O futuro não basta

Um dos meus versos preferidos de Raul Seixas está em uma das versões daquela canção de maconheiro Como vovó já dizia: quem não tem presente se conforma com o futuro.

Não ter presente e se conformar com o futuro é uma maldição. É aquela estória bem conhecida da pessoa que vende seu presente em troca de promessas de futuro: agora eu sou miserável, mas no ensino médio vai ser legal, com festas de 15 anos e bebedeiras; agora eu sou miserável, mas na faculdade vai ser legal, fazendo o que eu realmente quero e morando sozinho; agora eu sou miserável, mas depois que me formar vai ser legal, trabalhando e ganhando dinheiro. E por aí vamos: sempre postergando a felicidade.

Essa é a tragédia de quem não tem presente: conformar-se com o futuro. E isso geralmente é péssimo, pois, como diriam os Racionais MCs, “o amanhã é ilusório, porque ainda não existe; o hoje é real, as oportunidades de mudança estão no presente”.

Não vale a pena tentar viver no futuro. A única forma de viver é no presente.

O futuro não basta.

***

Mas existe outro lado da questão.

Uma das capacidades que definem o ser humano é justamente a de se planejar para o futuro. Grandes feitos humanos sempre envolvem a capacidade de renunciar a prazeres momentâneos e instantâneos em nome de valores ou aspirações maiores.

Isso é até mesmo ligado ao caráter. Uma pessoa incapaz de adiar recompensa, impulsiva, que diz o que quer e que faz o que dá na telha é uma pessoa ruim (por servir a si próprio desmedidamente) ou fraca (por não conseguir resistir a tentações). Seres humanos mais inteligentes, nobres e altivos são aqueles que renunciam aos impulsos reptilianos do diencéfalo em nome das estratégias voltadas a objetivos do neocórtex.

Entregar-se aos prazeres do presente pode significar um futuro miserável. E, enquanto é verdade que o futuro é ilusório, porque ainda não existe, ele eventualmente deve chegar. E aí, se seus presentes passados tiverem sido um bacanal de autoindulgências, é bem possível que seus presentes futuros sejam dolorosos e arrependíveis.

Não dá para viver todos os dias como se fosse o último. É preciso se planejar para os futuros também.

 O presente não basta.

***

Nós vivemos nessa corda bamba: os cálculos neocorticais e os arrebatamentos diencefálicos, a certitude do agora e a expectativa do depois, o que se quer neste momento e o que se desejará ter feito dali a pouco. E, verdade seja dita, a saliência do presente é muito maior; afinal, ele é real, diferentemente do futuro.

Por isso, pode ser muito, muito difícil se comprometer a projetos de longo prazo com dividendos incertos.

Imagine estudar o ano inteiro, todos os dias, horas por dia, para tentar passar em um concurso. Imagina suprimir a vontade de comer quitutes durante meses, todos os dias, para tentar emagrecer. Imagine passar doze anos de faculdade e residência para tentar ser um bom cirurgião cardíaco.

As promessas de futuro não bastam nessas condições. No começo é fácil: criamos um objetivo, ficamos animados e começamos a mil por hora. Mas antes do que se espera o cansaço se abate e nosso mau-caratismo se mostra.

É por isso que, para aumentar nossas chances de atingir objetivos grandiosos em longo prazo, é preciso que tenhamos reforços positivos no curto prazo. David Cain já falou isso aqui: nossos objetivos devem melhorar nossa vida no curto prazo para que continuemos com eles até chegar às recompensas de longo prazo.

Estudar para concursos, fazer dieta e cursar medicina tornam-se tarefas mais fáceis se as quebrarmos em centenas de pequenas metas que podemos cumprir no curto prazo, associando uma pequena recompensa a cada um desses pequenos êxitos. O segredo é revestir algo desagradável (uma tarefa) com algo legal (uma pequena autoindulgência). Em português, chamamos isso de dourar a pílula. Em inglês, é temperar o remédio com uma colher de açúcar.

***

Há muitas formas de manter a automotivação durante projetos longos e difíceis. A ideia geral é: 1. criar metas no curto prazo alinhadas com o objetivo maior que sejam um pouco desafiadoras, mas possíveis de serem alcançadas com consistência; e 2. designar pequenos prêmios ligados à realização de cada meta.

Então, se você fizer o compromisso de correr cinco quilômetros por dia, você pode se dar um chocolate ao final de cada corrida abaixo do tempo x. Se você fizer o compromisso de fazer sessenta questões de residência médica por dia, você pode se permitir uma cerveja sempre que acertar x por cento. E por aí vai.

Os pequenos prazeres associados ao cumprimento de metas constantes facilita que mantenhamos o esforço dirigido a objetivos. Talvez você não precise disso no primeiro mês, já que estará muito motivado, mas em longo prazo isso pode aumentar bastante suas chances de sucesso.

Viva no presente, mas pense no futuro. E continue andando.

future

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