Jogando xadrez com pombos

Sobre debater com pessoas com quem não dá para debater, uso de linguagem profana e uma carta aberta à minha ex-namorada.

Out of character

David Cain uma vez escreveu que devemos constantemente fazer coisas que nos pareçam out of character, i.e. coisas que você sente que não são “suas”, que não são usuais de você próprio. Você constantemente fará coisas que pareçam “estranhas” aos olhos de outras pessoas, mas não é esse o conceito: tem que ser algo que cause estranhamento a você mesmo.

Fazer coisas out of character é um pouco aquilo que a vibe gestora-empreendedora chama de sair da zona de conforto, pois fazer coisas que não são de seu caráter justamente expande seu caráter. Fazer coisas que você não costumava fazer aumenta o número de coisas que você faz. Você se torna um animal com raio de ação maior.

Esse é o lado bom de fazer coisas que não condizem com o que você espera de si mesmo, mas há um lado ruim também. Apesar da unidade do ser humano ser uma ficção, uma intuição que temos que nos ajuda a navegar no mundo de forma mais efetiva, ela é psicologicamente importante. Nós gostamos de ser quem achamos que somos e nós nos esforçamos para agir de forma que condiga com nossa narrativa sobre nós mesmos. Nós gostamos de nossa previsibilidade. O inesperado incomoda, pois ele é o desconhecido, e o desconhecido incomoda.

Além disso, fazer coisas novas pode ter resultados inesperados e catastróficos, tanto emocionalmente como no mundo real. Quantas coisas out of character já não fizemos que depois nos fizeram nos sentir ressentidos, impotentes, arrependidos? Essa dissolução de si mesmo pode ser extremamente desagradável.

Ontem, eu fiz coisas que me pareceram out of character: xinguei, expus nomes, fui irônico, presunçoso e propositadamente arrogante. Mas foi preciso.

Xadrez aos pombos

Existe esta alegoria famosa para quando um debate se degenera sobremaneira devido à atitude pueril e à falta de argumentos razoáveis de um dos interlocutores: um jogo de xadrez com um pombo. Foi assim que me senti ontem: jogando xadrez com (uma porção de) pombos.

Não tem como dar muito certo, pois pombos são simplesmente incapazes de jogar xadrez. Pior que isso, eles desarrumam todas as peças e defecam sobre o tabuleiro, estragando o jogo. E pior ainda, depois de tudo, eles abrem asas e saem gritando vitória.

Escrevi um textinho sobre a relação entre excelência e dedicação e uma menina completamente fora do radar disse que eu a estava atacando (quem é você?) por ser mulher (wut?): tem forma melhor de ilustrar isso do que um jogo de xadrez com pombos?

Eles não entendem nada, pervertem completamente o jogo e saem papagueando vitória. E você fica lá sem ter o que fazer. Eu até gostaria de dizer que eles pelo menos me ajudaram a divulgar o blog, mas a massiva maioria das pessoas que visitaram o blog vieram do meu Instagram, e não do Twitter dos pombos. Nem para isso.

Dificilmente eu uso linguagem profana em textos de não-ficção, quase nunca eu exponho nomes de ninguém, e é raro que eu leve desentendimentos intelectuais para o lado pessoa. Eu fiz tudo isso ontem. E eu não gosto, mas ontem foi preciso.

Afinal, não tem como jogar xadrez com pombos e eu me senti bobo sentado lá, tentando mostrar a eles o valor de cada peça, enquanto eles as desarrumavam e sujavam meu tabuleiro. Eu decidi tirá-los dali antes que eles estragassem de vez minha mesa, da qual cuido com tanto esmero. Deixei o jogo para lá, subi na mesa, chutei um pombo a 30 jardas de distância entre postes, pisei na cabeça do outro e fiz “shishishi” para espantar o último. Limpei a bagunça e arrumei as peças. Está tudo em ordem.

Pode se sentar.

Linguagem profana

Outra coisa que David Cain já disse, com a qual eu concordo bastante: xingar casualmente faz você parecer bobo. Xingar pode ser bem feio e sem classe, dependendo do xingamento e do contexto. Regra geral, é bom evitar sempre.

Mark Manson, por outro lado, é um autor famoso por usar a palavra “fuck”. Ele tem dois best sellers pelo NYT, os dois com termos profanos: The subtle art of not giving a f*ck e Everything is f*cked. Há algumas semanas ele fez uma pesquisa com seus leitores sobre o uso de palavrões e a grande maioria (acho que por volta de 85%) gostava deles.

Eu tento evitar linguagem profana no dia a dia, apesar de ainda usar bastante. Nos meus textos, eu quase nunca uso (exceto nas ficções). Mas estou pensando em começar a usar. A estória de Manson me convenceu que, se bem usadas, as profanidades são úteis.

É desconfortável, porque me parece out of character. Mas pode ser bom no final.

O primeiro experimento foi justamente o texto que motivou todo o burburinho: Quem só medicina sabe, sabe medicina pra car***o. Provavelmente eu vou usar mais expressões como esta de agora em diante.

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