Só quem se mostra se encontra

Por mais que se perca no caminho

Cazuza, meu artista preferido, disse uma vez:

Sou ariano. E ariano não pede licença, entra, arromba a porta. Nunca tive medo de me mostrar. Você pode ficar escondido em casa, protegido pelas paredes. Mas você está vivo, e essa vida é para se mostrar. Esse é o meu espetáculo. Só quem se mostra se encontra. Por mais que se perca no caminho.

Pode ser um engano meu (afinal, nós não temos ideia do que acontece de verdade nas nossas cabeças, apesar de criar teorias malucas para explicar tudo que sentimos e pensamos e achar que elas estão certas), mas eu acho que deixei de ser muito tímido quando era criança a partir de um esforço cognitivo: eu me forçava a ser menos introvertido e menos socialmente ansioso, usando pensamentos como esse de Cazuza.

Mesmo assim, minha natureza introvertida e tímida sempre continuou existindo, principalmente em planos mais baixos e menos racionais. Quando a exposição é inesperada ou involuntária, quando o intelecto está cansado ou quando o mundo é mundo demais para os sentidos, a timidez é mais forte do que a razão.

No fundo, todo mundo tem um pouco essa vontade de agradar as outras pessoas e essa é pelo menos em parte a raiz de alguma timidez (inclusive no meu caso). No receio de incomodar, já deixei (e ainda deixo!) de fazer muitas coisas.

Porém, hoje muito menos do que outrora.

Porque não vale a pena.

Gregos e troianos

É um desses clichês que, de tão verdadeiros, são menosprezados e tornam-se pérolas aos porcos: é impossível agradar a todo mundo. Sempre haverá uma porção de pessoas que não gosta do que você faz ou é. Haverá uma porção de pessoas que odiará o que você faz ou é. Mesmo que poucos.

E não importa o quão razoável, conservador, medíocre, regular e comum seja seu comportamento ou sua obra: haverá uma pequena porção que odiará.

O problema é que se esforçar para diminuir a porção odiadora é um tiro no próprio pé, porque a forma de fazer isso é exatamente tornando-se medíocre, normal, comum. E isso funciona, pois tornar-se médio diminuirá o número de odiadores. Mas diminuirá o número de adoradores também. E isso é ruim.

Não vale a pena não ter odiadores.

O inimigo do carteiro

Eu trabalhei nos Correios quando eu tinha 16 anos. Uma das coisas mais legais que eu aprendi lá foi a percepção de que acontecem muitas coisas por trás dos panos de qualquer serviço da nossa sociedade. Quando você recebe o carteiro na sua casa para pegar seu pacote, você não imagina como realmente é o trabalho de um carteiro no CDD (Centro de Distribuição Domiciliar) nem o trabalho daqueles que ficam por trás dos bastidores do gerente no CTCE (Centro de Tratamento de Cartas e Encomendas).

Lá no CDD, de manhã os carteiros ficam todos juntos em um enorme salão. Cada um tem uma espécie de escrivaninha, uma mesa com vários escaninhos com o nome e numeração das ruas da cidade. Antes do almoço, o serviço deles não é entregar cartas: é organizar as cartas que chegam do CTCE de acordo com a ordem de entrega. Eles fazem isso a manhã inteira e à tarde saem para entregar as correspondências. O que nós julgamos ser o trabalho dos carteiros é apenas metade do trabalho de um carteiro.

No fim do expediente, todos voltam para o CDD para finalizar o dia: anotam as cartas que não foram entregues, organizam os protocolos dos ARs (Avisos de Recebimento) e passam a limpo os nomes esgarranchados dos receptores dos envelopes.

Nessa hora, no fim da tarde, todos estão fisicamente excitados (pois voltaram pedalando rápido). O CDD era tomado pelas vozes altas dos carteiros, cada um concentrado em sua escrivaninha, conversando aos gritos um com o outro.

Num desses fins de tarde, um carteiro de cabelo branco (mas novo) de Tupaciguara (que ia e voltava todos os dias), gritou algo que eu nunca esqueci:

Ter inimigo é BOM. A gente tem que ter inimigo. É isso que faz a gente querer ser melhor.

Quem sou eu para discordar de um carteiro de cabelos brancos.

Seja impecável com a sua palavra

Ser impecável com a sua palavra é o primeiro acordo de Don Ruiz em seu famoso livro, The Four Agreements. A ideia é: ser verdadeiro e bom em cada palavra e em cada ação, para os outros e para si mesmo.

Isso envolve não dizer (e não fazer) coisas em que não acredita. Mas envolve também não cultivar pensamentos ruins sobre si próprio e sobre o próximo.

Ser impecável com minha palavra é uma das coisas que me tranquiliza sempre que entro em alguma discussão sobre qualquer coisa que eu digo e escrevo: se eu sei que escrevi exatamente aquilo em que acredito, se eu realmente acredito naquilo que escrevi, eu sou uma fortaleza. Pois mesmo se eu estiver errado, eu preciso apenas continuar sendo impecável com minha palavra e admitir que estive errado.

E assim eu mantenho a unidade do meu eu e não me degenero em diversas ideias desconexas. Eu sei exatamente quem sou, o que penso, o que sei e como cheguei em cada conclusão. E então eu estou pronto para o diálogo.

Incomodar e encantar

Sendo impecável com sua palavra, dizendo exatamente o que acredita e tendo pensado de forma honesta sobre aquilo, não há necessidade de se censurar. A não ser, claro, que você esteja mentindo para si mesmo, fingindo ter boas intenções quando sabe que no fundo não é nada disso.

Mas se você realmente é sincero e honesto, se você realmente é impecável com sua palavra, cada linha é um serviço. Pode ser afiado e perigoso, mas é um serviço. Se sua palavra for realmente impecável, então ela deve ser dita. Mesmo que custe caro.

Pois, sendo afiado e perigoso, algumas pessoas serão negativamente atingidas, e isso pode ser ruim, mas é inevitável. Sempre haverá odiadores, mesmo que poucos.

Felizmente, porém, quando você é impecável com sua palavra e seu discurso é realmente afiado e perigoso, você atingirá as pessoas certas (de forma positiva e negativa). E quanto mais afiado for, mais perfeita será a seleção. 

Quanto mais honesto, verdadeiro e aberto você for, mais você incomodará alguns e mais você encantará alguns outros.

Vale a pena?

Talvez não. Ter inimigos cobra seu preço e é um preço amargo. Mesmo que não sejam inimigos de verdade.

Mas tocar o coração das pessoas não tem preço.

Existem sete bilhões de pessoas no mundo. É impossível agradar todos. Mas é possível tocar profundamente alguns e deixar um impacto verdadeiramente positivo na vida deles.

Quanto mais você se expõe, mais você atrai alguns e repele outros. Quanto mais afiado, mais você atrai as pessoas certas e repele as pessoas erradas. E isso é bom.

Exposição dói, e para um garoto introvertido como eu, é a pura perdição. Mas é a única saída razoável. É a única forma de agir que vale a pena.

Vale mais a pena levar porrada do que andar em linha reta.

2 comentários em “Só quem se mostra se encontra

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  1. Eu te conheci pelos textos e jamais acharia que tu era introvertido. Só concordo porque depois te conheci pessoalmente e vi que sim, você é, apesar de driblar isso muito bem haha.

    E seus textos têm ficado cada vez mais afiados e perigosos. Eu sou a pessoa que me aproxima mais com isso, então estou adorando kk

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    1. Também sou bastante introvertido. É uma batalha íntima. Calar-se, na minha visão, significa comodidade. Salvo momentos que julgo tão inúteis e fúteis que prefiro nao gastar minha energia haha.
      Contudo, assim como vc, nicolau, sou menos introvertido que outrora. E acredito que isso é relacionado tanto à minha evolução pessoal – a qual se deve, dentre outros meios, ao blog, a conversas com amigos (e ao chorão), quanto à certeza que meus pensamentos são impecáveis.
      Hell yeah, texto massa, mano!

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