Da morte apenas nascemos

Vinicius de Moraes não nos deixou realmente uma obra filosófica. Ele tinha um gênio desorganizado e hedonista demais para longas prosas profundas. Seu talento foi empregado mais em curtas crônicas, poemas e letras de músicas, através dos quais temos uma janela para qual teria sido sua filosofia.

Um dos meus poemas preferidos, de Vinicius e entre todos os poetas que conheço, é o Poema de Natal. Ele termina com as palavras “da morte apenas nascemos, imensamente”.

Seria fácil interpretar esse verso como a expectativa de uma vida futura além da morte, da sobrevivência do espírito sobre a carne. Eu mesmo cheguei a pensar isso. O Poema de Natal é de 1946, fase de transição na poesia de Vinicius, em que este deixava de ser o tradicionalista de formação católica que era para se tornar o Poetinha que quase todo mundo conhece hoje.

Porém, apesar de sua formação e de sua obra ligada ao catolicismo nos primeiros anos de poesia, Vinicius nunca foi realmente religioso, e isso é claro como cachaça. Nem católico, nem umbandista, não obstante seus trabalhos ligados a ambas as religiões. Muito sábio, Vinicius valorizava a espiritualidade, mas nunca comprou nenhuma grande narrativa.

Eu, tal qual Vinicius, também não tenho deus. Gosto de entender que nascemos da morte mais no sentido de que nosso estado natural é a não-existência. Infelizmente ou não, somos seres efêmeros, que existem por um tempo muito breve antes de voltar à nossa condição normal, que é não existir. 

Como disse Richard Dawkins, nós vamos morrer, e isso faz de nós os sortudos. A maioria das pessoas nunca morrerá, pois nunca sequer nascerá. O número de combinações de cromossomas que poderiam gerar pessoas diferentes de qualquer uma que já viveu no planeta é maior do que o número de grãos de areia da Arábia.

Por isso, a morte não é nenhuma perda. A vida não nos é tomada. Nós apenas devolvemos algo que nunca foi realmente nosso. A vida é só um empréstimo, lindo e breve.

Maria Bethânia e Vinicius de Moraes, 1972.tif

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