Ego e fragilidade

Ontem eu postei um texto aqui no blog baseado em um tweet e a reação, ainda que em pequena escala, foi o mais próximo que eu já cheguei do que chamamos hoje em dia de “cancelamento”. E não foi tão legal. Mas faz parte deste sonho.

Estas são algumas das coisas que eu pensei sobre o episódio.

Não é sobre você

Quando eu escrevi o texto a princípio, eu não havia colocado minha referência inspiradora. Mandei o ensaio para um amigo e ele gostou, mas disse que nunca havia visto ninguém criticar uma pessoa que pensa demais em medicina, que não estuda nada além de medicina ou, literalmente como no tweet, cuja “personalidade só se baseia em medicina”.

Com essa observação, decidi citar o tweet. E acho que isso é bom. É ruim ler um texto que faz afirmações categóricas sem apontar evidências que as suportem.

O problema é que isso deu a impressão a algumas pessoas de que eu estava falando particularmente da pessoa que fez o tweet, o que é um absurdo. Meus textos não são sobre mim, nem sobre ninguém em particular, salvo raras exceções — como neste texto sobre Bolsonaro.

Em geral, eu realmente não me importo com o autor de qualquer pensamento — especialmente quando o autor não é ninguém notável. Eu não acho que pensar assim ou assado seja sinal de virtude ou vício. Eu sei que eu sou tão mau quanto qualquer um, e tão bom quanto qualquer um também.

Só o texto importa.

Ego e fragilidade

Certo, então houve pessoas que se sentiram ofendidas porque acharam que o texto era sobre alguém em particular (!!!). Isso já é bem louco, mas eu entendo: o disparador do texto foi um tweet e o tweet foi publicado por alguém. O texto era (obviamente) sobre o conteúdo do tweet, mas é natural que a vaidade humana personalize o alvo da crítica.

E, só para deixar claro: eu não estou chamando ninguém em especial de vaidoso. Todos nós somos assim. OK? Vo-cê en-ten-deu? Quer parar para tomar uma água e depois a gente volta? OK.

O problema é a razão pela qual alguns ficaram mordidos: eu disse que os nerds obcecados seriam melhores médicos do que a pessoa não obcecada. E o engraçado é que muita gente ficou mordida por isso, porque muita gente se identificou com a descrição do aluno não obcecado da medicina, o que é bastante lógico, pois os obcecados são uma pequena minoria.

Então, você pessoa média que está me lendo, deixa eu contar uma coisa bem óbvia que talvez você não saiba: existem provavelmente (dezenas de) milhares de pessoas que serão médicos melhores do que você… no Brasil. No mundo, esse número chega a milhões, a não ser que você esteja acima do percentil 80 em “competência médica”.

Ah, mas é lógico que eu estou! Eu posso não ser o melhor de todos, mas sou relativamente bom e devo estar acima do percentil 80.

É isto que todo mundo pensa. É um erro. É um erro tão bem conhecido que tem um nome: viés de superioridade.

Mas, por segurança, é bom você supor a princípio que está ali por volta do percentil 50 (na média). Considerando que boa parte dos médicos estão concentrados em países de primeiro mundo e que em geral a formação superior nesses países é melhor do que no Sul (goste você ou não), talvez o mais certo fosse considerar que você (“você” é um aluno (ou aluna) qualquer de ensino superior no Brasil, seu egocêntrico sensível, não estou falando de você) está abaixo do percentil 50.

Ou seja, amigo, há médicos aos montes que serão melhores que você (e eu! e todo mundo que você conhece!). E parte desses médicos será melhor porque eles estudam mais medicina e fazem menos outra coisa. E isso é tão óbvio que eu não sei como alguém poderia negar.

Posso continuar? Entendeu tudo até aqui? Está difícil compreender?

Talentos além da obsessão

Muito cristalinamente, há diversos outros fatores que levarão os milhões de médicos a serem melhores que você (não é você!). Alguns terão a sorte de nascer mais ao norte, ou mais ricos, ou mais inteligentes, ou mais emocionalmente estáveis, ou mais agradáveis (ou menos?) etc.

E alguns serão extremamente disciplinados e orientados a dever. E, além disso, eles vão gostar muito de medicina. E eles se sentirão guerreiros numa missão: desvendar os mistérios mais cabeludos da medicina e ajudar os pacientes mais desesperançosos.

Talvez haja até não-médicos que sejam melhores médicos que você (que o Zé, que a Nat, que o Jão, que a Mônica etc.): pessoas muito inteligentes, muito agressivas, muito sortudas, muito conscienciosas… e obcecadas, engajadas na missão de varrer a poliomielite do mundo, por exemplo.

Há algum problema em dizer que essas pessoas serão melhores médicos que você? Isso realmente lhe atinge? Você acha que poderia ser diferente? Você se acha tão bom assim?

Isso é loucura. E egolatria. E fragilidade.

Há espaço para a mediocridade

Esses dias, eu escrevi aqui sobre um professor na faculdade de direito que disse na primeira semana de aula: ninguém aqui é gênio; se fosse, não estaria aqui.

Teve gente que achou o comentário sem noção, ressentido ou pessimista. Eu não sei em que mundo essas pessoas vivem em que há gênios brotando por todos os lados. Para mim, dizer que você não é um gênio é uma simples constatação. Se muito, ela peca por otimismo, por deixar entender que você chega perto de ser um gênio.

Hahahahahahahahahahaha. Não.

Você não é um gênio. Você é medíocre. E eu também. E você vai ser um médico medíocre. E eu também (ou abaixo da média). E não há problema nenhum nisso.

Nós vamos atender bem nossos pacientes, ajudar a diminuir seu sofrimento, salvar vidas (amém), voltar para casa, brincar com os filhos, tomar um chope, ver um filme, conversar com um amigo, jogar uma bola, viajar… E viver a vida.

Alguns outros, raros, viverão muito pouco disso. Porque eles se dedicam 150% a uma coisa só. E não dá tempo de jogar bola quando você quer ser o número um em nove milhões de médicos no mundo.

A mediocridade do obcecado

Confesso agora que incorri no mesmo erro que algumas das pessoas que comentaram no Twitter: espantalhei a discussão. Verdade seja dita, meu texto não foi sobre outliers, foi sobre pessoas comuns que são melhores em suas profissões que outras pessoas comuns por causa de sua obsessão. 

O argumento se mantém, é só transferir a rationale de lá para cá: pessoas que se dedicam mais intensamente a um assunto tendem a ter resultados melhores nesse assunto do que pessoas que se dedicam menos. Novamente, é uma constatação óbvia.

Também é óbvio que não é o único fator. Como eu já disse neste texto e como eu disse no texto que deu origem a tudo isto, a obsessão é um fator, mas existem outras coisas (ler na voz do Renato): inteligência, estabilidade emocional, educação básica etc.

Nesse caldeirão, a obsessão é mais um fator. E o obcecado será um médico melhor que você.

Bêbada ou psicótica?

Olha que loucura: eu escrevi um texto bem simples e razoável, com uma tese bem pouco polêmica: quem se dedica mais a algo tende a ter resultados melhores nesse algo. É isso. E eu ainda falei que eu não recomendaria a obsessão a ninguém, pois, nas minhas palavras, ela tem o poder de criar gênios, mas também de destruir vidas. E eu ainda falei que eu sou o oposto disso: eu gasto muito tempo com blog, esporte, família, amigos etc.

E, mesmo assim, a gangue que se indignou com o texto supôs coisas absurdas. E quando eu falo absurdas não é no sentido de “extremas e difíceis de engolir”, é no sentido de “essa interpretação é tão burra que fica difícil de acreditar que pessoas educadas a tenham feito”.

Sugeriram, e.g., que eu teria escrito o texto presumindo que eu fosse melhor do que o autor do tweet, como se eu tivesse escrito que eu era obcecado (hahahaha) e que seria melhor médico do que ele. 

Não, não foi isso que eu disse e eu não me acho melhor que ele. E isso está bem claro no texto.

Por outro lado, é muito, muito, muito difícil para mim não me achar melhor do que quem faz essa interpretação. Mas eu estou tentando. OK?

Ódio predatório e crítica positiva

Eu sei que todos ou quase todos que de fato se sentiram ultrajados pelo texto e me atacaram de alguma forma no Twitter não o fizeram por racionalidade: eles simplesmente não gostam de mim.

É importantíssimo entender isso: de todo feedback negativo que recebemos, grande parte dele será predatório: pessoas que não gostam de você e que dificilmente vão começar a gostar, independentemente do que você faça.

Não tem problema. O mundo é grande demais. Almejar ser bem quisto por todo mundo é tão pouco inteligente quanto achar que eu faria um texto atacando você pessoalmente ou achar que você seria um dia o melhor médico do mundo.

E pra essas pessoas que não gostam de você, você tem que dar poucas ideias. Tem duas frases que eu uso para me orientar em relação a essas pessoas. A primeira é: non ragioniam di lor, ma guarda e passa (mas eu não estou falando que você é um dos indolentes de Virgílio, OK?).

E a segunda é esta.

Se alguém quiser realmente criticar algo que eu disse de forma inteligente ou discutir o assunto do texto de forma amigável (mesmo no mais profundo desacordo!), pode me chamar. São essas discussões que mantêm a chama que me faz manter este blog.

Pode me chamar, sim, mas se for para ter uma discussão boa sobre o assunto, eu prefiro que usem os comentários aqui embaixo. Eles foram feitos para isso.

Mas, caso decida comentar, não faça como a galera de ontem. Não crie espantalhos, não seja irônico, não desmereça meu trabalho gratuitamente. Baseie-se na gentileza e nos bons argumentos e na tentativa honesta de criar ideias mais úteis para nos ajudar a caminhar neste percurso louco que é a vida.

Sobre meu blog

Houve dois episódios que me incomodaram particularmente ontem. Na verdade, três, mas um não me incomodou pessoalmente, apenas como estudante de medicina. Uma menina disse que não conseguiu ler meu texto porque desmaiou com loló (?). Eu queria que alguém dissesse a essa menina que ela está mU1t0 loUC0na, muito doida e muito radical, e que isso não fez bem para sua saúde. Doidona.

Um era uma piada no sentido de o blog ser bobo ou ininteligível. Ao sujeito que fez essa publicação, eu sugiro começar a ler o blog por aqui, pois suspeito que ele não tenha tido muito contato com meus textos. E essa suspeição não vem da crença de que ninguém nunca vai achar meu blog bobo — com certeza vão. Mas eu realmente tenho essa intuição de que ele não conhece muito do que escrevi. Então, fica o convite.

Se ler e quiser comentar o que você acha bobo ou sei-lá-o-quê, sou todo ouvidos. Se mudar sua avaliação sobre o que escrevo, sou todo ouvidos, também. Se o blog referido não era o meu, tudo bem; de toda forma, se quiser, leia e me diga o que achou.

A outra coisa foi essa menina que ficou indignada de eu ter escrito um texto em resposta a um tweet. Eu entendo a indignação: talvez para você (agora é você) seja impensável alguém ler uma frase e escrever um texto. Difícil demais, trabalhoso demais. 

Não é meu caso.

***

Post scriptum

Escrevi este texto ainda na noite de ontem para hoje. Agora, já tarde de sexta-feira, há alguns comentários a mais a serem feitos, sobre algumas coisas mais bizarras que aconteceram de manhã.

Primeiro, essa garota que se indignou com meu texto escreveu mais um tweet absurdamente rrrrridículo, como diria Paulo Bonfá nos tempos áureos de Rockgol:

Primeiro, eu não estou preocupado em me promover. Todos os meus textos são bem escritos e bem argumentados e cumprem o papel a que se dispõem. Não há (quase nenhum) marketing barato por aqui.

Segundo, eu não critiquei um texto, eu critiquei um tweet. Isso que você escreve não é texto, é tweet. E eu acho que você teria dificuldades imensas de escrever um texto de contraponto ao meu. 

Talvez seu primo consiga… 

Terceiro, o infeliz episódio do Márcio não tem nada a ver com isso. Quem parece estar querendo se promover em cima da estória é você.

***

Depois as coisas ficaram piores. O discurso continua cada vez mais estúpido, mas agora é também desonesto, rasteiro, criminoso. A menina sugeriu que eu estivesse atacando o autor do tweet original porque ele é negro e a ela porque ela é mulher:

Isso é um absurdo sem tamanho! É ridículo, é completamente nojento, desonesto e mentiroso. Seja burra o quanto quiser, mas não me acuse de coisas tão graves de forma tão leviana. Não é assim que as coisas funcionam. 

Presta atenção. 

***

Aliás, importante deixar claro que eu não ataquei gratuitamente ninguém. Eu muito raramente faço isso (e sempre estou me esforçando para não fazer, caso identifique o impulso a isso).

Vamos colocar os pingos nos is: eu escrevi o texto baseado no tweet, algumas pessoas não gostaram e essa menina (que eu nunca citei antes!) publicou diversos, diversos tweets ironizando ou menosprezando meu texto. Por exemplo, este:

Eu não ataquei ninguém gratuitamente. Eu fui atacado gratuitamente. 

Por asnos, como podemos ver:

Por que eu me doeria por isso? Eu falei no texto, com todas as palavras, que eu não sou essa pessoa que só se interessa por medicina. Inclusive, eu tenho certeza que se a gente fosse conversar sobre qualquer assunto você levaria um chá. Exceto talvez em técnicas ineficazes de militância. Neste assunto você ganha. Mas em qualquer outro, eu apostaria em mim: filosofia, poesia, medicina, neurociências, economia, política, amor, direito, linguística, literatura, psicologia… Qualquer coisa.

I’m so far out of your league, it’s like we’re not even playing the same sport.

Simplesmente não saiu um tweet seu dessa história que fizesse sentido. E ela me bloqueou no Twitter depois de dois minutos de trocação.

***

Para completar, minha ex fez um tweet me criticando. Eu respondi o tweet e ela me mandou mensagem pedindo para eu ser da paz, chamar a pessoa para conversar se quiser criticá-la e não citá-la nas redes sociais.

Sim, ela disse isso depois de me xingar muito no Twitter. Novamente, outra vez. E novamente ela demonstra sua total falta de classe divulgando coisas íntimas. Quem nasce mané, morre mané.

Depois veio dar pitaco no meu blog (sem eu ter pedido) e achou ruim ser bloqueada. Que doideira.

O meme poderia ser “enfim, a hipocrisia”, mas o nível de psicose dessa interação está bem acima disso. Eu lembrei daquele trecho de Indecência Militar, do primeiro álbum do Pensador: “eu acho que eu tô doidão, ela disse pra ser da paz?”.

***

Por fim, a todos os meus amigos e a todos os leitores sensatos que me acompanham e me ajudam há tanto tempo, sempre comentando os textos, mandando suas opiniões e incentivando: desculpa. Desculpa pelo desabafo. Este texto foge um pouco da proposta do blog, mas eu precisava falar sobre os absurdos que falaram sobre meu bebê. 

Desculpa se por estas poucas horas fiz parecer que o blog era um filme de adolescente. Justiça seja feita, ele foi invadido por uma porção de adolescentes. Perdão.

Já passou, já passou. Voltamos à programação normal: crítica, evidência e poesia. Com inteligência e bom senso.

demônios

Um comentário em “Ego e fragilidade

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  1. Apesar de não ser um dos meus textos preferidos me pergunto se essas pessoas realmente o leram. Mas como dizia Einstein quanto maior o ego, menor o conhecimento.

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