Não menospreze a motivação barata

Existe um ciclo de vida ingrato para os “pedaços de conhecimento” mais importantes da humanidade. Primeiro, ele é “descoberto” e anunciado. As pessoas reconhecem a importância daquele pensamento e passam a reproduzi-lo, porque é necessário repetir as coisas importantes. Ele é passado a mais e mais pessoas, e mais e mais pessoas reconhecem a sabedoria encerrada nele e o passam a mais e mais pessoas. Em algum momento, esse pensamento se torna tão conhecido e tão repetido que as pessoas passam a banalizá-lo. A fácil disponibilidade do pensamento nos dá a impressão de que ele é algo ordinário e nós não conseguimos mais enxergar a sabedoria que há nele. Mas ela ainda está lá, se conseguirmos ver além desse véu de banalidade.

Eu concluí em anos de leitura e escrita de não-ficção que uma das tarefas de um bom escritor é justamente resgatar o valor desse conhecimento milenar sob a forma de clichês. Isso pode ser feito, claro, com a elaboração do pensamento por trás da frase. Se essa elaboração for muito boa, ela funciona como se fosse a própria redescoberta daquele pensamento. As pessoas passam a repeti-lo, porque ele é bom, e cada vez mais pessoas entram em contato com ele. A tendência, conforme a elaboração passa de pessoa para pessoa, é que ela se simplifique: as pessoas resumem o pensamento até chegarem a frases de efeito curtas e densas em significado (ditados, provérbios). Essas frases, se forem muito boas, tendem a se tornar os novos clichês.

Isso vale também para versos poéticos. Que genialidade há na frase “tudo vale a pena se a alma não é pequena”? É uma obviedade, um lugar-comum de nossa língua. Que força teria um poema escrito hoje com o verso “que seja infinito enquanto dure”? Nenhuma, serviria apenas para atestar a não-poeticidade do texto. Foram precisos gênios como Fernando Pessoa e Vinicius de Moraes para descobrir estes versos, mas eles são tão bons e bonitos que hoje todo mundo os conhece e, em geral, os menopreza.

Esse é o paradoxo do clichê: quanto mais sábia é uma pequena frase, mais desvalorizada ela tende a ser. Como disse David Cain, clichês são pensamentos tão geniais que são repetidos até parecerem bobos; mas a genialidade deles ainda está lá.

A lição é: não menospreze essas frases que você ouve toda hora. Pense fora da caixa, saia da zona de conforto, não há ganho sem esforço, seja grato pelo que você tem, veja o lado positivo das coisas: todas estes conselhos encerram conhecimento humano verdadeiro, curado ao longo de gerações de seres humanos que vieram antes de você. Não deixe que o cinismo e a arrogância o impeçam de ver além do véu de banalidade que reveste esses clichês.

Note, porém, que nenhum conhecimento de importância prática universal pode ser integralmente resumido em uma frase curta. Leve os clichês em consideração, mas aprenda a tirar o que há de bom neles e descartar o que há de mau. O verdadeiro crescimento pessoal só acontece quando há elaboração. Use as frases simplistas como ponto de partida, mas não pense que elas bastam. Elas são densas, mais ainda são leves.

Levar os clichês ao pé da letra é tão preguiçoso e inútil quanto descartá-los completamente.

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