O dia em que eu pedi uma esfirra e saí preso

Tem uma prima da minha mãe, que, na verdade, é mulher do primo da minha mãe, é complicado. Eu nem sei o que ela é minha, mas eu gosto dela, então quarta-feira chamei todo mundo pra sair à noite, pensei que a gente podia tomar sorvete, era final de maio, mas nem estava tão frio assim. 

Ah, era aniversário dessa mulher, que vamos chamar de Messalina, e às 9 da noite a gente se encontrou no restaurante árabe, será que aqui vende sorvete, me perguntei, devia ter perguntado o garçom. Mas, pensando bem, já que estamos aqui, uma esfirra cairia bem, de chocolate, por que não, talvez seja boa, vou pagar pra ver, literalmente. 

Escolhi a mesa, sempre no mesmo padrão:

a) do lado de fora, porque gosto de lugares abertos (não tem nada a ver com pandemias, juro) e sofro de uma claustrofobia muito sutil;

b) no canto, próximo à parede, por motivos de que é um ponto estratégico pra não ser visto mas poder observar todo mundo e pra nós, gente de cidade pequena, a vida é feita de observação. E de fofoca, em alguns casos. 

Ao meu lado se sentou algum parente, mãe, irmã ou primo, afinal, são tantos parentes, não importa, e logo que o garçom veio, boa noite, senhor, como eu poderia melhor o servir e pedi ela, a tal da esfirra de chocolate. 

Esfirra essa que eu nunca comi. Até hoje. Vamos entender por que. 

Menos de um minuto depois um ser humano até então ininteligível foi arremessado ou se arremessou da rua para o terraço onde eu estava, caindo sobre uma mesa que trincou de ponta a ponta com seu peso. 

BUM. 

Logo atrás, vieram quatro senhores muito bem fardados, que pularam as grades que separavam nós todos da rua e o fizeram com muita destreza, até com certa elegância, reconheço. 

E todo mundo se assustou. 

A mulher arremessada era uma senhora preta, que tanto poderia ter tanto 30 anos como 50, dessa gente de rua que toma muito sol e se alimenta mal e tem uma cara de sofrimento enorme que sempre se materializa num envelhecimento precoce e imparável. 

Ela se levantou de supetão, imagino que as costas estivessem doendo, e ameaçou correr, quando os senhores de farda lhe pegaram, cada um num membro, braços e pernas esticados. 

E a mulher preta, que chamarei de Cida, numa clara referência à santa, gritava pedindo socorro, alguém me ajuda que eu estou grávida, vão me bater muito, talvez me matar, por favor me soltem que está doendo, alguém me ajuda. 

Levaram a Cida pra bem longe das nossas vistas e, quando não dava mais pra ouvir os gritos, as famílias das outras mesas voltaram para suas refeições, conversando alegremente, como se absolutamente nada tivesse acontecido. 

Uma cena dantesca, que inundou meu estômago de ácido gástrico e me fez levantar com calma para dirigir-me ao gerente:

— Boa noite, o sr. poderia me explicar o que aconteceu, por gentileza?

— E por quê?

— Como assim por quê?

— Por que você quer saber?

— Porque aquela mulher preta acabou de quebrar uma mesa com o próprio corpo e foi carregada por quatro policiais. 

— Deveria perguntar aos policiais, então. 

— Está certo, muito obrigado. 

— Você por acaso é advogado, é? 

— Ah… aham, eu respondi de costas já andando, com pouca paciência para o gerente esquisito. Embora não fosse advogado, embora já aprovado no exame da ordem. 

Os policiais conversavam em círculo e eu me dirigi a um que estava sozinho, fazendo anotações. 

— Licença, boa noite. Me desculpa, mas por que ela foi presa?

— Porque ela estava incomodando muito. Veio para a porta do restaurante pedir dinheiro ou comida e o gerente mandou ela sair. Ela não saiu, então viemos ajudar. 

— Ah sim, claro, muito obrigado. Só me restava agradecer e me retirar, apesar do pouco sentido que aquilo tudo fazia. 

Foi quando um outro homem fardado, com a patente de sargento e uma careca reluzente, gritou da viatura que estava a uns 20 metros de mim, num lugar bem escuro.

— Ei, você. Você mesmo, que tá falando que é advogado. É advogado? Vem aqui agora e me apresenta sua identidade funcional. 

— Perdão?

— Sua carteirinha de advogado, me mostra ela, senão vou te levar preso. 

— Acho que houve algum engano, estava só jantando com a minha família. 

— Vem aqui agora que eu vou te explicar o engano. 

Eu não fui, claro. Mas ele veio. Junto com outros cinco ou seis. Um deles, tranquilamente 30 centímetros maior do que eu, para todos os lados, me olhava de cima abaixo perguntando o que eu tinha contra a polícia. 

Se eu gostava tanto assim de defender bandido, por que não podia defender a polícia também, que se arriscava todo dia pra proteger uns desgraçados iguais a mim. 

O sargento estava muito bravo. A careca, de um branco perolado, já estava bastante vermelha. E ele gritava:

— Gosta de defender vagabundo então? Deve ser comunista. Mas você vai ver uma coisa. 

— O sr. não está entendendo. 

— Estou entendendo muito bem. Isso que você fez aqui é falsidade ideológica. E desacato, você está me desacatando. E crime de desobediência e perturbação da ordem pública. São quatro crimes. 

— Mas senhor sargento. 

Minha mãe, que, a essa altura, já estava ao meu lado, chorando e sem saber o que fazer, se agarrou ao meu braço. Olhava de um lado para o outro, tensa e olhava para as outras pessoas do restaurante. Para o gerente, que, da porta, observava tudo com uma cara de aprovação. Talvez ele também fosse de cidade pequena. 

Aí minha mãe, desesperada, virou pro sargento e disse:

— O senhor, sargento, por favor, nos perdoe, desculpa meu filho. 

Caramba, mãe. Desculpa é uma palavra tão forte. Des-culpa e eu não tinha culpa de nada. Aquela mulher preta foi levada igual um suíno para o porta-malas da viatura. E eu estava cercado por seis policiais que gritavam comigo. E eu detesto gritos. 

Não vi quando falei. Me dirigi a minha mãe, no meu tom de voz normal. Trêmulo, mas falando baixo:

Mãe, não pede desculpas pra um homem assim. 

Foi a gota d’água. O sargento calvo e o policial grandão me jogaram contra a viatura, enquanto um dos dois torceu o meu braço e me algemou com as mãos pra trás. 

No meu ouvido, o sargento sussurrava:

— Está satisfeito agora? Petista. Comunista. Vagabundo defensor de bandido. Hoje você vai tomar uma lição. 

E aí eu fui embora, no porta-malas da viatura. Junto da Cida, coitada, que estava meio bêbada e com fome. 

Nossa, mas eu estou ferrado, pensei. Tinha que ir embora, que amanhã eu tenho minha última prova antes de me formar. De Direito Penal Especial. O tema? Abuso de autoridade. 

4 comentários em “O dia em que eu pedi uma esfirra e saí preso

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  1. Eu simplesmente adoro seus textos, você me prende sempre, independente do assunto. E eu nunca sei se o que você escreveu é real ou não. Na maioria das vezes, eu torço pra ser real, porque eles me tocam de tal forma que eu penso “precisa ser real, eu não posso estar tão comovida assim por uma ficção”. Mas hoje, ahh.. Hoje eu quero que seja uma estória =/

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    1. Às vezes o véu que separa a vida da arte se rasga, mas é assim mesmo. Muito obrigado por ler meus textos, fico honrado.

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