A corrida de ratos nunca vai acabar

Muita gente na quarentena viu a vida vindo em ondas: dias bons e gostosos e produtivos, alternados com dias ruins e desgostosos e improdutivos. Não demorou para surgirem as mensagens do tipo “você não precisa ser produtivo todo dia” e “tá tudo bem ficar uma semana sem fazer nada” e “você tá no meio de uma pandemia, não se cobre tanto”.

Nessa nossa tendência de tentar ser cada vez melhor que nós mesmos e que os outros, costumamos ser comparados a ratos numa corrida de ratos: correndo parados, sem destino, tentando estupidamente correr mais que o outro, que também corre sem rumo e sem motivo, sem reflexão.

Mas nós, primatas bípedes sencientes, consideramo-nos indignos de tal corrida. Não aceitamos estar em uma corrida de ratos. Não, nós somos diferentes. Nós somos mais rebuscados que ratos.

Podemos escolher não correr e relaxar. Podemos escolher a vida hippie, o sol no rosto, a praia e a cachoeira. Podemos escolher a bebida e o cigarro, o amor e a amizade, a vida mansa em comunhão com a natureza. 

Podemos escolher felicidade verdadeira e isso é muito melhor que uma corrida de ratos.

Afinal, para quê ficar trabalhando demais e se preocupando demais, se podemos viver de forma simples e tranquila? Se podemos ser good vibes?

Pff. Nunca ouvi tanta bobagem.

***

Não existe hippie que se aguente. A vida mansa e sossegada é uma ilusão. Nunca vi coisa boa sair de quem diz “comunhão com a natureza”. Good vibes é o caralho.

Você precisa dessa dose de dopamina que só a competição pode dar. Você precisa dessa descarga mesolímbica de dopamina que segue a sensação de se aproximar de um objetivo valioso. Você precisa competir, você precisa buscar objetivos inalcançáveis.

Você precisa se superar e você se sente um lixo quando você sabe que não está fazendo o que devia exatamente porque você sabe que devia estar fazendo aquilo e não está.

Não coloque a culpa no sistema, não coloque a culpa nos colegas tóxicos que postam fotos sendo produtivos, não se autocomisere tanto, não seja tão reles consigo próprio.

Você se sente mal quando está sendo inútil porque isso vai contra a sua natureza.

Corre, ratinho.

***

Faz muito tempo que eu penso no sentido da vida. O que estamos realmente fazendo aqui? Para que serve isto tudo?

E cada vez mais eu entendo qual é o sentido.

Estamos aqui para correr. 

Não é para ser feliz. É para tentar vencer a corrida. Mesmo se não conseguirmos. Especialmente se não conseguirmos. 

Por que o objetivo não é cruzar a linha de chegada. 

É simplesmente correr.

***

“Myths and legends die hard in America. We love them for the extra dimension they provide, the illusion of near-infinite possibility to erase the narrow confines of most men’s reality. Weird heroes and mould-breaking champions exist as living proof to those who need it that the tyranny of ‘the rat race’ is not yet final.” — Hunter S. Thompson.

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