Coração Sonâmbulo

Era um sonho. E no sonho sonhei coisas que já aconteceram e também que estava louco. Mas um louco como estou desperto. Eu sonhei que estava louco sonhando e acordado.

Existem milhões de tipos de loucura. A verdade é que não sei se alguém já parou para contá-las. Mas cada um é louco a seu modo.

Talvez, se a gente quiser falar de estatística, podemos fazer assim. Existem tantas loucuras quantas pessoas vivas ou que já viveram. Bilhões, portanto. Nem Freud conseguiu contar.

Freud era louco também. Achava que a culpa de tudo é da minha mãe. E ele não conheceu minha mãe. Muito normal ela não é, mas é uma boa pessoa. Cuidou de mim quando eu não sabia falar. E só aprendi a falar aos quatro anos.

Daí, no meu sonho, tinha um outro médico, completamente louco. Queria me dar uma injeção que curava qualquer coisa. Para a depressão, por exemplo, bastavam sete doses, uma pra cada dia da semana.

Mas quem inventou os dias da semana?

A lua, imagino, pois só ela tem esse direito. E alguns padres, que só trabalham aos domingos, quando celebram missa. Todos completamente loucos.

A minha loucura é toda especial. Aliás, é ocasional. Quando estou muito triste. Ou quando, ao contrário, meu coração bate forte e eu respiro rápido ar…fando. Não sei por que sou assim.

Tenho muito medo de ficar louco. O que é curioso, porque significa que: ou eu, de fato, não o sou (o que faria de mim uma grande exceção). Ou sou bem maluquinho, mas não tenho consciência disso.

Também tenho medo de outros loucos. Daqueles que falam muito e têm certeza de tudo. Parece que estão em guerra com o mundo.

Dos demais, os que vivem em silêncio e contemplam os próprios pensamentos como algo passageiro, desses eu gosto. Eles alcançaram uma sabedoria muito preciosa.

É preciso estar em paz com a insanidade.

Nesse meu sonho, eu escrevia algo bonito, pra menina que eu gosto. Como estou escrevendo agora.

Quando eu era adolescente e me vi numa grande enrascada tentando entender o bem e o mal, guardei algo pra mim mesmo. O único pecado é ser ruim com alguém e o único crime também é esse. Talvez, então, esses sejam os loucos. Os deliberadamente maus.

Mas e se formos todos maus?

Os apaixonados, por sua vez. Eu os chamaria de estranhos. Confiam em seus sentimentos e fazem do amor um dogma absoluto.

Mas o amor é um dogma absoluto. Tem que ser.

Nos sonhos, somos livres. É tudo uma grande fantasia, acontecem coisas impossíveis e temos liberdade para os medos e desejos mais obscuros, que nem imaginaríamos admitir acordados. Mas se somos livres, não entendo por que escolhemos ter sonhos ruins.

Nos sonhos, tudo é irreal. Menos o que nós sentimos. Eu acordo com raiva, às vezes. Ou triste. Ou apaixonado.

Eu estou sentindo algo noite e dia, então. Dormindo ou acordado.

Com quê os bebês sonham? E os cachorros? E os peixinhos de aquário, que dormem com os olhos abertos?

É melhor não ficar pensando.

Mas é melhor do que não pensar.

E sentir é melhor do que não sentir.

Pois estamos vivos.

E estar vivo é lidar com luzes e sombra todo o tempo. Com o sol da meia-noite. Ou com a escuridão, do meio-dia.

A vida é inteiramente isso. O resto é poesia.

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