Perder-se também é caminho

Essa frase não é minha, é da Clarice

Por um lado, não tive a sorte de pensá-la e escrevê-la antes. Por outro, tive o privilégio de ler essas e outras deliciosas palavras dela. 

***

Há uma imposição simbólica de orientação no mundo. 

Antes, usávamos relógios de pulso. Eu ganhei o meu primeiro aos sete anos de idade, do Mickey Mouse. Lindo.  

Também tínhamos os relógios de parede. Na cozinha, com as frutinhas no lugar dos números. Na sala, uma versão mais séria, clássica. E os despertadores no criado do quarto – aquele com o alarme irritante ou o bom e velho radiorrelógio. 

Na minha cidade, ainda por cima, havia o relógio da Igreja Matriz. O sino batia a cada 15 minutos e, à meia-noite, badalava 12 vezes. Era bastante poético. 

Hoje, nós usamos os celulares. Mostram a data, a hora, o clima, conta passos e tem até nossa localização geográfica. Acho incrível. 

Mas, por trás disso tudo, il faut s’orienter

***

Orientar-se, aliás, é palavra que evidentemente remete a “oriente”. 

Assim como “nortear” ou “desnorteado” refere-se a norte. 

Na linguagem corrente, se nos desorientamos ou se perdemos o norte, perdemos tudo. Ficamos à deriva. É sinônimo de confusão, de caos ou mesmo de desequilíbrio mental. 

Precisamos, continuamente, estar situados no tempo e espaço. Caso contrário, é como se faltasse ar e o mundo vira um lugar sem céu nem chão, sem referências. Sem ter onde se escorar pra continuar essa dolorosa caminhada que tem sido a vida. 

Dói, mas não precisa. 

***

Olha essa quarentena

Tá, é péssimo o pavor do desconhecido que o coronavírus trouxe. O medo de morrermos ou de perdermos pessoas amadas se espalhou. Ninguém sabe quando isso vai acabar. 

Mas não só isso. Tem gente desesperada por estar fechada em casa. Por, enfim, se ver trancada com a família (esposo(a) e filhos) e perceber que falta afinidade, respeito, assunto. 

E pior: o tempo está suspenso. Todas as obrigações, metas, cronogramas. O sonho de formar ou de ser chamado num concurso. Os casamentos e as festas marcadas. 

Tudo flopou.

Porque a gente simplesmente não sabe viver sem tempo. Estamos perdidos. 

***

Ano passado, eu me perdi em Paris. Quando voltava pra casa, peguei um metrô que parou na metade do caminho e o condutor mandou todo mundo descer. Nervoso, eu tentava entender o francês abafado dos alto-falantes. Mas era isso mesmo, o horário de funcionamento. A estação estava fechando. Fim da linha. 

Aí eu desci, num lugar deserto e pouco iluminado chamado Montparnasse. Celular descarregado e sem grana em espécie, pra pegar um Uber ou um táxi. Ninguém pra pedir informação. 

O coração disparou. Alguns minutos sem saber o que fazer, inquieto, afobado. 

Lembrei que tinha um mapa amassado no bolso de trás da minha calça. Tirei ele e tentei me localizar e achar minha casa. Estava a uns quatro quilômetros dali e minha melhor opção era tentar voltar caminhando. Às duas da manhã. 

E eu fui. Andando pela Paris que dorme, meio a la Woody Allen, até chegar em casa, são e salvo. 

Perder-me foi a melhor experiência de então. 

***

Mas que medo, né? 

De se aventurar pelo desconhecido. Apagar as luzes que iluminam nossas minicertezas. Luzes opacas e certezas medíocres, de que sabemos alguma coisa que valha a pena. Que nosso conhecimento de mundo ou as referências de tempo e espaço que o celular nos dá acrescentam alguma coisa real à vida. Porque não acrescentam. 

***

Estamos sós e nenhum de nós sabe exatamente onde vai parar, como canta o Humberto. Pode ler cantando, também. 

***

Esse não é um texto motivacional

Não quero dizer que está ou que vai ficar tudo bem. 

Nem que, pra quem está perdido, que há qualquer garantia de que vai se encontrar um dia. 

Só quero falar que talvez não haja caminho, muito menos um caminho certo. E, se há, não é externo a nós. Não é uma bússola ou um relógio que vai nos orientar para o que importa. Esse tipo de orientação deve estar aí dentro, em algum lugar. E buscá-lo é uma experiência muito individual. E pode ser dolorosa também. 

De qualquer forma, perder-se, meu amigo, também é caminho. O importante é caminhar. 

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3 comentários em “Perder-se também é caminho

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