Os que dançam são taxados loucos por quem não ouve a música

Tem uma frase famosa reputada a Nietzsche, largamente repetida na rede mundial de computadores, que diz que “aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”. Uma linda e mínima ode àqueles que vivem à margem da sociedade, vilãmente ridicularizados pelos robôs de gravata da sociedade atual.

É claro que Nietzsche nunca disse isso. Apesar do protagonismo da música em sua literatura e do protagonismo da loucura em sua vida, não há evidência de que ele tenha jamais dito tal frase, nem nenhuma parecida.

O primeiro registro que consegui encontrar de um pensamento parecido com esse vem de um ensaio, escrito por uma senhora francesa na primeira metade do século XIX (portanto, antes de Nietzsche), sobre a Alemanha. O nome do texto é De l’Allemagne (Sobre a Alemanha) e o nome da senhora é Madame de Staël (Madame de Staël). 

A frase abre o capítulo terceiro da quarta parte do tijolo de mais de 600 páginas que é De l’Allemagne. O nome do capítulo é Sobre o culto dos Irmãos Morávios (Du culte des frères Moraves), que é o nome de uma seita protestante luterana da qual você nunca ouviu falar.

Originalmente, a frase que Nietzsche nunca disse:

Quelquefois même, dans le cours habituel de la vie, la réalité de ce monde disparaît tout à coup; et l’on se sent, au milieu de ses intérêts, comme dans un bal, dont on n’entendrait pas la musique, le mouvement qu’on y verrait paraîtrait insensé.

Em tradução livre:

Algumas vezes, no curso normal da vida, a realidade do mundo desaparece de repente e nós nos sentimos como se estivéssemos no meio do seu caminho, como em um baile onde não pudéssemos ouvir a música: o movimento que veríamos nos pareceria insensato.

A interpretação mais comum da frase “de Nietzsche” derivada do trecho de Madame de Staël é que as “pessoas normais”, alienadas, não entendem o entusiasmo das “pessoas livres” que dançam, e lhes colocam rótulos negativos, como “loucos”. Os que dançam são comparados a artistas bem sucedidos, empreendedores inovadores, líderes de vanguarda política, pessoas que largaram tudo para viver numa fazenda de subsistência perto de Pirenópolis — ou, simplesmente, a jovens, drogados e hipsters; enquanto os que não ouvem a música são os trabalhadores, os alienados, o personagem de Chico em “Construção”, o seu pai, o meu pai, os chatos que exigem que nós escolhamos direito, engenharia ou medicina.

Mas, pelo menos inicialmente, não era nada disso.

Não se trata de uma diferença fundamental entre eles e nós. Todos nós estamos no mesmo baile. Todos estamos dançando e ouvindo a música juntos. Trocamos de pares, encontramos pessoas que não víamos desde o começo da festa, bebemos um pouco de cerveja, bebemos um pouco de água, ficamos lá na frente e depois vamos lá para o fundo, saímos para fumar um cigarro, pisamos no pé da moça mais linda da pista, derrubamos bebida no moço mais lindo da banda, trocamos nossos sapatos…

E todos nós, mesmo que apenas por alguns segundos, às vezes nos sentimos distantes, e tudo parece muito estranho, muito pouco natural. Parece que nosso ouvido entupiu ou nossa pressão baixou. Não dá para entender o que está acontecendo, toda aquela gente se mexendo na sua frente, esbarrando nos seus ombros, segurando sua mão. Parece que não pertencemos ali, que estamos no lugar errado.

Aí, o ouvido desentope, a música volta, e continuamos a dançar.

Foto em domínio público.

***

Mas não foi isso que Madame de Staël quis dizer. Ela só estava falando de como a religião protestante pode seduzir pessoas desiludidas.

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