Por que escrever?

Uberlândia, 10 de junho de 2020.

Sexta-feira. Clima bom e fresco. 18:37.

Estamos terminando o primeiro terço do mês ainda, e julho de 2020 já é o quarto mês com maior audiência no blog desde novembro de 2018, quando ele recomeçou neste endereço. Já foram 2.400 visitas, uma gota no oceano que é a internet, mas uma gota tão legítima e tão bonita e tão querida para mim, que chega a valer quase um oceano.

Nas últimas semanas, o blog tem crescido não apenas em audiência, mas também em escritores. João e Raiana e seus poemas já são de casa, e saem toda terça e quinta, enquanto Raíza já publicou um texto próprio e uma tradução de texto meu para o espanhol. Outro amigo-poeta, o Zé, deve começar a publicar seus poemas em breve, e também já me disse que quer fazer uma série sobre direito e cannabis, que foi o tema de sua tese de mestrado em Direitos Fundamentais. Outro amigo, Paulista, já tem dois textos revisados e quase prontos, que devemos publicar em breve; ele vai abordar assuntos econômicos interessantes com análises baseadas em evidências.

Tenho outro amigo que também quer publicar, mas ainda não temos nada concreto. Esses dias, falando sobre publicar ou não, ele perguntou qual seria o valor de escrever algo que pode ser encontrado na internet, de forma mais completa e com mais qualidade, com uma simples pergunta no Google.

Eu entendi o que ele quis dizer e isso é algo que me acompanha desde o início do blog. Por que escrever sobre os efeitos da cocaína no cérebro, se há milhares de coisas mais bem escritas, por autores mais bem informados, acessíveis a todos pela internet? Por que escrever sobre determinismo e livre arbítrio de forma tão tosca e desconexa, se há talvez milhões de entradas sobre esses assuntos de forma mais organizada, confiável e bonita?

Eu sempre digo que tempo é a coisa mais valiosa que tem. É assim que inicio minhas falas sempre que vou apresentar algo em público: “obrigado por dedicarem seu tempo a isto, espero que valha a pena”. Tempo não é banal. Então, qual é o sentido de investir meu tempo escrevendo e esperar que o leitor invista seu tempo lendo o que escrevi?

Primeiro, nada bem feito é insignificante. Todo texto meu é feito com o carinho de um artesão, que pensa cada detalhe de cada pequeno produto que produz. Não é perfeito, mas pretende ser, ou pelo menos pretende ir nessa direção. Desde o design do blog até as chamadas para redes sociais, faço tudo à mão, com a intenção de que tudo seja bom e bonito.

Aliás, fazer coisas boas e bonitas e funcionais me parece uma boa ética, que vale inclusive para si mesmo: tentar ser cada vez mais bom, bonito e funcional.

E é provável que sempre haja uma obra (ou alguém) melhor e mais bonita e mais funcional, mas isso não tira o valor de outra obra (ou outro alguém) que seja boa, bonita e funcional. O problema é ser ruim, feio e disfuncional e tender cada vez mais à má qualidade, à feiura e à disfuncionalidade.

Segundo, quando dizemos que existem milhares de coisas melhores na internet, isso é um pouco enganativo. Elas realmente existem, mas isso não quer dizer exatamente que elas sejam acessíveis. O problema não é apenas ter internet: é saber procurar, saber ler inglês, saber ler jargões, saber separar o que é confiável e o que não é, interpretar e criticar o que é lido etc. Nós temos, teoricamente, acesso a todo o conhecimento do mundo, mas tendemos muito mais a consumir o que está próximo de nós, socialmente, culturalmente e até geograficamente. Muitos amigos leram meus textos sobre determinismo e foram introduzidos pela primeira vez à teoria, sobre a qual nunca haviam pensado antes — mesmo que ela exista há séculos e tenha sido discutida pelos maiores filósofos da história ocidental.

Nós somos seres tribais. Temos acesso à internet, mas ainda somos tribais.

Eu mesmo, quando preparava minha primeira apresentação As drogas no cérebro, queria entender em detalhes como as alterações neurofisiológicas relacionadas a cada droga se relacionavam com as alterações comportamentais típicas. Eu descobri que é extremamente difícil encontrar isso na internet, principalmente em português, e acredito que eu tenha escrito e apresentado coisas bem legais sobre esses assuntos ao longo dos anos, no blog e no Quora. Existem muitas coisas que podem ser melhor explicadas, se você estiver disposto a se empenhar em fazer isso.

Terceiro, escrever é um exercício. Eu escrevo hoje mais para organizar meu pensamento, exercitar minha crítica e aperfeiçoar minha forma, do que para ser lido. Eu sou novo demais e sei pouco demais para escrever algo que realmente faça a diferença. Mas eu acredito que em dez anos estarei muito melhor; em 20 anos, estarei evoluindo muito ainda; em 30 anos, estarei perto de ser excepcional; em 40 anos, estarei no meu auge. Aí sim, eu espero ter escrito algo de grande valor. Por enquanto, é mais um treino, público e às vezes doloroso.

Quarto, se você fizer algo bem feito sobre um assunto interessante e importante, isso terá valor para as outras pessoas, mesmo se muitas pessoas já tiverem escrito sobre o mesmo assunto antes. É necessário repetir coisas importantes. Talvez a forma como você escreve é a forma que vai tocar realmente uma pessoa. Talvez você diga algo que já foi dito milhares de vezes, mas que nunca penetrou em sua mente, senão quando você falou, do seu jeito.

Eu passei muito tempo lendo David Cain, The Last Psychiatrist, Victor Lisboa, Rodolfo Viana e Alex Castro na adolescência. Eles mudaram minha vida. Nenhum deles é clássico, nenhum deles é considerado um grande gênio — são praticamente desconhecidos, pelo menos pra quase todo mundo. Mas eles me tocaram. E eu sinto que tenho a capacidade deles de tocar algumas pessoas. Talvez não agora, mas em 40 anos.

Eu posso estar errado, claro. Mas eu vou apostar que sim.

Afinal, isto aqui é uma conversa, uma exposição de minhas ideias a outras pessoas. Eu realmente tenho muito prazer fazendo isto. Não é porque quero parecer intelectual ou qualquer coisa assim. Mesmo que eu queira.

Eu desenvolvi uma coragem e um senso de propósito que se fortalece cada vez mais desde que criei o blog. Escrever e divulgar o que você escreve é se expor, de forma bem concreta. É correr o risco de ser mal interpretado, de ser mal citado, de ofender e de ter suas palavras usadas contra si mesmo — e tudo isso aconteceu comigo em algum momento. Eu não faria isso de forma alguma se não acreditasse muito em minhas intenções e na minha capacidade de realizá-las. Escrever aqui, talvez acima de tudo, é uma forma de me superar.

No fim, quando está tudo dito e feito, eu escrevo, apenas. Tem que ter porquê?

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***

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