Justiça e misericórdia

Esta semana eu gravei um podcast com o pessoas do MED Talks em que falei sobre justiça e misericórdia e a importância desses conceitos para a medicina e para os médicos. É um assunto que eu já trouxe aqui no blog antes e eu gostaria de falar um pouco sobre o que eu pensei enquanto gravava o podcast.

A imperfeição da justiça

Eu não sou religioso e entendo muito pouco sobre cristianismo, mas eu sei que existe essa ideia de que deus governa com duas mãos: uma mão representa a justiça e a outra, a misericórdia.

Eu acho isso muito interessante, porque geralmente nós vemos a justiça como um ideal absoluto que devemos buscar. Na nossa cabeça, um ser perfeito (deus) seria perfeitamente justo. Mas não é o caso. Deus é perfeito, e por isso ele não é estritamente justo. A justiça absoluta não é perfeita.

Para ser perfeito, precisamos temperar a justiça com misericórdia.

E isso é inexoravelmente injusto e é importante frisar isso. A misericórdia desbalança o equilíbrio da justiça. A misericórdia irremediavelmente faz com que a sentença seja injusta, pois a justiça perfeita, por definição, não é misericordiosa.

A misericórdia só é misericórdia de verdade quando é injusta.

Portanto, o ideal mais alto e perfeito não é a justiça. Ser justo não basta. O nosso ideal mais alto, o nosso objetivo final é alcançar uma sociedade que seja justa e misericordiosa ao mesmo tempo.

Não limite sua compaixão

Alguns anos atrás, um terrorista condenado chamado Abdelbaset al-Megrahi, que estava preso devido a um ataque que matou dezenas de pessoas na década de 80, foi solto para passar seus últimos dias fora da prisão, após ser diagnosticado com câncer de próstata terminal. 

A notícia de sua libertação foi recebida com comentários contraditórios ao redor do mundo. Alguns exaltaram a humanidade que ainda há na humanidade, ao reconhecer que a humanidade existe até nos piores assassinos. Outros execraram a decisão, desejaram a morte do condenado e lembraram suas vítimas.

É claro que eu não vou entrar no mérito da questão. Afinal, quem sou eu para comentar isso? Mas esse exemplo é muito bom para percebermos como nós encaramos automaticamente esse tipo de problema, e como podemos mudar nosso padrão de análise para um que talvez seja melhor.

Nosso primeiro impulso quando vemos uma notícia como essa de al-Megrahi é pensar se libertar esse terrorista seria justo. 

Nós estamos sempre focados na justiça.

E existe um caso muito bom para quem achou injusto libertá-lo. O homem assassinou dezenas de pessoas. Do ponto de vista exclusivo da justiça, talvez o mais justo fosse matar ele e mais dezenas de pessoas ligadas a ele. Nem a prisão perpétua nem a pena de morte (apenas para ele) seriam perfeitamente justas.

Mas essa análise é incompleta. Buscar a justiça apenas não basta. Nós temos que buscar a misericórdia também.

Nada vai trazer as vítimas do ataque de volta e nada vai curar a dor das famílias. Abdelbaset não merece nada de bom pelo que fez (considerando que ele fez, já que ele se disse inocente até o fim). Não existe nada de bom em uma tragédia como essa e ele deve ser punido por seus crimes.

Mas ele é humano e ele também merece a misericórdia da humanidade, independentemente do que tenha feito.

Não existem pessoas inofensivas

Muitas vezes nós nos sentimos compassivos com crianças passando fome ou pessoas gravemente feridas. Mas consternar-se com essas pessoas é fácil e não é um grande sinal de bondade, principalmente quando você sente seu coração amolecer, mas continua fazendo o que for que esteja fazendo.

Mais difícil é sentir compaixão pelo terrorista que matou dezenas de pessoas num avião, sem diminuir sua compaixão pelas próprias vítimas e sem menosprezar a vileza de seu crime.

Mais difícil é saber que ele é mais parecido com você do que você gosta de pensar.

Mais difícil é admitir que seu pai machista e sua mãe racista já fizeram muito mais coisas boas pelo mundo do que você, que se dedica a julgar os erros alheios.

Não existem pessoas que não erram. Essa é a outra importância do conceito de misericórdia: ela não serve para pessoas perfeitas. Pessoas perfeitas não precisam da sua misericórdia. Ela serve para pessoas que erram feio e bastante

Misericórdia é como tolerância: envolve aceitar algo que você acha errado do fundo do seu peito. Aceitar o pior pecado e o pior pecador. Ser corintiano e sair para beber com palmeirenses não é tolerância se você é um mineiro que nem gosta de futebol. Ser corintiano e sair para beber com palmeirenses é tolerância se você odeia palmeirenses como se fossem criminosos desde a mais tenra infância.

Essa é a brutalidade da cultura do cancelamento: reduzir pessoas supercomplexas a seus erros.

Não acredite em pessoas inofensivas. Elas não existem.

Agentes da misericórdia

Alguns meses atrás, Drauzio Varella se envolveu em uma polêmica na internet. Ele estava visitando uma prisão e havia uma detenta que disse a ele que havia anos que ela não recebia nenhuma visita nem via nenhum conhecido dos tempos anteriores à prisão. Drauzio, emocionado, abraçou a mulher. Depois, saiu na mídia que ela havia estuprado e matado uma criança, ou algo assim, e Drauzio Varella foi virtualmente imolado nas redes sociais por ter abraçado a criminosa.

Mas é claro que ele não estava errado. Todas as pessoas, até os piores criminosos, merecem amor e cuidado. E o papel do médico é cuidar, não julgar. 

Mais uma vez, Drauzio tinha razão.

Eu comecei a pensar em misericórdia e tudo isso depois que li o relato da Dra. Meghann Kaiser, uma cirurgiã que opera nos Estados Unidos. Kaiser conta sobre um paciente que tentou matar a própria namorada e depois se matar e que foi levado ao seu hospital, onde a médica cuidou dele durante vários dias.

Depois de algum tempo, uma das residentes abordou a médica e perguntou como ela conseguia tratar tão bem uma pessoa tão ruim. A Dra. Kaiser respondeu:

No mundo existem agentes da misericórdia e agentes da justiça, e nós precisamos dos dois. Eu, como médica, sou agente da misericórdia. Deixe que eu faça meu trabalho, e espero que os agentes da justiça façam o deles.

Médicos são agentes da misericórdia. É por isso que não cabe ao médico julgar seu paciente. Tratamos bandidos e policiais com o mesmo respeito e a mesma consideração. Tratamos estupradores e vítimas com o mesmo cuidado. Não cabe a nós enxergar nada além da humanidade dos nossos pacientes.

Independentemente do que eles tenham feito.

A mãe da justiça

Quando eu falo sobre esse assunto, eu sempre lembro de uma das grandes obras do teatro brasileiro, que é O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

Na cena do julgamento, João Grilo está prestes a ser enviado para o inferno, por ter mentido e enganado tantas pessoas ao longo da vida. Cristo não tem escolha: ele deve ser justo. O Encourado comemora a condenação e João Grilo amarga a visão de seu futuro.

É então que o “amarelo” decide tirar sua última carta da manga. João Grilo anuncia que vai apelar. Cristo pergunta a quem, já que ele próprio é quem havia julgado João. Ele responde que vai apelar para “a mãe da justiça”. Ninguém entende nada: quem seria a mãe da justiça? E João Grilo responde: a misericórdia! E invoca a Compadecida.

Esse conceito de que a misericórdia é a mãe da justiça é ainda mais revolucionário do que eu havia dito no início do texto. Eu pensava na misericórdia como uma “irmã” da justiça, como as duas mãos de deus, o caos e a ordem, o feminino e o masculino. Mas Ariano Suassuna, não sei com base em quê, coloca a misericórdia como a mãe da justiça. 

O excesso de misericórdia

É claro que a misericórdia não deve ser absoluta tampouco. O excesso da moleza misericordiosa pode ser tão destrutivo quanto a dureza da justiça incondicional.

Nós tendemos a exagerar na misericórdia com aqueles que amamos ou admiramos, enquanto guardamos a mais ferrenha justiça para aqueles que odiamos ou desprezamos. Lula lovers defendem o ex-presidente com todas as suas forças, geralmente exagerando na misericórdia, enquanto os bolsonaristas desejam as piores coisas possíveis para ele, em nome da “justiça”.

Um exercício interessante, então, seria fazer exatamente o contrário: forçar-se a ser justo com aquilo que se ama, e ser misericordioso com aquilo que se odeia. Reconhecer os exageros de sua própria ideologia, e reconhecer o mérito (ou perdoar os exageros) da ideologia alheia. Perdoar os crimes alheios, e pagar pelos próprios.

Afinal, a misericórdia por si mesmo é importante, mas é perigosa.

A justiça é para todos | ACIJ

Um comentário em “Justiça e misericórdia

Adicione o seu

  1. Texto excelente, mano, gostei das referências, da aplicabilidade da discussão, da reflexão proposta.

    Difícil mesmo conseguir estabelecer uma relação entre justiça e misericórdia de um jeito definitivo e que englobe todas as facetas dessa interação. A misericórdia só existe em um contexto de justiça, se não há condenação, não há absolvição. Talvez a misericórdia seja, de fato, o próximo passo virtuoso a ser dado, após a justiça.

    Não concordo com a afirmação de que todos merecem a nossa misericórdia, até porque, por definição, através do merecimento recebemos o que é mais justo, e não o que é misericordioso. Gosto da ideia de haver critérios para o exercício dessa última, a exemplo do que é citado na Bíblia, que diz que aquele que se arrepende e deixa, alcança misericórdia. É contraproducente perdoar quem não reconhece o erro e ainda mais nocivo não punir quem persiste nele.

    Talvez todos devamos ter olhos de compaixão, e não necessariamente exercer perdão a torto e a direito. Gosto dessa expressão “olhos de compaixão”, porque ela coloca no espectador a responsabilidade pelo sentimento. Algo que eu acredito que seja mais facilmente alcançado através da percepção da própria capacidade destrutiva. Fica mais fácil você fazer uma forcinha para tolerar o outro quando percebe que o padrão comparativo que temos não é lá essas coisas, afinal, todo mundo é filho da puta.

    Acho que esse ódio ao próximo envolve uma discussão que tem sido recorrente em quase tudo que eu vejo, que é a do tribalismo. Existe essa tendência natural a desumanizar o indivíduo da tribo rival, seja ela política, de uma faculdade rival no intermed, do sujeito que quase causou um acidente por causa da mudança de faixa sem sinalização prévia. Gostei demais, pensando nesse sentido, da proposta de tentar reverter esse desbalanço entre misericórdia ao que é nosso e justiça ao que é alheio. Talvez, por isso, o amor ao próximo seja uma coisa tão revolucionária, especialmente por esse discurso surgir em um momento onde o conceito de tolerância era algo tão distante da mente do humano médio.

    Talvez, além da misericórdia, haja o amor. Mais do que retirar o justo juízo de quem o recebe, a graça, o favor imerecido, ultrapassa a linha do que seria natural ao nosso ímpeto de sobrevivência. Preferir o próximo, deixando de escolher a si mesmo, ainda que seja mais justo, inteligente ou apropriado, tem efeitos quase que sobrenaturais. Na maioria das vezes não estamos nem preparados para receber favores de onde se deveria receber sentenças, talvez, inclusive, isso seja fundamental no processo de catarse que é a percepção da própria patifaria, já que fica tão escancarado que nosso valor está muito aquém do que seria teoricamente necessário para receber certa dádiva.

    Estou gostando muito dessa série de textos sobre essas virtudes áureas, sobre aquilo que eleva a natureza humana mesmo: Beleza, justiça, misericórdia. Acho demais que é isso que a gente busca em tudo, os ideais das coisas, essa discussão meio socrática, platônica, aristotélica, sei lá. Espero conseguir contribuir pra esses temas mais do que só com esses comentários viajados aqui hahahaha.

    PS: Gosto muito da didática que você tem tido nos textos. Tem tido discussões densas e profundas, com linguagem leve e com o desenvolvimento do raciocínio feito de um jeito bem natural. Tenho tido dificuldade nesse ponto na minha escrita, tenho tendência a querer esgotar um tema com um texto, às vezes com um parágrafo. Pessoal falou que meu último texto ficou meio pouco fluido rsrs

    Curtir

O que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑