Gente nasceu pra querer

Um dos meus heróis, Raul Seixas, tem uma canção em que ele diz que “gente nasceu pra querer”.

Raulzito estava certo. Nós, humanos, queremos sempre mais. Conseguimos o dedo e queremos a mão. Conseguimos a mão e queremos o braço. E assim vai.

Preferimos a viagem ao destino. O processo ao objetivo. O meio ao fim.

Chegamos, e queremos partir. Partimos, e queremos chegar.

E sempre confabulamos sobre o que não tivemos, temos ou teremos. O que nos falta nos afeta mais do que o que nos abunda. Cada escolha é uma renúncia, e as renúncias marcam mais que as escolhas.

Por isso eu sou um pouco cético quanto àquelas histórias de que no leito de morte ninguém se arrepende de não ter trabalhado mais, e sim de não ter passado mais tempo com a família e com os amigos. Para mim, as pessoas sempre vão se arrepender de algo: quem trabalhou muito se arrependerá de não ter se dedicado mais à família, e quem se dedicou mais à família se arrependerá de não ter trabalhado mais.

Porque gente nasceu pra querer.

Eu terminei esses dias esse documentário sobre Michael Jordan sobre o qual todos estão falando. Michael Jordan é um monstro. Ganhou seis vezes o campeonato da NBA, ganhou cinco vezes o título de melhor jogador da liga e é um dos esportistas que mais ganharam dinheiro no mundo (junto com Tiger Woods e Floyd Mayweather, até onde eu me lembro).

No final do documentário, Mike fala sobre como uma treta entre o gerente dos Bulls e o resto da equipe, incluindo o técnico Phil Jackson, impossibilitou que a equipe que vencera o sexto campeonato pudesse disputar mais um. O gerente do time dizia que não tinha condições para a equipe continuar. Mike diz que eles teriam continuado, se fossem autorizados.

O entrevistador então pergunta se foi bom se aposentar no auge. Mike responde que não, por que “nós podíamos ter ganhado o sétimo”, e continua: “talvez não ganhássemos… mas não ter tido a oportunidade de tentar… é algo que eu não consigo aceitar”.

MJ teve tudo que um jogador de basquete pode sonhar. Poucos esportistas no mundo são tão conhecidos como ele — talvez ele seja o número 1 até nisso. E mesmo assim, mesmo sendo um fenômeno da cultura popular, bilionário e vencedor de SEIS NBAs… ele nunca vai aceitar não ter disputado o sétimo campeonato. 

Esse era seu nível de amor pelo esporte.

Não é que família não seja importante. Pessoas são a parte mais importante da nossa vida. Ganhar um sétimo título não seria apenas mais um anel — seria mais um ano de perrengues diários com seus colegas de equipe.

Construir algo significativo junto com outras pessoas — seja uma árvore genealógica, a história de um time ou um blog — faz bem. E eu acho bem possível que você se arrependa de não ter se dedicado mais a isso no seu leito de morte.

De uma coisa eu sou convencido: vamos nos arrepender de algo, de qualquer jeito. É natural.

Gente nasceu pra querer.

raul seixas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑