Estamos todos nus

O ser humano é um animal particular. De todas as espécies do Jardim do Éden, somos a única que acordamos. Estamos nus e estamos com medo. Mas, também, cheios de possibilidades.

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Eu parei de comer carne diversas vezes desde 2010. Às vezes fiquei poucos dias, às vezes fiquei alguns meses. O motivo era sempre o mesmo, mas a convicção aumentou gradativamente: os animais não precisam sofrer como sofrem em nossas mãos.

Constantemente, pessoas questionam a escolha pelo vegetarianismo, quase sempre com premissas absurdas. “Nosso cérebro cresceu porque a gente comia carne”, “alface também é ser vivo”, “preciso de proteína” etc. Tudo nonsense.

Mas existe uma questão que realmente me põe para pensar quando eu falo sobre não comer carne. E ela tem a ver com o fato de comer carne realmente ser algo natural. Animais comem carne. Minha gatinha, linda e fofa, é uma caçadora implacável. E, o pior, ela não come os insetos e pássaros que caça: ela os persegue, machuca e aleija, e geralmente gasta longos minutos brincando com o corpo semivivo e sem esperança do animal, aparentemente sem objetivo nenhum, senão se divertir.

Eu tenho alguns amigos que estudam veterinária. Geralmente pessoas que vão para essa área gostam muito de animais. E eles precisam alimentar os carnívoros com outros animais. Olha que loucura! Enquanto eles tratam alguns ratinhos, eles dão outros de bandeja para alimentar cobras.

Como é que é isso? Qual o sentido de salvar um animal e sacrificar outro? Afinal, nenhum deles fez nada de errado. São todos inocentes.

Ou não são?

Seres humanos e cobras geralmente não têm boas relações. Mesmo quando aparentemente têm, coisas dão errado. Por que razão no mundo nós aceitaríamos assassinar nossos pequenos mamíferos para alimentar esses répteis?

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Quando eu era pequeno, assistir documentários de leões caçando me fascinava. Eu comecei a notar que eu torcia pela zebra — tadinha, eu não queria que seu lindo pescoço listrado fosse vítima da boca faminta das leoas. Um instante depois, aparecia o take dos filhotes da leoa, famintos, esperando que mamãe trouxesse uma zebra fresquinha para eles — se ela falhasse, todos padeceriam.

Não há sentido torcer pela zebra ou pela leoa. Nenhuma delas é boa nem ruim; como tudo que faz parte da natureza, elas apenas são. Elas não têm conhecimento do bem e do mal. Assim como a cobra e o ratinho, como minha gata e o passarinho, elas são inocentes.

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Mas nós, não.

O ser humano tem a capacidade de saber o que é certo e o que é errado. Essa é nossa autoconsciência: nós temos a capacidade de sermos maus. De fato, nós somos maus. E é a possibilidade de ser mau que dá a possibilidade de ser bom.

A leoa não é má porque caça, nem seria boa se deixasse de fazê-lo. Ela é um animal sem autoconsciência desenvolvida, ela não comeu do fruto proibido. Ela não caça por sadismo, mas por necessidade. Caçar é sua única possibilidade.

Não é o nosso caso. Nós estamos todos nus. Nós sabemos exatamente o que nos aflige: minha dor é a sua dor. Nós podemos não ter exatamente as mesmas experiências, é claro, mas todos nós somos capazes de nos colocarmos no lugar do outro. Todos conhecemos a vergonha, a tristeza, o medo e a dor.

Por isso, podemos ser maus. Sabemos exatamente como atingir o outro. Conhecendo nossas próprias vulnerabilidades — tendo a consciência de que estamos nus — conhecemos as vulnerabilidades alheias. E podemos explorá-las.

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O livro de Dawkins, O Gene Egoísta, um dos melhores livros que já li, é uma explicação de centenas de páginas de como todos os seres vivos são, em última instância, máquinas criadas para garantir a autorreplicação dos genes. O egoísmo, nesse sentido, é mais arraigado em nossa natureza do que qualquer outra coisa. Não haveria nada mais “natural” do que o egoísmo. O ser humano, como todos os outros seres vivos, seria essencialmente egoísta.

E, no fim do livro, Dawkins propõe que, pela primeira vez em bilhões de anos de vida no planeta, uma espécie conseguiu ferramentas para quebrar essa constante. O ser humano, com o conhecimento do bem e do mal, seria o primeiro a ter a capacidade de escolher o altruísmo absoluto. Somos os primeiros seres capazes de transcender nossa própria essência, de negar o lixo que (não há dúvida) está dentro de nós, e escolher não seguir nossa própria natureza.

Nossa consciência de nossa própria vulnerabilidade, a arma que temos que nos permite sermos ruins e destrutivos, é também a arma que nos permite sermos bons e compassivos.

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Tem um texto de Alex Castro que eu gosto bastante, chamado O zen e a coceira não-coçada. Nele, Alex fala o que aprendeu de mais importante praticando zen: segurar a própria onda.

Sendo conhecedores do bem e do mal, nós temos escolha e não precisamos seguir nossos impulsos. Nós podemos ir contra a nossa própria natureza. Como diz Alex, se eu posso sentir coceira e não preciso coçar, eu posso sentir cansaço e não preciso descansar, eu posso sentir ódio e não preciso agredir, eu posso sentir desprezo e não preciso humilhar.

Eu posso sentir vontade de comer carne e não preciso auto-indulgir.

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Comer carne é natural. O mundo animal está cheio de carnívoros, com garras e dentes e músculos sob medida para a matança.

Mas isso não quer dizer que precisamos disso.

Como Dawkins ensinou, nós podemos nos afirmar perante nossos próprios genes. Nós podemos desafiar nossa própria natureza e tornarmo-nos quem queremos ser.

Nossa nudez é nossa maldição e nossa benção.

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