Qual é a mais bela letra da música brasileira?

Depois de anos de lutas e debates com os melhores letristas do Brasil, vamos às minhas finalistas:

“Aquarela”, de Toquinho e Guido Morra.

“Tocando em frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira.

“Mistério do planeta”, de Luiz Galvão e Moraes Moreira.

“Mistério do planeta” sai na frente, com os primeiros versos mais lindos que conheço na música lusófona:

Vou mostrando como sou e vou sendo como posso, jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos. E pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto.

A arrancada de “Mistério do planeta” arranca aplausos da plateia, mas as outras competidoras parecem não se abalar tanto… Elas sabem que ainda há muito pela frente.

De todo modo, a verdade é que a primeira estrofe de “Mistério do planeta” deixa as duas concorrentes no chinelo, de longe, comendo poeira. O início de “Tocando em frente” é bom, mas modesto, e o início de “Aquarela” é o que se espera de uma música infantil a la “era uma casa muito engraçada”.

Na segunda estrofe, “Aquarela” acelera um pouco o passo com a linda metáfora de Toquinho para o horizonte do céu:

Vai voando, contornando a imensa curva norte-sul.

Mas a gente sabe que uma andorinha não faz verão e um verso não é capaz de vencer essa competição, e “Mistério do planeta” continua bem na dianteira, com “Aquarela” em segundo, muito pouco à frente de, olha que engraçado, “Tocando em frente”.

Continuamos mais alguns versos sem muitas emoções: “Mistério do planeta” já não tem mais letra, e depende da inércia de sua arrancada inicial para tentar vencer essa disputa. “Tocando em frente” continua em um ritmo próprio, consistente e moderado: foi ultrapassada e está na última posição, mas mostra que ainda tem fôlego. “Aquarela”, depois da despretensiosa aceleração na segunda estrofe, voltou ao ritmo lento do início do certame, perdendo aos poucos a módica vantagem que tinha em relação à lanterna carregada por Renato e Almir.

Nas estrofes seguinte, “Tocando em frente” mostra alguma reação. Não vemos a genialidade que pôs “Mistério do planeta” na liderança da contenda, mas vemos muito mais densidade do que os versos pueris de “Aquarela” que, justiça seja feita, é uma música para crianças:

Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha, ir tocando em frente. Como um velho boiadeiro levando a boiada, eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu vou… Estrada eu sou.

Chegamos à metade da contenda e, meu deus!, o que é isso? Acelerada brutal das duas letras espremidas na traseira da competição. “Aquarela” mostra imenso poder de fogo ao apresentar outra metáfora muito bonita:

E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar: não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar. Sem pedir licença, muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar.

“Tocando em frente” não deixa para menos:

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora, um dia a gente chega, no outro vai embora.

“Mistério do planeta” olha para trás; as concorrentes vêm em ritmo acelerado. A distância diminui; ela se preocupa.

Magnificamente, inexplicavelmente, extraordinariamente, já na reta final, “Aquarela” aumenta ainda mais o ritmo:

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá. O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar. Vamos todos numa linda passarela de uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.

E “Tocando em frente” acompanha seu passo:

Cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz.

E as três cruzam a linha de chegada nariz a nariz.

Os juízes da prova se reúnem. O árbitro de vídeo é acionado. “Mistério do planeta”, em toda sua hippidade, não parece tensa. “Tocando em frente” cochicha alguma coisa para sua comissão técnica. “Aquarela” é chamada pelos árbitros para uma sala particular.

Minutos de tensão. Os árbitros e a competidora saem da sala. “Aquarela” está chorando. O árbitro sinaliza a desclassificação de “Aquarela”.

Muito murmurinho na torcida. Algumas vaias dos torcedores de “Aquarela”, que parece resignada. Ela recebe as condolências das duas adversárias, que mostram bastante fair play, e vai para o vestiário. Atitude de campeã.

A razão, segundo os boatos que correm, é que “Aquarela” na verdade é a versão em português de “Acquarello”, escrito por Guido Morra, com música de Maurizio Fabrizio e Toquinho. Apesar de Toquinho haver modificado bastante a letra em português, com seu próprio toque de genialidade, ficou claro que a força da letra devia muito à versão italiana de Guido, e os juízes julgaram (rs) que isso era contra as regras do torneio.

Por fim, depois de checar várias vezes em vídeo, declaram “Tocando em frente” a campeã. Por pouco, os versos iniciais de “Mistério do planeta” não levaram a taça para o sítio hippie de Jacarepaguá. No camarote da torcida, João Gilberto cumprimenta Sérgio Reis e sai, enquanto o último pula a grade e vai comemorar com Almir e Renato.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑