Ode ao fracasso

Estou cansado de escrever sobre minhas vitórias. Hoje escrevo sobre meus fracassos, sobre as dificuldades que não superei, sobre as situações em que não fui poético sobre meu sofrimento, onde a vergonha tomou papel mais importante que qualquer lirismo vão. Quero falar sobre aquela vez em que não fui aprovado, a despeito dos esforços; das vezes onde fui fraco o suficiente para nem tentar, com medo da derrota.

Quero cantar, não à minha bravura, mas à minha covardia, à minha incompetência, à minha humanidade. Como diria Fernando Pessoa, estou farto de semideuses, e ainda mais farto de tentar ser um deles. Hoje, canto não às mulheres que conquistei, mas às mulheres que decepcionei, não às que me tiveram carinho, mas às que me detestaram e perceberam mais defeitos do que poderiam aguentar, não ao amor de minha mãe, mas ao ódio de meus inimigos.

Diversas vezes corri dessas elegias e escrevi textos sobre vitórias hercúleas, e, finalmente, hoje, escrevo uma ode à minha dor, à minha falibilidade, ao fato de escrever um texto não tão bom assim, talvez nem mesmo digno de ser lido por completo. Escrevo tudo isso não por esquecer de minhas vitórias ou de meus prazeres, mas por, enfim, aprender a amar minha dor, aprender a ser feliz em meio a tantas derrotas e incapacidades.

Por muito tempo, contei histórias para outros para convencer a mim mesmo de que era um vencedor. Dividia monólogos sobre minhas aptidões com quem tivesse o azar de estar perto de mim. Hoje, e só hoje, depois de tantos anos, desisti de me enganar, desisti de compensar certa falta de aptidão física com um dito elevado grau de intelectualidade. Não quero balancear meu insucesso com qualquer habilidade social que mostre que tenho algum valor. Não o tenho. Não o almejo. Não me interessa valor que possa ser conquistado através de epopeias e perdido através de deslizes.

Chega! Hoje declaro minha independência. Não me prenderei mais a importâncias frívolas, a custos-benefícios, a derrotas sobre as quais insisto em dizer que são batalhas, e não guerras. E se perder uma guerra? E se for mutilado, massacrado durante a luta? E se não puder ver sinal de vida além do amargor dos destroços que me circundam? Será esse o meu fim?

Escrevo, não à minha beleza, mas às minhas cicatrizes, marcas que carrego de cada vez que fui pisoteado, humilhado, pobre, mesquinho, vil, incapaz, bobo, insuficiente. Não desejo vida em que não as tenha. Coleciono-as e colecionarei ainda mais delas.

Hoje, e só hoje, me sinto no direito de ser deformado, sem, de forma alguma, buscar ser vistoso.

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