Considere o improvável

Crianças abaixo de dois anos com infecção de urina não conseguem elaborar os sintomas clássicos da infecção de urina que nós, adultos, conseguimos. Não se diagnostica infecção de trato urinário (vulgo ITU) em lactentes através de sintomas como ardência ao urinar e aumento da frequência de micção. Toda vez que um bebê tem febre sem razão evidente deve-se colher uma amostra de urina adequada para fazer pesquisa de bactérias.

Até aí tudo bem, mas existe outro problema: o bebê não consegue pegar o potinho do exame, ir ao banheiro, higienizar sua genitália e fazer xixi dentro do potinho, sem encostar em suas margens. Em termos práticos, na maioria das vezes, o lactente não passaria nem da fase “pegar o potinho”.

Então devemos colher a urina de outro modo, que pode ser com uma sonda vesical de demora, uma sonda que passamos pela uretra até a bexiga. É um método relativamente confiável, mas nem tanto assim. A forma mais confiável de colher urina de um bebê de menos de dois anos é através de uma punção suprapúbica: uma agulha enfiada embaixo do umbigo da criança, até sua bexiga.

Eu não lembro os números agora, mas se a criança tiver fatores de risco (febre há mais de 24 horas, sexo masculino não circuncisado etc.), as chances de a urocultura vir positiva são algo em torno de 5% (realmente não lembro os números). Ou seja, você enfia uma agulha embaixo do umbigo de 20 crianças febris com fatores de risco para conseguir apenas um diagnóstico correto.

A medicina é assim: trabalhamos com probabilidades muito pequenas. Frequentemente, porque o preço a se pagar quando o improvável acontece sem estarmos preparados para ele é alto demais. Uma criança sem diagnóstico de infecção do trato urinário pode significar uma pielonefrite e uma doença renal crônica. Caro demais.

Por isso, temos que considerar o improvável. Muitas vezes, os exames que fazemos têm uma chance muito pequena de achar o que procuramos. Mas temos que procurar, mesmo assim.

(Isso quando pedimos certo. Quantos exames médicos no mundo inteiro não são pedidos desnecessariamente, por medo excessivo, por pressão do paciente e sua família, ou simplesmente por ignorância.)

É improvável que esta criança tenha ITU. Mas considere isso.

***

Em 2005, David Foster Wallace fez um discurso aos graduandos em artes liberais do Kenyon College que ficou conhecido como “This is water”.

Nessa obra, Wallace descreve vários aporrinhamentos cotidianos pelos quais muitos de nós passamos cotidianamente: a fila no supermercado, com fome, à noite, depois de uma jornada de trabalho cansativa e antes de uma noite mal dormida que antecederá outra jornada de trabalho cansativa; o trânsito apinhado de carros desnecessariamente grandes e barulhentos; a burocracia e o amargor dos agentes burocratas etc.

Quando estamos nessas situações, tendemos a malver e amaldiçoar tudo que causa ou está relacionado à nossa frustração: essa caixa de supermercado incompetente, que não consegue achar o preço da banana na tabela; esse careca velho, feio, que precisa comprar um carro de três metros de largura para ir da casa ao escritório; esse cara folgado atrás do balcão, cheio de má vontade com minhas solicitações etc.

Esse é o nosso modus operandi normal. Nosso padrão. Nosso default.

Wallace então propõe: quando estiver na fila da caixa de supermercado incompetente, xingando-a mentalmente, considere a possibilidade de ela estar três noites sem dormir, acompanhando o pai no hospital, com um diagnóstico recente de câncer avançado.

É improvável, muito improvável. Mas é possível. Assim como a ITU do lactente.

Mas se você acha isso duvidoso demais, considere a possibilidade de ela ser uma jovem que tentou muito passar em uma faculdade e não conseguiu, e agora trabalha para ajudar a família em um serviço que não gosta, mas do qual não pode abrir mão, enquanto sonha em ser veterinária. Considere que ela seria uma ótima médica de cachorros se tivesse a chance e que já salvou um casal de gatinhos recém-atropelados sem receber nada em troca, algo que você nunca fez.

Pode ser improvável. Mas o preço que se paga por não considerar isso é alto demais.

Imagine que num acesso de raiva você decida falar para aquela menina que ela é incompetente e que deveria ser demitida, afinal, é verdade e alguém devia dizer isso. Acabar com o dia de uma pessoa que está três dias sem dormir acompanhando o pai com câncer no hospital é um preço alto demais.

Acabar com o dia de qualquer um é um preço alto demais.

Considere o improvável.

O título deste texto poderia ser “Infecções de trato urinário, Davis Foster Wallace e caixas de supermercado”, mas gente demais criticou meus títulos trinucleados. 

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