Assinantes e conteúdo restrito

Três anos de blog

Em menos de dois meses, completo três anos escrevendo e publicando na internet.

Desde que eu tinha uns 15 anos, quando comecei a escrever, eu pensava em ter um blog. Imagina que louco, escrever suas ideias e seus amigos lerem e comentarem e discutirem.

Coloquei o plano em ação em 2017. O blog tornou-se de alguma forma uma parte importante do que eu sou desde então. Há conversas com amigos que são disparadas pelos textos, há pessoas do meu círculo social que não são tão próximas que me reconhecem principalmente pelo blog, e há leitores que eu nunca vi na vida que leem e interagem com o que escrevo.

Como disse Oliver Sacks, estou tendo uma relação com o mundo, a relação especial entre  leitores e escritores.

Accolades

Eu não conquistei realmente nada objetivo com o blog até hoje. O número de leitores e interações é baixíssimo e nunca fui publicado em nenhum grande canal.

Mas consegui algumas coisas interessantes.

No começo deste ano, recebi o título de Melhor Autor Quora 2020 para a comunidade em português. Todo mês, o Quora seleciona um ou dois autores e confere esse reconhecimento. Era uma distinção que eu sonhava em receber em 2013 e 2014, quando o Quora em português ainda nem existia e os Top Writers recebiam produtos exclusivos e eram convidados a encontros de melhores autores. Hoje em dia, não há nada disso, parece que a distinção não tem o peso que tinha antes, mas ainda é bem legal fazer parte desse grupo.

Em 2018, publiquei dois textos no Jornal Relevo. É um jornal independente, pequeno, com tiragem de umas seis mil cópias, salvo engano. Mas é legal saber que editores que não me conhecem leram meus textos e gostaram deles pelo menos mínimo para publicá-los.

Por fim, o momento mais legal para mim foi ainda lá em 2017, quando Victor Lisboa leu um texto meu que misturava neurobiologia com considerações humanísticas sobre as drogas e se interessou por ele a ponto de me convidar a publicá-lo no blog dele.

Fãs e ídolos

Esse episódio com Victor foi importante porque ele é uma das duas ou três pessoas que mais me inspiraram a escrever na vida. Infelizmente, seu blog foi retirado do ar pouco depois dessa conversa, não sei por que motivo. Vários de seus melhores textos não estão mais na internet, mas ainda há alguns por aí.

Ler o que ele, Alex Castro, David Cain e The Last Psychiatrist escreveram, entre vários outros, foi parte importante de como eu gastava meu tempo uns dez anos atrás. E eu realmente acho que eles me ajudaram muito e acho que valeu a pena demais ler o que eles escreveram, apesar de não serem Machado de Assis, Platão ou Nietzsche. Na verdade, ler o que eles escreveram foi muito melhor para mim (e muito mais interessante) do que ler Platão. Ou Machado de Assis.

E isso me diz que é possível também que eu, em toda minha mediocridade, escreva coisas importantes, que algumas pessoas precisam ouvir

E saber que um verdadeiro ídolo meu leu meu texto e enxergou valor nele, como eu enxergo, é uma baita forma de me provar para mim mesmo.

Loucuras tão sóbrias de um iniciante

Eu acho que uma das maiores forças do mundo é a continuidade. Manter um esforço pequeno e constante em certa direção pode gerar frutos muito frondosos a longo prazo. A pressa por resultados imediatos e a impaciência geram bons resultados vez e outra, mas são estratégias menos vitoriosas em geral.

Eu sempre pensei no blog em longo prazo. Esta é uma academia onde eu aumento meu poder de argumentação, aprendo a editar, tento captar leitores e passo raiva com perrengues tecnológicos, dia após dia. É um investimento grande de tempo e energia, quase irracional para alguém em minhas condições. Mas eu me sinto cada vez mais forte.

Nas últimas semanas, trouxe um sistema de assinaturas para meu bebê. Agora, leitores que gostam do blog, que veem valor no que eu escrevo e que gostariam de ajudá-lo a se expandir podem contribuir mensalmente com um pequeno valor. Em contrapartida, eles têm acesso a alguns conteúdos exclusivos e podem encomendar textos. 

Pretendo adicionar mais benefícios para assinantes, mas ainda não sei exatamente o quê. Penso em colocar uma página de agradecimento, com o nome de todos que contribuem e já contribuíram (com o consentimento deles). Penso também em transformar meus textos em áudio em breve e talvez oferecer comentários exclusivos a assinantes. Pretendo ainda fazer “séries” audiovisuais falando sobre alguns assuntos que abordo com regularidade aqui no blog (as drogas no cperebro, determinismo e livre arbítrio, linguística) e oferecê-los aos assinantes. Nada concreto ainda, mas várias ideias.

O dinheiro será inteiramente reinvestido no blog, para fazê-lo maior e melhor. Eu estou muito, muito animado com isso.

Narcisismo e financiamento coletivo

Alguns amigos acharam louco eu começar a cobrar pelo acesso a alguns textos. E eu entendo esse pensamento. Parece narcisista. Afinal, quem sou eu para cobrar 10 reais por mês, se você pode assinar o Spotify e a Folha de S.Paulo por menos que isso e o Netflix por um pouco mais.

Mas existe outro lado também.

Primeiro, eu não estou cobrando pelo acesso aos textos. Eu estou implementando uma espécie de crowdfunding, um sistema que permite que os leitores que tiram valor do que há aqui ajudem de forma solidária que o blog se mantenha e cresça. Em contrapartida, ofereço textos alguns textos exclusivos para eles. Haveria formas alternativas de fazer isso: doações sem contrapartida, por exemplo. Mas acho que esta é minha melhor opção agora.

Dinheiro é uma medida de valor e responsabilidade

Segundo, eu não estou fazendo isso porque quero ganhar dinheiro para gastar com m*****a e p**a. Na verdade, o blog sempre foi um gasto, nunca uma fonte de renda, e continua sendo, mesmo com as assinaturas. Formando em medicina, investir tempo e energia no blog parece uma péssima ideia para quem quer simplesmente ganhar dinheiro. 

A ideia não é essa.

A ideia é que envolver dinheiro torna as coisas mais “profissionais”. As pessoas costumam ser muito ciumentas com o próprio dinheiro e apenas gastam naquilo que realmente entrega valor para elas. Isso é especialmente verdade quando falamos de assinaturas e outros produtos pouco concretos, que não têm existência física no espaço (como um celular ou um sanduíche).

Então, ter pessoas que pagam para ajudar o blog (e para ler o conteúdo restrito) é um sinal bem objetivo de que ele tem valor.

Além disso, o fato de ser pago acrescenta uma responsabilidade especial ao meu trabalho. Eu não quero decepcionar as pessoas que pagam para ajudar o blog e ler os textos restritos. É claro que eu não quero decepcionar ninguém que chega ao meu blog com o objetivo de ler textos inteligentes, úteis e divertidos, mas essa responsabilidade é inflada pelo incentivo monetário dos assinantes. Ademais, eu quero que eles mantenham as assinaturas, que eles podem cancelar a qualquer momento. Então eu tenho que entregar consistentemente algo que lhes dê o sentimento de que seu dinheiro foi bem investido.

Sustentabilidade e continuidade

Em todos os projetos que eu inicio, eu sempre penso em sustentabilidade em longo prazo. Isso envolve, por exemplo, criar processos que diminuam a necessidade de tomadas de decisão, automatizar algumas ações e gerar recursos capazes de manter o projeto funcionando independentemente.

No início, cheguei a oferecer serviços no blog, no intuito de financiá-lo. Ofereci revisão de textos e ABNT e aulas de inglês. Consegui algum dinheiro assim, mas essa estratégia não condizia muito bem com o que eu realmente almejava. Afinal, dar aulas de inglês não tem nada a ver com o blog, é algo que eu já fazia antes, independentemente dele. O objetivo é que o próprio blog gere seus recursos.

Cheguei a colocar propagandas no blog, mas o custo estético delas é caro e o retorno para quem tem um público tão diminuto como o meu é ridículo. Essa estratégia pode fazer sentido quando o volume de acessos é bem, bem grande, mas isso é um sonho longíquo ainda.

Escrever um livro com certeza é algo a ser feito no futuro, mas também não sei se seria possível gerar receita significativa com isso. Livros são coisas muito pouco compradas e consumidas, talvez ainda menos do que posts de blogs. É claro que algumas poucas dezenas de escritores no mundo inteiro conseguem ganhar dinheiro vendendo livros, mas é um privilégio de muito poucos.

No fim, o sistema de assinaturas me parece a melhor ideia. Além do financiamento, essa estratégia gera uma espécie de comunidade de leitores mais próximos, que interagem mais com meu conteúdo. E isso é muito bom, pois, afinal, o objetivo era esse desde o começo: expor meus pensamentos e discutir boas ideias.

Vender conteúdo é f**a

É incrível como as pessoas são resistentes a comprar serviços como esse da assinatura do blog. Eu gostaria de saber qual é a psicologia por trás disso. Não que meu blog seja o melhor produto disponível no mercado, mas nas últimas semanas várias pessoas mandaram mensagem expressando descontentamento com o fato de algum texto que elas gostariam de ler estar bloqueado. Mesmo assim, parece que nem passa pela cabeça delas tentar a assinatura.

É engraçado porque a assinatura é bem barata. Eu gostaria que fosse mais ainda, mas isso faria com que uma fração muito grande dos pagamentos ficasse apenas para as taxas. Não compensa.

Dez reais é o preço de um lanche, só que um lanchs devem ser comprados todos os dias. É o preço de um único litrão de cerveja, desses que compramos quase em atacado nos finais de semana. É 33 centavos por dia, um terço do preço de um cafezinho e um décimo do preço de um espresso, que também precisamos comprar todos os dias.

Isso não é exclusividade minha. Imagine jogos de computador ou até esses joguinhos simples de celular. Muita gente gasta várias horas por semana com esses joguinhos. Mesmo assim, não estão dispostas a pagar nada para receber serviços especiais no jogo. Por outro lado, elas gastam valores muito mais altos em uma única noite na rua, com álcool, ingressos, transporte, maquiagem etc. 

Mesmo que o jogo possibilite horas de entretenimento, ele não parece ser digno de ter dinheiro investido nele, nem em pequenas quantidades. O que, se pensarmos bem, não faz muito sentido.

Isso é verdade para quase tudo na internet. A internet é um mundo de coisas gratuitas. Estamos muito mais dispostos a pagar pelo livro de papel (que ocupa um espaço no mundo) do que pelo ebook.

De todo modo, é isto que eu tenho. Estou bem feliz com a forma como as coisas têm ido até agora. O número de assinantes superou o que eu achei que conseguiria nestas primeiras semanas. O desafio agora é não decepcioná-los e mantê-los, e aplicar os recursos da melhor forma possível para o benefício do blog.

O melhor está por vir.

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