A perversão do “lugar de fala”

Há algumas semanas eu escrevi um texto sobre a caça às bruxas que estava acontecendo contra pessoas que teriam burlado a política de cotas raciais das universidades públicas. A peça foi motivada por uma discussão em um grupo da faculdade em que as pessoas discutiam os prós e contras de cassar ou não as vagas de quem teria fraudado a política — por exemplo, foi argumentado que o gasto público que havia sido investido no fraudador tornaria inviável que sua vaga fosse cassada, o que eu acho um absurdo, pois seria como recompensar um criminoso pelo seu crime.

Mas eu achei que as pessoas estavam desconsiderando um elemento muito, muito básico da discussão: na época em que grande parte desses alunos passou, as cotas eram garantidas pela autodeclaração. Esse era o único critério dos editais até alguns anos atrás, pelo menos aqui em Uberlândia. Ou seja, seria um absurdo punir essas pessoas (que cumpriram à risca o edital) com base em uma regra posterior. Normas não podem retroceder para prejudicar cidadãos: essa é uma garantia básica da democracia e do estado de direito.

Um pouco depois, essa discussão surgiu em outro grupo da universidade e eu novamente expressei minha opinião, que foi muito mal recebida. Entre as respostas, duas pessoas comentaram algo sobre o fato de eu ser branco e estar comentando sobre cotas raciais:

Aí um branco dando pitaco e ainda falando m**da. Paciência.

Incrível é que é sempre um branco falando… Queria ver se o jogo fosse ao contrário.

A perversão do termo

A minha geração é extremamente preocupada com o “lugar de fala”, mas de forma comicamente enganada. O lugar de fala não é a restrição de certos assuntos a certas pessoas, que detém ou não o direito de falar de acordo com sua raça, classe social, gênero, educação ou origem. O lugar de fala nunca quis servir à limitação da liberdade de expressão, pelo contrário, ele surgiu para legitimar o discurso dos oprimidos. O lugar de fala não foi pensado para servir ao cancelamento de ninguém devido a suas características pessoais.

Dizer que branco não pode falar sobre racismo ou que homem não pode falar sobre feminismo não tem nada a ver com lugar de fala. O nome disso é ignorância.

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Foto de Steve Evans.

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