Meritocracia existe, sim — O mito da justiça

Já é um bordão consagrado esse “meritocracia não existe”. Até Drauzio Varella, geralmente uma pessoa muito sensata em suas colocações, já fez um vídeo falando sobre isso, de forma incomumente leviana.

Meritocracia existe, sim, e é meio besta dizer que não.

Textos anteriores

Este texto é a continuação de uma série de posts sobre epistemologia, determinismo causal, livre arbítrio, psicologia comportamental e um pouquinho de neurobiologia. 

Hoje, vamos falar um pouco sobre justiça, que é profundamente ligado aos temas anteriores. A partir daqui, começaremos a ligar assuntos mais “altos” (determinismo, livre arbítrio, responsabilidade moral) a assuntos mais “baixos” que também são abordados aqui no blog, como legalização das drogas, legalização do aborto, punitivismo e, neste caso, políticas públicas afirmativas. A teoria discutida aqui nos dará ferramentas poderosas para fazer uma análise mais inteligente dos problemas mundanos que precisamos resolver.

Os textos anteriores são estes:

Nossas escolhas já foram feitas: o mundo segue o mandamento de eternas leis naturais que não permitem exceção; o destino do universo foi selado logo que ele surgiu.

A alucinação fisiológica dos olhos: como nossos sentidos nos enganam e distorcem a “realidade”.

Determinismo causal e livre arbítrio: nosso comportamento segue uma receita e não há espaço para acrescentar nada nela; não há livre arbítrio, mesmo em um mundo não-determinista.

Nossa ilusão de controle: assim como nossos sentidos nos enganam, nossos pensamentos nos enganam e nos dão a sensação de que temos nosso comportamento sob controle; não o temos.

Ideias como ferramentas para agir no mundo: algumas consequências práticas do determinismo causal e uma sugestão para superar o niilismo que o acompanha.

Escolhas e crimes, e compaixão: nós não temos escolhas, mas o determinismo é compatível com a responsabilidade moral; quanto mais entendemos quem somos, mais compassivos nos tornamos. 

A injustiça não é monolítica

Nesta época em que a política de cotas raciais está em evidência, esse debate pipoca em todos os lugares. A doutrina diz que não existe meritocracia, por exemplo, entre negros e brancos que disputam o mesmo vestibular, ou entre adolescentes ricos e pobres que disputam a mesma vaga na faculdade.

O erro é negar que existe meritocracia porque você comparou apenas uma faceta de dois seres humanos que têm literalmente milhares de diferenças entre si, dependendo do nível de análise.

Pode ser “injusto” que um negro concorra com um branco pela mesma vaga de faculdade pública, mas a inequidade da competição não é nem de perto tão brutal quanto é a competição entre uma pessoa (negra ou branca) de QI 135 e outra de QI 85. E, para mostrar como isso não é banal, cerca de 15% da população tem um QI de 85 ou menos, enquanto a média dos graduandos em alguns cursos nos EUA chega a 130.

É injusto que negros concorram com brancos, que alunos intelectualmente dotados disputem com alunos menos sortudos, que pessoas conscienciosas concorram com pessoas vagabundas, que estudantes pobres disputem com nascidos em berços de ouro, e por aí vai.

O mundo é injusto. Lide com isso.

Não existe justiça

E eu não estou dizendo que a política de cotas é equivocada. Se você achou isso, você entendeu tudo errado (de novo). Eu estou dizendo que dizer que “meritocracia não existe” é leviano e pouco inteligente. A política de cotas não serve a esse princípio inalcançável que é a justiça — a política de cotas serve à maior eficiência da sociedade.

meritocracia não existe
Foto de Marc Hofer.

Ops! Acesso restrito!

Você leu apenas o começo, pois este texto é de acesso restrito aos assinantes do blog.

Assinantes são leitores que acreditam no valor do blog e contribuem para seu crescimento doando uma pequena quantia por mês.

Em contrapartida, eles têm acesso a nosso conteúdo mais inteligente, ácido e experimental.

Se você gosta do blog, considere ser um assinante.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑