Quem é o ex-juiz Sérgio Moro?

O perfil de quem mora no interior do Paraná

O paranaense se acha europeu. Pior do que isso. Uma versão mais pura da Europa atual. Desde que os imigrantes italianos, alemães, japoneses (preciso citar apesar de não virem da Europa), ucranianos e poloneses chegaram ao Paraná no século XIX, muita coisa mudou no velho continente. Regimes fascistas, duas guerras mundiais, Guerra Fria, imigração, redemocratização e uma União Europeia. O europeu de hoje tem poucos traços da Europa de dois séculos atrás.

Já quem vive no interior do Paraná realmente acredita que eles representam uma versão da Europa em seus “bons tempos”. De uma época sem imigrantes muçulmanos, sem influência do marxismo e de quando o povo tinha valores profundamente cristãos.

Por isso o PT sempre teve dificuldades em ter prefeitos no estado. Os demais partidos de esquerda possuem uma presença quase que marginal. Acredito que o Érico Caldeira tenha mais a contribuir do que eu mesmo, pois ele conhece melhor o interior do Paraná e a história dessa população, inclusive academicamente.

Dalton Moro e Odete Starke

Então quando os pais de Moro se mudam de Ponta Grossa para Maringá nos anos 70, Moro cresce em uma sociedade demasiadamente vinculada aos valores cristãos e patriarcais. Sua mãe, Odete Starke, é uma pessoa bem educada, e passa a lecionar no Instituto Estadual de Educação. Mas fica sufocada em uma sociedade profundamente machista e que acha que a mulher não serve para muito, além de cuidar da casa e satisfazer as necessidades do marido. O consolo de Odete foi se afundar nas obras de Clarice Lispector, e ela acaba escrevendo uma tese para a sua especialização chamada “Clarice Lispector: As personagens femininas de Laços de Família”. E esse é seu último suspiro feminista.

Dalton Moro se tornou professor de Geografia na Universidade Estadual de Maringá. Sérgio cresce admirando seu pai, e pretende ele mesmo se tornar um “Doutor em Direito”. Ele passa a estudar com afinco para subir na carreira pública, assim como fez seu pai.

Mas 1980 foi um ano agitado na história do Brasil. O regime militar vem perdendo o fôlego. O Partido dos Trabalhadores é fundado. O movimento pela anistia e pela volta dos exilados políticos toma força. Os governadores na época da ditadura eram “Cargos Biônicos”. Ou seja, escolhidos diretamente por Brasília. E os reitores das universidades estaduais eram escolhidos por esses governadores. Ou seja, eram reitores “linha dura” que trabalhavam em harmonia com o regime militar.

E quando os alunos e professores da UEM resolvem entrar em greve, Dalton Moro e a esposa do reitor resolvem lecionar mesmo assim, sem se importar com o resultado da Assembléia Geral. Mas os alunos não comparecem às aulas dos dois fura-greve. Os demais professores então os convencem a abandonar a sala de aula. As salas são trancadas. A entrada do bloco é trancada. E Dalton Moro está muitíssimo irritado com essa situação. E Sérgio Moro, ainda criança, observa de coração apertado a frustração de seu pai.

Dalton Moro.

Terminada a greve, Dalton logo move um inquérito para punir os dois professores que o fizeram parar de ministrar as aulas durante a greve, e consegue a punição para eles após dois anos. Ao contrário do que dizem, Dalton nunca fez parte do PSDB. Mas ele era profundamente conservador, e apoiou com vigor o seu colega Basílio Bacarin do PSDB quando esse se candidatou a deputado.

Nessa mesma época, em 1990, Sérgio passa no vestibular da UEM no curso de Direito. Após passar a adolescência nos anos 80 ouvindo como o Brasil estava piorando com a abertura política, em uma sociedade profundamente machista e racista, onde seus habitantes se acham racialmente, intelectualmente e moralmente superiores aos demais brasileiros (pois era assim que os habitantes de Maringá pensavam, e provavelmente ainda pensam) Sérgio Moro se torna calouro em Direito.

Sérgio Moro em sua trajetória como “Paladino da Justiça”

Após se formar, Sérgio Moro trabalhou entre 1995 e 2000 para o advogado Irivaldo Joaquim de Souza, que sabia muito sobre direito tributário. Irivaldo ajudou o prefeito de Maringá na época, Jairo Gianoto, a embolsar alguns milhões de reais da prefeitura ao desviar os pagamentos realizados. Os desvios ocorreram em 1997 e 2000.

Irivaldo Joaquim de Souza sendo homenageado pela OAB Maringá em 2012.

O Tribunal de Justiça do Paraná condenou Jairo Gianoto em 2010. Irivaldo conseguiu um habeas corpus para soltar o prefeito ladrão. O testemunho de Sérgio Moro foi fundamental para que Jairo não ficasse preso atrás das grades. Irivaldo passou então a trabalhar para o clã Barros (lembre-se de que esses clãs são quem mandam de fato no Paraná. Eu já citei o clã Ribas Carli aqui).

Após os desvios, a população de Maringá ficou enfurecida, e elegeu o prefeito petista José Claudio Pereira Neto em 2000 em retaliação. Para expor publicamente a vergonha do ex-prefeito meliante do PSDB, José Claudio deixa em praça pública as mega-colheitadeiras compradas com o desvio de dinheiro público. Em seguida, Lula é eleito presidente do Brasil em 2002. E nos anos seguintes, a popularidade do PT só iria aumentar.

Dalton Moro assistiu a tudo isso horrorizado. Reza a lenda que, enquanto ele morria agonizando devido ao câncer em 2005, seu filho Sérgio segurou na sua mão e lhe prometeu que erradicaria a esquerda do Brasil. Isso é muito provavelmente historinha, mas não distorceria muito da realidade.

Entre 2001 e 2002, Sérgio Moro fez um mestrado / doutorado simultâneo muitíssimo suspeito. Eu não entendo muito de assuntos acadêmicos, mas até onde eu saiba, levam pelo menos 2 anos para concluir um mestrado, e mais 4 anos para terminar o doutorado.

É importante frisar, que a orientação de seu Doutorado foi realizada sob o comando do Prof. Dr. Marçal Justen Filho, da UFPR. Um ultraconservador, colaborador assíduo do jornal A GAZETA DO POVO. O mesmo jornal que tem no momento Rodrigo Constantino como a sua maior estrelinha e publica esse tipo de matéria:

O Brasil não está preparado para o governo liberal de Bolsonaro, eis o nosso problema.

Caso Banestado, Lava Jato e governo Bolsonaro

O escândalo do Banestado, estranhamente, não atraiu 1% de toda a atenção midiática que a Lava Jato recebeu. Durante as investigacões, apurou-se que 124 bilhões de dólares tenham deixado o Brasil para serem lavados no exterior. Teve uma CPI para apurar o caso, mas que terminou “em pizza”.

O procurador Celso Três e o delegado José Castilho não possuem o mesmo vínculo emocional que Sérgio Moro construiu com o PSDB e o conservadorismo. Eles estavam afim de pegar a turma por trás desse mega desvio, independente de quem fossem.

Castilho foi informado em Nova Iorque, enquanto conduzia as investigacões, de que fora afastado do caso. Ele quis ir à grande mídia denunciar o que estava acontecendo. Mas a Rede Globo, a Editora Abril, RBS e Correio Brasiliense estavam se beneficiando do esquema. Ele chegou a fazer a denúncia na Record, mas foi prontamente ignorado.

E aí entra Moro na história. Ele chegou a condenar alguns laranjas, o pessoal intermediário. Mas todos os políticos foram salvos. Ou seja, quem idealizou e mais se beneficiou do esquema, saiu ileso.

E por fim, a Lava Jato. Que como todos sabem, culmina com a condenação e prisão de Lula “sem provas cabais, mas com convicção”.

Em seguida, Moro aceita o convite para integrar o governo Bolsonaro, um governo de extrema-direita que também é constituído por Damares Alves (que acha que os holandeses masturbam seus bebês quando estão com 7 meses de idade) e Ernesto Araújo (um fã de carteirinha de Olavo de Carvalho que mal sabe falar inglês), e outros colegas pouco convencionais.

Então, finalmente, a resposta para Qual é a sua opinião sobre o ex-juiz Sérgio Moro? é que ele foi um filho que trouxe consigo as aversões e as esperanças de seu pai. Sérgio Moro é a versão superstar de Dalton Moro. E Dalton Moro personifica todos os medos e os anseios de um povo que, ao mesmo tempo, acredita ser a reserva moral mundial e dono de todas as verdades, mas que teme os avanços e as mudanças de um mundo cada vez mais dinâmico.

Moro é uma farsa enquanto doutor, e uma farsa enquanto juiz, apesar de ser alguém inteligente e estudioso. Ele poderia usar suas qualidades e sua posição privilegiada para fazer do Brasil um país mais justo e igual, mas preferiu fazer justamente o oposto. Em nome da velha moral e dos “bons costumes”.

sergio moro

Publicado originalmente aqui.

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