Pornografia faz mal? #2

PARTE 2

É muito difícil prever como um texto será recebido. Meus textos preferidos, aqueles que eu acho que todo mundo vai ler e gostar, muitas vezes são ignorados, enquanto textos malfeitos conquistam meus leitores. Eu esperava que o tema da pornografia fosse polêmico, mas ele foi polêmico de forma muito diferente da que previ. Pessoas que eu achava que iam criticar, elogiaram, e pessoas que eu achei que iam elogiar, criticaram, e pessoas que nunca falaram comigo sobre o blog comentaram sobre ele — o que é bem legal.

A princípio, meu plano para este segundo texto era comentar outros argumentos antipornografia, especialmente a tese de que consumir pornografia pode ser considerada um vício comportamental e a tese de que a pornografia estimula a violência contra a mulher. Porém, inspirado pelas respostas que o primeiro texto causou, decidi primeiro explicar melhor os argumentos que expus, de forma muito rasa, no primeiro texto.

Aliás, uma amiga já aceitou escrever um texto de contraponto ao meu argumento, e já o está escrevendo. Mal posso esperar.

 

A questão ética da pornografia

Como eu disse no primeiro texto, há poucas dúvidas de que a indústria pornográfica mantém práticas de moral duvidosa em suas produções. Mia Khalifa, que trabalhou no ramo e se tornou uma das atrizes mais conhecidas do mundo, dedica-se hoje a lutar contra os abusos que grandes produtoras pornográficas cometem contra suas contratadas. E o quadro que ela mostra é feio. Bem feio.

Este é o melhor argumento contra o consumo de pornografia: muitas pessoas (principalmente, mulheres) que trabalham nesse ramo o fariam sob coerção ilegal. Ou seja, consumir pornografia seria como consumir o produto de um crime, que pode ser tráfico de pessoas, estupro ou agressão física e psicológica. E é claro que ninguém quer isso.

Mas, talvez, demonizar a pornografia em si e o seu consumo não seja a resposta correta para o problema. Ou, pelo menos, antes de assumirmos que é, precisamos pensar nas alternativas.

Eu estou começando a pisar em um território perigoso agora e o risco de ser mal interpretado é muito grande, então eu peço que o leitor tenha muito cuidado para diferenciar o que eu vou escrever das conclusões a que você vai chegar. Eu não acho que abusar de pessoas seja OK, não acho bonito o que essas mulheres expõem sobre o que acontece nos bastidores da indústria e concordo que, talvez, a melhor postura ética seja não consumir pornografia.

Talvez. E é isso que eu quero tentar descobrir, junto com vocês.

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Primeiramente, eu quero apontar que a indústria pornográfica não parece ser exclusivamente esse show de horrores que imaginamos quando vemos os relatos de abusos. Dread Hot, por exemplo, é uma das atrizes brasileiras mais bem sucedidas atualmente, e ela parece estar bem feliz com seu trabalho. Talvez ela seja uma prova viva de que é possível produzir pornografia de forma ética. Talvez.

E, se é possível produzir pornografia de forma ética, o problema não é exatamente a pornografia, mas os produtores que agem de forma imoral. E, neste caso, o que deve ser combatido não é o consumo de pornografia em si, mas a produção imoral de conteúdo pornográfico.

Quando a Zara é acusada de faturar sobre trabalho escravo, não é razoável defender que a indústria têxtil é imoral e que todos deveríamos parar de consumir produtos têxteis. O razoável é exigir que a empresa pare com a prática, punir os responsáveis pelo crime (se ele for comprovado) e, se for o caso, boicotar a marca.

O mesmo raciocínio deve ser aplicado à indústria pornográfica: se um produtor é acusado de agir imoralmente em relação às atrizes, ele deve ser o alvo das reações, e não a indústria como um todo, nem o consumidor.

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Outro problema desse argumento é assumir que a sua própria consciência de que atrizes são abusadas sistematicamente por trás das cortinas é um sinal de que todo mundo tem essa mesma consciência. E, depois, assumir que alguém que recebe a informação de que algumas atrizes relatam que foram abusadas durante as gravações deve automaticamente tomá-la por verdadeira e parar de consumir material pornográfico, sob pena de ser considerado cúmplice do crime que supostamente foi cometido.

Seria como se eu abordasse um amigo que está usando um calçado da Nike, provavelmente produzido por escravos, e exigisse que ele parasse de usá-lo, sob pena de estar contribuindo com um crime.

Não parece razoável. No estado das coisas que temos hoje, não é razoável. 

E eu não gosto disso. Eu não gosto de pensar que a Nike, a Zara, e praticamente todas as grandes empresas do mundo se beneficiam de trabalho escravo. Mas devemos simplesmente exigir que o consumidor pare de consumir todos os produtos dessas empresas? Eu não sei. Neste momento, não parece ser algo factível. Até porque, se quisermos consumir apenas aquilo que sabemos com certeza que foi produzido de forma 100% ética, provavelmente não consumiríamos nada

E isso não é uma hipérbole. Do cacau plantado na África ao chocolate na prateleira do supermercado, tudo que consumimos tem um possível passado negro que envolve abuso e sofrimento.

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Isso não quer dizer que devemos aceitar a sujeira do mundo e consumir qualquer coisa, sem pensar nos males que foram causados para que aquele produto chegasse a nós. Expor as práticas imorais de qualquer indústria é saudável para a democracia. Debater alternativas e formas de combater essas práticas é certamente desejável.

Só que chegar a boas conclusões e agir sobre elas é difícil. E acusar os consumidores de serem os culpados é fácil.

***

Existe um caso para quem se abstém de consumir pornografia com base no seguinte raciocínio: aparentemente, grande parte da indústria é imoral; as chances de consumir algo que foi produzido de forma criminosa ou imoral são grandes; eu não quero correr o risco de consumir nada desse tipo; portanto, prefiro me abster de consumir qualquer produto pornográfico.

Eu uso esse raciocínio para não comer carne: aparentemente, grande parte da indústria é imoral; as chances de consumir algo que foi produzido de forma imoral são grandes; eu não quero correr o risco de consumir nada desse tipo; portanto, prefiro me abster de consumir qualquer tipo de carne.

Faz sentido. Talvez, seja o certo. Talvez, num mundo ideal, ninguém consuma pornografia, assim como eu acho que, num mundo ideal, ninguém comeria carne.

Mas transferir essa crença pessoal para um mandamento moral ao qual todas as pessoas devem se submeter é um passo muito grande. Porque, como eu mostrei, a imoralidade não está na pornografia em si, mas na forma como muitas produtoras operam. É possível criar conteúdo pornográfico de forma ética, assim como é possível criar e abater animais de forma ética, sem sofrimento. Portanto, declarar a imoralidade de quem consome pornografia é um erro.

E quando você usa seu computador ou seu celular para acusar quem consome pornografia de estar contribuindo com uma indústria imoral, sem olhar para os próprios dedos, eu começo a questionar suas boas intenções. Porque seu teclado também está cheio de sangue.

FIM DA PARTE 2

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