humanos geralmente seculares, frutos de inúmeras gerações de pessoas de uma tradição cultural particular. Muitas vezes, provérbios de uma cultura muito diferente da nossa são aplicáveis em nossa própria realidade, mostrando como algumas aflições e maravilhas de nossa existência são realmente universais.

Todo provérbio, por mais bobo que pareça, tem algum pensamento complexo por trás dele que resistiu à prova de séculos ou milênios de gerações humanas. Não os subestime — eles são poderosos.

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Assim como os ditados, deuses são destilados de verdades seculares que uma sociedade considera as mais importantes. Deuses são ditados antropomorfizados, uma síntese de tudo que é bom — ou verdadeiro — no ser humano.

O deus cristão, por exemplo, é um super-homem idealizado que contém tudo que é bom e desejável e é alheio a tudo que é ruim e indesejável: ele é poderoso, mas misericordioso, essencialmente bondoso, sábio etc., etc. Ele é uma referência a todos os seres humanos, que, numa sociedade cristã, devem aspirar ser como ele, na medida do possível.

Os deuses gregos, por outro lado, são seres defeituosos. Porém, suas narrativas, assim como as narrativas da bíblia cristã, ainda sintetizam grandes verdades: elas explicam o mundo segundo a visão da sociedade a que serviam — tanto o que é bom como o que é mau.

Toda historinha bíblica, por mais boba e inverossímil que pareça, tem algum pensamento complexo por trás dela que resistiu à prova de milênios de gerações humanas. Não as subestime — elas são poderosas.

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Nem sempre se deve levar um provérbio ao pé da letra, com pena de ferimentos potencialmente graves:

Cão que ladra não morde.

Alguns deles podem parecer inadequados e até ofender algumas pessoas:

Cem homens podem formar um acampamento, mas é preciso uma mulher para se fazer um lar.

Isso acontece porque provérbios são verdades, mas não são verdades absolutas.

Também por isso, provérbios nunca devem ser invocados como argumentos, pois ditados não são evidência de nada concreto.

“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” não é evidência de que você deve continuar insistindo com aquela menina que já deixou bem claro que não vai rolar e “de médico e louco todo mundo tem um pouco” não lhe permite receitar medicamentos.

No fim, ditados apenas não bastam. Se servem muito bem para resumir a essência de uma verdade complexa, não podem ser confiados cegamente como guias da atitude humana pelos meandros da vida. Provérbios são, inevitavelmente, genéricos demais, e sujeitos às mais diversas interpretações, de acordo com a agenda de quem o lê ou profere.

***

Em Provérbios 17:28, o deus cristão observa que “até o tolo, quando se cala, é reputado por sábio; e o que cerra os seus lábios é tido por entendido”.

Quem me introduziu a esse pensamento foi um amigo meu que era um pouco tímido. Acho que era uma forma de ele se defender da própria timidez, que é genericamente considerada uma qualidade ruim em nossa sociedade (afinal, deus não é tímido). Eu, que também o sou, gostei.

Mas o fraseamento era um pouco diferente e a fala era reputada a Abraham Lincoln — hoje sei que Lincoln nunca disse isso. Era assim:

Melhor ficar calado e deixar pensarem que você é um tolo, do que falar e tirar toda a dúvida.

Um pouco mais coercitiva essa versão.

Como sempre, esse ditado tem hora e lugar para ser aplicado. Se por um lado devemos ser honestos e materializar nossos pensamentos em sugestões, críticas e elogios para contribuir com a boa convivência, por outro lado simplesmente há horas em que devemos ficar calados.

Como diz mamãe, quem conversa demais dá bom dia a cavalo.

E dar bom dia a cavalo é um hábito péssimo de se cultivar.

***

Ditados são limitados. Por isso, precisamos de elaboração.

Os melhores livros do mundo podem ser reduzidos a três ou quatro sentenças que encerram suas principais lições. Imagine se, ao invés de ler um livro de trezentas páginas para retirar duas ou três lições importantes, você pudesse ler um livro que resume centenas de lições de outros livros. A razão conhecimento/tempo seria astronomicamente maior.

Só que isso não funciona.

Para realmente entender e aplicar algum conhecimento na vida prática, precisamos de profundidade. Não basta uma frase: precisamos de contexto — uma história, paráfrases, exemplos, detalhes etc.

Não basta dizer em três linhas. Verdades importantes devem ser repetidas várias vezes.

Por isso, eu lhe recomendo que não leia blogs; leia livros.

Mas isso é só um conselho, e se conselho fosse bom a gente não dava, vendia.

Mas este é dado, então aceite de bom grado.

Afinal, a cavalo dado não se olha os dentes.

19.08.05. 1. Deuses, ditados e cavalos
Bom dia.
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5 comentários em “Deuses, ditados e cavalos

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