Competência e humanidade

Quando pensamos em humanidade, em ajudar pessoas, constantemente pensamos em caridade, Criança Esperança, doações, missões humanitárias etc. Tudo isso faz parte da nossa humanidade e são formas importantes de ajudar pessoas que precisam de ajuda. Mas este está longe de ser o único caminho, e muito provavelmente não é nem o mais importante ou mais eficiente.

O melhor jeito de ajudar as pessoas é sendo competente.

O advogado que estuda, se prepara e trabalha com agressividade ajuda mais as pessoas do que o advogado preguiçoso que doa parte de seus ganhos para “a caridade”. Isso serve para economistas, engenheiros, mecânicos, policiais, atletas, professores etc. Basicamente, para quase qualquer profissão, excetuando-se algumas como agiota e matador de aluguel — que nem podem ser consideradas profissões.

Tirando exemplos como esses, o argumento se mantém: a melhor forma de ajudar as pessoas é sendo competente.

Essa competência precisa se acompanhar de uma ética para ser construtiva. Bons advogados podem destruir vidas se tiverem valores pouco gregários e bons engenheiros podem criar bombas atômicas. A competência não necessariamente vem com bons valores. Mas o ponto não é esse.

O ponto é: se você quer realmente ajudar as pessoas, preocupe-se mais em ser bom, seja lá no que for que você faz.

***

Eu por vezes penso que existe uma sobrevalorização do voluntariado, da caridade, como se fosse uma entrega completamente altruísta a uma causa e isso santificasse aqueles que fazem parte desses programas, mesmo que doem poucas horas por semana em serviços pouco especializados (fáceis).

Não é que não seja importante. É importante. Eu mesmo participo de projetos como esses. Mas isso é uma ajuda ínfima. Ninguém deveria se sentir orgulhoso por “ajudar pessoas” simplesmente porque fazem parte de projetos como esses, dedicando-se a eles de forma extremamente limitada.

Novamente, é importante. É algo que deve ser feito e tem benefícios, tanto socialmente como pessoalmente. Mas não é a melhor, muito menos a única forma de ajudar pessoas.

Fazer caridade é fácil. Fazer a diferença é difícil.

***

Jordan B. Peterson fala que o século XX viu as maiores atrocidades que um ser humano é capaz de fazer. É claro que ele se refere ao nazismo.

Sobre Hitler, Peterson diz que a razão pela qual não vemos outros hitlers não é porque não existe o ímpeto genocida e autoritário em outras pessoas: é porque não existe o gênio organizacional que Hitler tinha.

Hitler não foi capaz de causar o mal que causou porque era mal-além-do-comum. Existem muitas pessoas que pensam de forma semelhante à que ele pensava. Muitas mesmo. Mas dificilmente alguém é motivado, inteligente, disciplinado e cativante como ele era.

Da mesma forma que para causar um mal extraordinário não basta maldade, para causar um bem extraordinário não basta bondade. É preciso competência.

Pessoas-que-ajudam-outras-pessoas não devem focar em pequenos trabalhos aqui e ali por pequenas causas. Isso pode e deve ser feito, mas é marginal. Pessoas-que-ajudam-outras-pessoas devem focar em 1. se construir, adquirir habilidades raras e refiná-las a níveis extraordinários, continuamente, durante anos e anos; 2. encontrar outras pessoas com habilidades raras e refinadas; e 3. trabalhar em conjunto com essas pessoas em projetos inteligentes.

Focar em ser o seu melhor é o maior ato de humanidade que há.

gates

5 comentários em “Competência e humanidade

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  1. Curiosa essa análise, mas tem muitas questões aí… O ser humano tem inúmeras potencialidades, por que se limitar à sua profissão formal? Por que entregar cestas básicas ajuda menos do que ser um engenheiro? Não necessariamente atividades que utilizam mais a intelectualidade são mais importantes do que um gesto de afeto. Podemos ser bons em qualquer coisa que a gente faça e qualquer boa ação tem sua importância. O que é pouco para um pode ser enorme para outros. Depende do ponto de vista. Bom domingo! 🙂

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    1. Oi, Nicole. Obrigado pelo comentário.
      Realmente, há muito que discordar nesse texto. Ele é mais uma provocação do que a exposição de uma verdade testada.
      Meu argumento é: realmente existem várias formas de fazer o bem, entregando cestas ou sendo gentil. Inclusive, ser gentil no dia-a-dia pode resultar num bem danado à humanidade no fim de uma vida. Acredito nisso.
      A questão de se dedicar a fazer sua profissão de forma muito bem feita vem da consciência de que passamos a maior parte da vida trabalhando — isso é verdade para a maioria das pessoas.
      Logo, ser excepcional no seu trabalho resultaria em mais benefícios para mais pessoas, simplesmente porque gastamos um número de horas muito maior no trabalho do que em outras atividades, a maioria das vezes.
      Bom domingo!

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