Pornografia faz mal?

PARTE 1

A tese de que sexo, masturbação e pornografia têm efeitos negativos sobre nosso corpo e nossa mente não é nova. Quando um adolescente se mostra pouco energético ou fisicamente fraco, é comum que homens mais velhos citem a masturbação como possível causa, um pouco no esforço honesto de identificar a etiologia do problema e um pouco para escarnecer o jovem. Mike Tyson já citou algumas vezes em seu podcast essa ideia que havia quando ele lutava de não fazer sexo antes das lutas para não comprometer a performance. O site NoFap está no ar desde 2011 advogando os benefícios de não se masturbar e não consumir pornografia.

Nos últimos anos, a tese tem ganhado força. Relatos dos abusos cometidos atrás das cortinas das grandes produtoras pornográficas aproximou bastante a tese do movimento feminista, o que reacendeu o argumento de que consumir pornografia seria relacionado a maior incidência de crimes sexuais, pior performance sexual e problemas conjugais e psicológicos. Nas redes sociais, demonizam o consumo de pornografia de forma exagerada e sem base científica e beatificam sua abstinência como um trunfo pessoal e social que deve ser buscado por todos.

Os motivos pelos quais demonizam a pornografia são quase todos falsos.

Novamente, eu não me importo se você quer parar de ver pornografia. Eu sei que qualquer coisa que é consumida de forma compulsiva pode se tornar um problema: bebida, jogo, sexo real, sexo virtual, rede social, musculação etc. Eu acredito no poder se fazer experimentos pessoais e entender o que parece funcionar para você e o que parece ser ruim.

O problema é escolher um comportamento qualquer que você acha que é ruim e começar a esbravejar pela internet que seus malefícios são cientificamente comprovados e todos deveriam parar de fazê-lo, quando isso não é o caso.

Há muitas pessoas que acham que sua vida ficou muito melhor depois que pararam de comer carne, enquanto há pessoas que acham que sua vida ficou muito melhor desde que começaram a comer apenas carne. Há benefícios em tomar sol, em não tomar sol, em tomar banho de mar, em não tomar banho de mar, em pisar descalço na areia, em não pisar descalço na areia, em fazer alongamento, em não fazer alongamento etc. Se você acha que existe um comportamento que você pode modificar e isso vai impactar positivamente em sua vida, tente. Às vezes vai dar certo e às vezes não.

Mas, quando dar certo, não saia por aí falando que você descobriu o segredo do universo.

O mundo provavelmente não ficaria melhor se magicamente abolíssemos a pornografia de vez. Nossa sociedade não seria mais pacífica e igualitária se homens não consumissem pornografia. Você não é uma pessoa boa porque não assiste pornografia.

Cai na real.

A indústria

Um dos grandes argumentos antipornografia é a sujeira da indústria. Mulheres abusadas, homens agressivos, tráfico de pessoas etc.

Eu não tenho dados sobre isso, mas não preciso procurá-los, pois este ponto é o menos discutível na questão antipornografia: a indústria realmente é suja, de diversas formas. Existe uso não autorizado de imagem, coerção violenta, trabalho em condições degradantes, situações análogas a escravidão etc. Isso é ruim e é algo que idealmente não deve acontecer.

Mas essa conta não é de quem consome.

A não ser que o indivíduo consuma propositalmente conteúdo criminoso (pedofilia, conteúdo íntimo roubado etc.), não é justo exigir dele a lisura de tudo que ele consome. Vivendo em uma sociedade bem regulada, todos nós acreditamos que os produtos que nos são ofertados no mercado regular são produzidos seguindo as normas legais e éticas que se aplicam. Seria pouco razoável exigir que esmiuçássemos o processo de produção de cada bem que consumimos.

Sua camisa pode ter sido costurada por escravos na Somália. Sua coxinha pode ser recheada de carne humana. Seu iPhone pode ter contribuído para mais um suicídio nas fábricas chinesas.

A culpa não é sua.

Problemas sexuais e conjugais

Outro argumento antipornografia popular recorre a seus possíveis malefícios na vida sexual e conjugal de quem consome esse tipo de conteúdo. Dizem que assistir pornografia leva a ejaculação retardada, disfunção erétil, perda de interesse no sexo real (“dessensibilização”), mais divórcios, menos satisfação com a vida conjugal etc.

Não há consenso na comunidade médica sobre nada disso. O UpToDate nem tem um verbete sobre pornografia — porque não é uma preocupação médica.

Na verdade, pesquisas mais recentes ligam o consumo de pornografia a maiores níveis de excitação sexual na vida real — diametralmente o contrário da “dessensibilização” que a propaganda antipornografia prega. Estudos mais novos e melhor desenhados também contradisseram a tese de que consumir pornografia diminui o interesse de pessoas casadas em seus próprios parceiros.

Dizer que consumir pornografia leva a disfunção erétil é como dizer que cloroquina funciona para COVID-19: mentira.

É como eu disse antes: talvez funcione para você. Cada pessoa é uma pessoa e reage de sua própria maneira a cada estímulo. Se você acha que faz sentido parar de consumir pornografia para melhorar sua vida sexual e conjugal, tente. Talvez haja um benefício imenso para você. Espero que tenha.

Mas, se der certo, não saia por aí dizendo que descobriu a cura para todos os males. Para a maioria das pessoas, pornografia não faz mal. Ponto.

FIM DA PARTE 1

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2 comentários em “Pornografia faz mal?

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  1. Eu não posso concordar com isso:

    “A indústria

    Um dos grandes argumentos antipornografia é a sujeira da indústria. Mulheres abusadas, homens agressivos, tráfico de pessoas etc.

    Eu não tenho dados sobre isso, mas não preciso procurá-los, pois este ponto é o menos discutível na questão antipornografia: a indústria realmente é suja, de diversas formas. Existe uso não autorizado de imagem, coerção violenta, trabalho em condições degradantes, situações análogas a escravidão etc. Isso é ruim e é algo que idealmente não deve acontecer.

    Mas essa conta não é de quem consome.”

    Meu caro, o senhor acredita que uma pessoa consciente do que consome não tem nenhuma responsabilidade sobre isso? Admiro seus textos, mas do meu ponto de vista este aqui está completamente equivocado, talvez se se tratasse de algo realmente essencial ou impossível de se fugir este texto teria uma base razoável. Vou citar-lhe mais uma vez:

    “Sua camisa pode ter sido costurada por escravos na Somália. Sua coxinha pode ser recheada de carne humana. Seu iPhone pode ter contribuído para mais um suicídio nas fábricas chinesas.”

    Não concorda que seria interessante analisar com que frequência esse tipo de coisa ocorre e qual nosso controle sobre ela? Porque é pouco provável que você venha a comer coxinha de carne humana, e para quem tem um poder aquisitivo um pouco melhor e mais informação, é muito fácil fugir de comprar produtos de origem escrava, não comprando em certas roupas de origem do brás em São Paulo e evitando lojas de departamentos que às vezes são óbvias, como uma certa de roupas espanhola por exemplo. Além de que no Brasil o trabalho escravo não é tão comum, torna-se uma comparação um pouco vaga.

    Eu diria que outros exemplos mais próximos podem ser: Sim, é muito difícil fugir de comer carne oriunda de um ambiente de maus tratos à animais, isso existe por toda parte, também é muito difícil largar um vício em drogas quando você caiu nele, você está preso e a um negócio que causa inúmeros problemas à muitas pessoas que convivem com o tráfico de perto mas isso não é mais uma escolha para você. Entretanto no âmbito da pornografia estamos falando mais de caprichos principalmente masculinos do que de outra coisa.

    A sexualidade faz parte de um instinto natural, uma coisa primária inerente ao animal, que somos todos, a pornografia é meramente uma indústria que vende imagens daquilo que você não pode ter quando quer ter, algo que na verdade analisando-se é bem novo para ser assim tão essencial e tão protegido por uns. Eis aqui uma novidade: o sexo não é proibido! A livre troca de conteúdo sexual pessoal também não, então porque a pornografia faz-se tão importante? Tudo bem, você pode dizer que a prostituição é algo em que se baseia a tal indústria e afirmar que isso tem registros até mesmo no velho testamento.

    E é aí que encontramos um dos porquês de as feministas serem contra isso, a prostituição é extremamente sexista, se eu como mulher quero um mundo em que respeitem minha liberdade sexual eu não posso vinculá-la a algo assim. Não posso aceitar que outras mulheres tenham isso como um emprego, elas estão comercializando uma parte essencial de si mesmas, a grande maioria delas sofre pela violência todos os dias, elas usam drogas para aguentarem viver assim (você provavelmente já sabe que a pornografia e a prostituição tem essas duas coisas em comum). Isso não é uma vida digna para ninguém, eu me responsabilizo sim por ajudar pessoas que não tem discernimento nem tanta oportunidade de escolha quanto nós, que sabemos do que se trata tudo isso ou podemos saber. E eu comemoro por tantas pessoas começarem a se interessar por esse tema, pessoas novas que podem mudar tudo isso e tornar esse mundo cada vez melhor, mesmo que gradativamente. Comemoro a liberdade sexual e a consciencia que deve vir com ela.

    1. Oi, Beatriz! Obrigado pelo comentário.

      Acho que seria interessante analisar a frequência com que esses eventos ocorrem. Inclusive, eu não achei uma referência boa sobre o número de atrizes que relatam abuso em relação ao total de atrizes, e gostaria desse número. Imagino que, talvez, o número relativo seja bem menor do que imaginamos.

      Sobre o trabalho escravo, o Brasil é considerado um dos grandes redutos de exploração de trabalho escravo no mundo, junto a outros países pobres e emergentes. Eu vi uma estatística recente que indica que 77% das empresas do Reino Unido têm trabalho escravo em sua cadeia de produção. Esse número deve ser semelhante no Brasil. A própria Petrobrás já esteve envolvida em escândalos do tipo.

      Consumir carne e drogas também são caprichos. Nenhum dos dois é fundamental para a sobrevivência na forma que você sugeriu no comentário.

      Existem muitas mulheres que trabalham nessa indústria e gostam e, inclusive, consideram isso uma forma legítima de empoderamento. Cito o exemplo de Dread Hot na segunda parte desse texto, que vai sair em breve. Eu acho que você não aceitar que outras mulheres tenham isso como emprego me parece bastante autoritário. Talvez nem todas estejam tristes em fazer parte da indústria.

      Abraços,

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