Mães e filhos

Folha velha de agenda, recortada com típico esmero. 27 de fevereiro de 1997. A anotação “Início Cleide” isolada na parte superior da folha.

Embaixo, uma carta que eu só leria mais de uma década depois. Mais de duas décadas depois.

Nícolas, hoje você completa 2 aninhos. Que lindo você está! Já anda para todo lado, brinca sozinho e fala várias palavras. A mamãe te entende bem, mas os outros ainda não. É lindo ficar te ouvindo tentando falar o mais perfeito possível. Sai cada ‘coisa’, meu filho!

Quero te dizer que eu o amo e que estou aqui para cuidar e te fazer feliz e que isso é pra mim a maior felicidade. Eu amo você, meu ‘grande’ filho. Feliz aniversário. A Vitória e o papai também amam você.

***

Quando eu comecei a ir para o SESI Roosevelt, eu era um chorão. Lembro de ir ao médico um dia depois da escolinha, falando que estava com dor “no pescoço” para minha mãe. Mas era dor de cabeça. Eu sempre tenho dor de cabeça quando choro.

Eu não era pequeno. Não tinha mais tamanho para chorar de saudade de casa — ou de medo dos meus coleguinhas de quatro anos de idade e seus sorrisos simpáticos que pareciam muito perigosos. 

Desde pequeno, sou muito apegado à minha família. Meus tios, meus primos, e principalmente meus pais e minha irmã. Quem me visse naquela época, eu penso hoje, ia dizer que eu era um pirralho mimado, que ia crescer e ser um bananão, um bunda mole.

Talvez eu seja.

Mas eles não viram o terror de todos aqueles sorrisos simpáticos de quatro anos de idade.

***

Em 2004, saiu o filme biográfico de Cazuza, baseado no livro de Lucinha Araújo, mãe dele. Foi a primeira pessoa de quem eu me tornei fã (e sou até hoje!). Ninguém aqui em casa ouvia Cazuza, nenhum colega de escola, nenhum primo. Só eu.

Minha mãe me proibiu de ver o filme. Achou que seria má influência.

Eu descobri que o filme havia sido baseado em um livro e lembrei que Harry Potter também havia sido, e notei que Harry Potter era um filme ótimo, mas os livros eram muito melhores ainda. Então, fui procurar o livro.

Achei o tal na Livraria Siciliano, que existia antigamente lá no Center Shopping. Comecei a ler o livro por alguns minutos todas as vezes que íamos passear lá. A livraria ficava bem do ladinho da praça de alimentação antiga, ali perto de um japonês. Eu me sentava lá e lia a história de Cazuza nas palavras de Lucinha.

No epílogo do livro, Lucinha cita uma frase do filho dela que é muito verdade para o filho de minha mãe:

Uma pessoa que não tem uma família boa, que não teve uma boa estrutura familiar, fica aleijada por dentro. Eu não posso me queixar de escassez de carinho, só de excesso. Mas é muito melhor!!!

É, eu não posso me queixar de escassez de carinho. Só de excesso.

***

Tela de celular, quebrada. 27 de fevereiro de 2019. Vibração no bolso.

À inspeção, uma mensagem que viajou longe para chegar ali.

Hoje meu bichinho tá fazendo mais um aniversário!! Como passou rápido… Que alegria senti quando soube que estava grávida… E como sou feliz desde então!!! Filho, que meu infinito e eterno amor seja capaz de tornar seu mundo muito melhor! Que Deus te proteja todos os dias!! Te amo tantão!!!!

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Tá boa a conversa. Mas vou ali pegar uma dipirona.

Que as crianças aprendam no colo o sentido da vida. Foto em domínio público.

3 comentários em “Mães e filhos

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