O mundo é maior que o teu quarto

Eu ia falar de novo sobre aquela mesma coisa chata que é falar mal das pessoas no Twitter. Mas eu cansei de falar disso e até de escrever essa palavra. Eu odeio escrever “Twitter”. Tem um caractere estranho, um encontro consonantal desagradável e uma letra em caixa alta incomodativa. Horrível.

Então eu vou evitar falar da dinâmica da rede social em si e falar exatamente sobre o problema que vejo constantemente se manifestar através dela.

Pais, filhos e irmãos

Dificilmente a relação entre dois indivíduos é totalmente livre de atritos. Até mesmo seu cachorro o decepciona às vezes. Aliás, se seu cachorro nunca o decepcionou, então provavelmente é você que está pisando na bola com ele.

Da mesma forma, pais, filhos e irmãos se decepcionam também. É lógico. Afinal, não somos semideuses nem temos pais que os são. Somos todos pessoas ruins que tentam ser boas. E fazemos um bom trabalho na maior parte do tempo.

Por isso, acho muito ruim sempre que vejo qualquer um falando qualquer coisa sobre o pai, a mãe, o irmão, a irmã, a tia, o primo, a avó, o amigo ou qualquer outra pessoa próxima. Primeiro, porque é desleal. Segundo, porque é ingrato. Terceiro, porque não é inteligente. E quarto, porque é preguiçoso.

Deslealdade

Falar mal de pessoas próximas é desleal, porque geralmente nós conhecemos melhor o lado ruim dessas pessoas, porque elas confiaram em nós o suficiente para mostrá-lo. Você pode idolatrar tal jogador ou tal atriz, porque você não conhece essas pessoas de verdade e é muito fácil gostar delas de longe.

Conhecer o lado ruim das pessoas não é conhecer “seu lado verdadeiro”. As pessoas têm faces públicas verdadeiras que são boas e ruins e faces privadas que também são verdadeiras e que também podem ser boas e ruins. Conhecer a face privada e ruim de alguém e falar publicamente sobre isso não é nobre, não é honesto, não é um serviço à humanidade. É apenas feio e cruel.

Existe esse zeitgeist da nossa geração que nos incentiva a julgar todos a ferro e fogo, inclusive as pessoas dentro de nossa casa. Os jovens (como eu) dizem: “eu não sou obrigado a gostar do meu pai machista” ou “eu não quero passar pano para minha mãe homofóbica”. Eu sinto até uma espécie de nojo ao escrever isso, pois essas frases são de uma arrogância imensa.

Não reduza as pessoas queridas a essas facetas de baixa resolução. Existe um universo inteiro por trás do machismo do seu pai. E essa estória de não tolerar o intolerante é conveniente demais para ser útil de verdade.

Ingratidão

Falar mal das pessoas próximas é ingrato, porque enfatiza uma gota de erro em um mar de ações acertadas. A maioria dos pais é imensamente boa para a maioria dos filhos (dentro de suas condições extremamente limitadas).

É claro que há exceções. Há mães que matam filhos, pais que estupram filhas e irmãos que roubam irmãos. Coisas muito ruins podem acontecer dentro de nossas próprias casas, e eu também tenho nojo de escrever isso. Às vezes, pode ser até difícil discernir o que é abuso de confiança e o que é uma relação conflituosa não patológica. As coisas não são simples.

Mas eu diria que a maioria das famílias das pessoas que eu conheço são relativamente saudáveis. E boa parte delas, mesmo quando tendem ao patológico, ainda não atingiram um ponto de não retorno (ou seja, a relação familiar pode voltar a ser saudável, pois nada tão grave aconteceu ainda).

Não sei se é necessário, mas é prudente deixar claro que eu não estou falando de homicídios e estupros (ou crimes de similar seriedade) entre familiares. Nesses casos, a patologia chegou a níveis graves demais. São situações atípicas e eu não estou tratando disso.

E são exceções. A maior parte dos conflitos familiares que eu conheço são decorrentes de erros menores, geralmente de pequenos desentendimentos e choques de personalidades que não se resolvem e, portanto, se acumulam, gerando uma poupança de ressentimento que cresce geometricamente até atingir níveis insustentáveis.

Pouca inteligência

Falar mal das pessoas próximas é pouco inteligente, porque desconsidera tudo isso que eu já falei. Gabriel o Pensador fala que o racismo é burrice, pois ele julga um ser humano inteiro com base em algumas características físicas. Da mesma forma, reduzir um pai ou uma mãe a uma ou outra característica que você julga ruim é pouco inteligente. Além de ingrato e desleal.

É pouco inteligente achar que você está fazendo bem ao mundo ao emburrar com seu pai porque acha que ele é machista. É pouco inteligente achar que você tem a responsabilidade de expor “o lado ruim que poucos conhecem” da sua irmã em público. É pouco inteligente expor intimidades (suas e de outrem) na internet. É pouco inteligente achar que esse seu problema aí é culpa deles, e não sua. 

É burro achar que você é moralmente superior e que são eles que estão errados.

Preguiça

Por fim, falar mal de pessoas próximas é preguiçoso, porque é uma forma fácil de lidar com um problema difícil.

Enquanto somos paladinos da internet, somos extremamente virtuosos: não aceitamos racistas nem machistas, sabemos qual é nosso lugar de fala, compramos produtos sem conservantes e não consumimos bens gerados em cadeias de produção eticamente contestáveis, exceto quando as opções morais são caras demais (pois somos universitários sem dinheiro e não temos culpa do sistema capitalista querer lucrar sobre nossas boas intenções). Portanto, podemos falar dos nossos irmãos bolsonaristas e dos nossos tios que fazem piadas gordofóbicas. Aliás, não apenas podemos, mas devemos falar, pois estamos fazendo um bem ao mundo ao denunciar suas práticas intolerantes.

Nós não conseguimos disciplinar as relações dentro de nossas próprias casas de forma responsável e adulta, mas nos julgamos capazes de combater o racismo, o machismo e a homofobia no mundo. Não conseguimos conviver em harmonia com mais duas ou três pessoas, mas nos julgamos capazes de resolver a briga entre católicos e feministas sobre o aborto.

Não é assim.

Tente resolver as coisas dentro de casa. Tente criar uma relação boa entre você e sua mãe, seu pai e seus irmãos. Tão boa que seja inconcebível falar em vão deles na internet, para pessoas que você nem conhece.

Depois disso, você pode tentar mudar o mundo.

Mas primeiro olhe para seu próprio quarto. Sua piscina já está cheia de ratos e vai dar muito trabalho se livrar deles. Depois que conseguir isso, depois que seu quarto estiver em ordem, aí você pode tentar mudar o mundo.

Porque o mundo é muito maior que o seu quarto.

coisas erradas no mundo

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