Música da semana #8

Música

Albachiara

Autoria

Vasco Rossi e Alan Taylor.

Melhor verso

Qualche volta fai pensieri strani/ Con una mano, una mano, ti sfiori/ Tu sola dentro la stanza/ E tutto il mondo fuori.

Meus dois centavos

Passei um mês na Sicília em 2016, na faculdade de medicina de Palermo. Foi uma viagem legal porque eu tive a oportunidade de conhecer muita gente parecida comigo: jovem e universitária. A única diferença é que eles falavam feio.

E eu, que sempre gostei tanto de música, tive a oportunidade de aprender com essa pessoas um pouco sobre o que eles gostavam de escutar. Nas baladas, ironicamente, eles ouviam muita música latina, inclusive releituras de nosso sertanejo universitário em ritmo de reggaeton. Mas nos bares mais calmos, onde a gente sentava pra beber cerveja na hora do aperitivo, uma figura que se destacava era Vasco Rossi.

Vasco Rossi é uma figurona. Fez sucesso na segunda metade do século passado e até hoje está na ativa. Feito um Caetano Veloso ou um Chico Buarque. Eu lembro bem de ouvir Liberi, liberi tocando nos bares no fim de tarde, várias vezes. Grande artista.

Albachiara é a descrição de um arquétipo: uma menina tímida, reservada e inocente, que, de repente, vira mulher. Tão tímida que “respira devagar para não fazer barulho” e “fica vermelha se alguém olha”. Tão reservada que “se veste de forma desleixada para não chamar atenção”. Tão inocente que tem olhos “sinceros demais”.

Você poderia questionar se é realmente uma menina ou se é uma mulher. Afinal, mulheres (e homens) também são tímidas, reservadas e inocentes. Porém, na última estrofe, Vasco introduz um objeto que tira nossa dúvida: livros. É engraçado como livros ou cadernos são um símbolo de imaturidade.

Cammini per strada mangiando una mela coi libri di scuola.

Essa música, tanto pelo tema geral como pela figura do livro, me lembrou a canção Baby, de Raul Seixas:

Baby, abraça seus livros no peito/ Esconde o que é tão perfeito/ Eu sei que você quer deitar/ Não dá ouvido à razão.

A música de Vasco (de forma mais velada) e a de Raul (de forma mais explícita) podem ser ligadas a fetiches sexuais muito mal vistos na nossa sociedade, no caso, pedofilia. Isso motiva que algumas pessoas mais inflamadas defendam a proibição desse tipo de canção. Mas eu não sei se esse é realmente o sentido delas.

Como disse, a figura de Albachiara (e a de Baby) é arquétipa: a figura feminina inocente que conhece pela primeira vez um universo inteiramente novo, com um cardápio outrora ignorado de dores e de prazeres. Talvez não tenha nada a ver com pedofilia, na verdade, mas com amadurecimento.

Essa não é nem de perto a música mais explícita de Raul Seixas. Em A Beira do Pantanal, Raul descreve graficamente um feminicídio:

Foi lá na beira do pantanal/ Seu corpo tão belo enterrei/ Foi lá que eu matei minha amada/ Sua voz na lembrança eu guardei.

A continuação só fica melhor: o assassino enlouquece devido à gravidade de seu próprio crime. Ele passa a ver os cabelos da amada crescendo sobre o local onde fora enterrada. E ele passa a cultivar seus cabelos, como se fossem um jardim. Condenado à prisão perpétua, ele apodrece em sua cela, ainda ouvindo a voz da amada, carregada pelo vento:

Por que, meu querido?/ Por que, meu amor?/ Cravaste em mim teu punhal?/ Meu peito tão jovem sangrando assim/ Por que esse golpe mortal?

A figura da canção é horrível, é claro que é, mas a letra não deixa de ser linda.

Mas se quisermos falar de letras polêmicas, podemos ir mais longe. Os gaúchos do Bidê ou Balde chegaram a ser censurados (estamos falando de século XXI) por causa desta letra:

Eu estou amando a minha menina/ E como eu adoro suas pernas fininhas/ Eu estou cantando pra minha menina/ Pra ver se eu convenço ela a entrar na minha/ E por que não?/ Teu sangue é igual ao meu/ Teu nome fui eu quem deu/ Te conheço desde que nasceu!/ E por que não?

Depois da censura e dos processos, mudaram um pouco o refrão, mas eu ainda vejo nitidamente a pedofilia e o incesto dela:

Teu sangue não é igual ao meu/ Teu nome não fui eu quem deu/ Te conheço desde que nasceu!/ E por que não?

Errado? Censurável? Porco? Ridículo? Criminoso?

Eu não sei. Talvez seja. Mas eu valorizo demais a liberdade de expressão e eu acho que a arte deve ser tão livre quanto é possível. Porque a arte é a única forma segura que temos de abordar esses assuntos nojentos e asquerosos. A arte é a fronteira do conhecimento humano.

Para o bem e para o mal.

Arte de John William Godward.

***

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