Pinturas rupestres, smartphones e LSD

No sudoeste da França, na bacia do rio Vézère, existe um conjunto de cavernas chamado cavernas de Lascaux. Elas são famosas — relativamente famosas — porque contém em suas paredes e tetos pinturas produzidas por humanos há mais de 17.000 anos.

A maioria das pinturas representa animais da região. Ninguém sabe ao certo qual era sua razão de ser — se servia a algum propósito prático ou se fazia parte de algum ritual espiritual. O que sabemos é que esses humanos, que tinham que caçar e colher o próprio alimento, que desconheciam antibióticos e anestesias, que não possuíam nem carroças nem smartphones, 17 milênios atrás, esses seres humanos já faziam arte.

De alguma forma, eles encontravam uma maneira de criar sentido do mundo, mesmo nas condições literalmente selvagens em que viviam.

***

Tem um verso de Raul Seixas que eu gosto muito. Na canção Eu também vou reclamar, ele diz:

Dois problemas se misturam, a verdade do universo e a prestação que vai vencer.

É uma frase simples que resume a ideia de que humanos são seres físicos, mas também espirituais.

Uma das diferenças fundamentais entre humanos e não-humanos é essa nossa capacidade de fazer sentido das coisas. O homem não vive inteiramente no mundo real — há sempre algum componente de sua consciência fora do mundo sensível, seja perambulando sobre os mistérios dos pontos brilhantes no céu, seja planejando o que fazer amanhã.

E a responsável por conectar a consciência humana coletiva a seus anseios espirituais é a arte. É a arte que elabora ordem a partir do caos que é O Desconhecido.

Assim, é um erro pensar que arte não é conhecimento. Arte é conhecimento e é fundamental; mas é de uma qualidade diferente daquela do saber científico. Diferente, porém de forma alguma menos importante.

Eu amo a ciência, de coração. Sou fascinado com todas as coisas que conseguimos fazer depois que  desenvolvemos a metodologia científica alguns séculos atrás. Por isso, detesto pseudociências como astrologia e homeopatia.

Mas é inocência achar que o pensamento científico responde todas as questões humanas.

Por isso, o lema deste blog é Crítica & Evidência & Poesia, e não só Crítica & Evidência.

Afinal, artistas e cientistas não são tão diferentes assim.

***

Em 1820, o poeta inglês John Keats publicou o poema Lamia. Nele, Keats argumenta que “a filosofia”, ou seja, a ciência, destrói a beleza da experiência sensorial ao explicá-la:

A filosofia decepará as asas de um Anjo,
Decifrará os mistérios item por item,
Eliminará o encanto do ar e o tesouro escondido –
Desvendará o arco-íris.

Richard Dawkins dedicou um livro inteiro, Desvendando o arco-íris, para discorrer sobre como na verdade a ciência e a arte se complementam, ao invés de se anular. Segundo o biólogo — e nisto estou totalmente de acordo com ele — o saber científico só aumenta a beleza da poesia que podemos sorver da natureza.

Um grande exemplo de como o conhecimento científico potencializa a estética do mundo está na astronomia. O céu, visto daqui, é por si mesmo poético; mas essa poesia só aumenta depois que aprendemos que há muito mais estrelas do que podemos enxergar, e que elas estão mais longe do que podemos imaginar, e que elas são maiores do que nossos maiores sonhos.

Tanto é que um dos meus “poetas” preferidos se chama Carl Sagan:

Para criaturas pequenas como nós, a imensidão só é suportável através do amor.

***

No livro A mente assombrada, um de meus livros preferidos, o neurologista e escritor Oliver Sacks brilhantemente coloca:

“O ser humano tem […] as necessidades básicas de se alimentar, beber e dormir, […] mas há outras necessidades mentais e desejos emocionais que talvez sejam exclusivamente nossos. Viver apenas o dia presente é insuficiente para um ser humano; precisamos de transcendência, […] para ir além de nós mesmos, seja com telescópios e microscópios e com a nossa sempre florescente tecnologia, seja em estados de espírito que nos permitam viajar para outros mundos, transcender nosso ambiente imediato”.

Transcendemos nossa existência mundana não apenas explorando as estrelas e pintando paredes, mas também ingerindo substâncias que alteram nossa percepção. O uso de psicotrópicos é tão antigo quanto a própria história: usadas para recreação ou de forma ritualística ou terapêutica, as drogas estiveram presentes em todas as culturas. Séculos e milênios atrás, os nativos andinos mascavam coca, os nativos amazonenses tomavam ayahuasca, os navajos usavam peiote na América do Norte e os citas faziam “sauna de maconha” na Ásia Central. E, claro, os romanos bebiam vinho.

Psicologicamente, artistas e drogados têm muito a ver. O domínio da personalidade abertura a experiências prediz tanto uma tendência maior à apreciação estética como a experimentação de psicotrópicos. Naturalmente, tudo tem a ver com buscar o novo — e, também, criar o novo.

Não só isso, mas o consumo de drogas é efetivamente capaz de tornar as pessoas mais criativas. Psilocibina e LSD aumentam os scores de abertura a experiências após uma única dose, e as mudanças permanecem pelo menos após um ano, mas aparentemente muito mais, talvez para sempre.

No fim, o que já sabíamos era verdade: drogas expandem mentes.

***

Segundo Steve Jobs, usar LSD foi uma das experiências mais importantes de sua vida. Não é um caso tão isolado: de Albert Hofmann (o pai da “criança problemática”) aos Beatles, de Francis Crick a Steve Jobs, a dietalamida do ácido lisérgico encantou muitos artistas, cientistas e empreendedores.

Existe algo comum entre todas essas profissões: todas vivem no limite entre o desconhecido e o conhecido; sua tarefa é criar soluções. Assim como artistas e cientistas, empreendedores exploram os limites da capacidade humana de se colocar no mundo.

Empreendedores e artistas são a mesma pessoa, seguindo caminhos diferentes.

É óbvio que Jobs não foi um gênio por causa do LSD — seria pueril pensar que foi a droga que o fez ser quem é. Mas note que o próprio Steve Jobs coloca essa experimentação como um dos momentos mais importantes de sua vida. Portanto, não devemos subestimá-lo tampouco.

Além, é claro, de sua obsessão, imensa motivação, persuasão e muitas outras capacidades admiráveis, a criatividade de Jobs foi uma grande responsável pelo sucesso inédito da Apple no mundo.

E eu sei o que é bom para criatividade…

***

Infelizmente, parece que nos últimos tempos tem crescido certo descontentamento da sociedade com as artes (e com as ciências humanas, também). Espalha-se a desconfiança de que os artistas são descartáveis e desimportantes — e, mais indelicadamente, de que são folgados e inúteis.

Mas as pinturas de Lascaux são prova de que essas nossas necessidades espirituais são tão importantes quanto nossas necessidades físicas. A gente não quer só comida — a gente quer comida, diversão e arte.

Se nem todos os humanos têm aptidão para serem grandes artistas, todos podemos nos beneficiar da admiração estética. As artes expandem nossos horizontes e nos dão a oportunidade de sermos mais compreensivos e fraternos. Encaramos as coisas da vida com mais perspectiva e nos enxergamos mais em cada pessoa que cruza nosso caminho. É, a arte tem esse poder de conectar humanos — fazer-nos chorar juntos. Ou rir juntos.

E é por tudo isso e por muito mais que eu acho importante que ensinamos às crianças calcular o quadrado da hipotenusa — mas também acho vital que elas saibam quem é João Gilberto.

Para que não tenhamos um presidente que não sabe quem é João Gilberto.

Entre caçadas de mamutes e fugas de dentes-de-sabres, nossos ancestrais faziam e apreciavam arte. Nós não temos desculpas.

Lascaux II

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑