relógios, neurocirurgiões que criam gado e o sofrimento do mundo

na neurologia existe um exame chamado “teste do relógio”. ele consiste em pedir ao paciente que desenhe um relógio de ponteiros indicando 9h15 ou algum outro horário que envolva os dois lados do desenho. não pode haver relógios à vista durante o teste, claro.

é um teste bem simples. afinal, quão difícil pode ser desenhar um relógio, né?

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este desenho é de um paciente de 57 anos (salvo engano) cuja queixa principal era tremores de extremidades. ele tinha tremores de grande amplitude nas mãos que, entre outras coisas, dificultavam sua alimentação.

parece algo um pouco banal: um senhor de idade com algum tremor. mas, para esse paciente, era um pesadelo.

a falta de controle fino das mãos havia o impossibilitado de usar o garfo. ele só conseguia comer de colher agora. e isso o envergonhava bastante, de forma que ele havia parado de sair de casa. isso, por sua vez, irritava sua esposa, que ainda queria sair com o marido para comer em restaurantes e encontrar amigos etc. e isso tudo o deixava ainda mais triste e deprimido.

sabe quando você acorda em um dia normal e sua mente ainda está se recuperando do torpor do sono e de repente você se lembra de algo terrível que aconteceu no dia anterior, que por alguns segundos esteve fora de sua consciência? esse senhor acordava todos os dias graciosamente, e aí se lembrava de que não conseguia controlar as próprias mãos nem para comer.

o sofrimento é a coisa mais pessoal que tem — talvez se ele soubesse que tem um câncer mortal ele não ficasse tão triste.

***

quando eu estava começando na faculdade de medicina, li uma entrevista com o neurocirurgião paulo niemeyer, que é parente do arquiteto. nessa entrevista, ele fala de um médico famoso, o turco mahmut gazi yasargil, eleito por pares o “neurocirurgião do século” em 1999. 

niemeyer conta que yasargil teria dito que não entendia os neurocirurgiões do brasil: eles o convidavam para visitar suas fazendas — eles criavam gado!

uma das marcas dos gênios é essa capacidade (obsessão doentia) de se dedicar inteiramente a um ofício só. eu admiro isso. não faço isso, tanto que tenho um blog sobre coisas desimportantes enquanto sou estudante de medicina, mas admiro quem consegue ser doentio assim.

e, confesso, tenho algum ressentimento por médicos criadores de gado.

***

o mst é um dos maiores e mais famosos movimentos sociais do mundo.

existe muita desinformação sobre o mst. muitos relatos de casos isolados que servem para deslegitimar todo o movimento e muitas mentiras também. eu diria que o brasileiro médio de todas as classes sociais é “contra o mst”. provavelmente isso é mais pronunciado nas classes mais altas, mas acredito que seja verdade até nas mais pobres.

não é que seja errado… mas me parece tão estranho, tão fora de base, defender o direito de um médico ter um latifúndio improdutivo, enquanto trabalhadores rurais não têm terra nem trabalho.

eu entendo que eles tenham o direito de fazer o que quiser com o dinheiro que acumularam em décadas de trabalho hiper-remunerado. eu entendo que a maioria das pessoas não seja obcecada o bastante para gastar 100% do seu tempo com um trabalho só. eu entendo que elas se deem o direito de comprar grandes fazendas para relaxar (e tentar multiplicar seu capital — claro!).

mas é um luxo bobo, que não beneficia ninguém. se um latifúndio é improdutivo, melhor dá-lo aos trabalhadores — eles terão terra para trabalhar e vão produzir alimento para o país. e o médico vai ter mais tempo para fazer o que faz de melhor e o que o trabalhador rural não pode fazer: medicina.

imagina se todos os médicos (engenheiros, advogados, juízes, arquitetos) dessem seus latifúndios improdutivos ou mal administrados para os profissionais da terra e dedicassem seu tempo às suas profissões. truly win-win.

***

esse paciente tinha cerca de 25 anos. eu chamei ele lá na recepção e um cara enorme se levantou, junto a uma senhora despenteada, de vestido e sandálias moleca. ele estava usando um capacete de motociclista. mandei entrar.

uma meningite bacteriana grave nas primeiras semanas de vida e ele adquiriu uma epilepsia que o acompanhará pelo resto da vida. ainda hoje, ele tinha cerca de duas crises por dia. sua mãe suplicou que ele passasse a usar o capacete depois de uma queda em que ele bateu a cabeça e desmaiou. 

ela, ao contrário dele, era pequenininha. com o vestido e as sandálias moleca, lembrava muito minha avó paterna. tinha o semblante duro, mas tratava o filho com uma ternura que só as mães têm. sorte dele.

pode ser por causa da meningite ou da epilepsia ou dos remédios anticonvulsivantes que ele tinha esse retardo mental. ele conversava bem e vivia normalmente, mas não parecia alguém saudável de 25 anos. ele tentou desenhar o relógio duas vezes:

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ele tomava quatro remédios, sendo que apenas dois eram disponibilizados pelo sus. os outros ela comprava, a 250 reais a caixa. 250 reais num mês, para uma mãe miserável e seu filho epiléptico.

não basta serem pobres. não basta uma meningite neonatal. não basta a doença. não basta o retardo mental. ela ainda tinha que bancar os remédios, todo mês.

a desgraça vem em atacado.

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