Por que as pessoas se viciam em remédios?

Tudo começa com uma prescrição médica. Pode ser uma prescrição bem indicada ou mal indicada. A prescrição mal indicada pode ser por imperícia (o médico indicou errado achando que estava certo) ou por dolo mesmo (você pagou por uma receita ou pediu para um amigo fazer para você).

Às vezes, nem precisa da receita. Você consegue o remédio com traficantes, com algum contrabandista do Paraguai (que a rigor também é um traficante) ou mesmo com o balconista da farmácia.

Você toma o medicamento. Pode ser um benzodiazepínico para relaxar depois de um dia conturbado e finalmente dormir, ou um tônico mental para passar o dia com mais disposição. 

Deu certo. Ainda bem.

No outro dia, você está igualmente estressado ou igualmente desanimado. Afinal, essas coisas não mudam. Você tem o mesmo chefe pé no saco, a mesma ex-namorada sem noção, a mesma colega de faculdade mentalmente incompetente, o mesmo sol na sua cara às sete da manhã e os 40 graus de uma cidade de médio porte no interior do Brasil que faz seus suvacos suarem como se você fosse um porco antes mesmo de deixar os filhos na escola.

Você merece uma dose. Senão você não vai dormir. E amanhã é dia de preto. Tá chegando, tá pertinho.

Você toma a dose e dorme. Ou você acorda e toma a dose. E funciona.

No terceiro dia, você repete. E você vê que aquilo é bom.

Deus seja louvado.

No quarto dia, você não toma. Afinal, remédio não é bala. Você não pode usar todo dia, ou vai se viciar. E você não sabe quando vai conseguir outra receita. Você só tem mais 27.

Você fica alguns dias sem tomar. Uma noite bem ou mal dormida, um dia bem ou mal trabalhado… Você já estava acostumado com isso mesmo.

Hoje é sexta e a galera vai fazer um bem bolado. Dizem que benzos vão bem com gim-tônicas. E ritalina é mais barato que MD. Quem sabe? Há alguns comprimidos sobrando.

Pensando bem, seria uma boa conseguir mais algumas receitas. Como chama aquele amigo seu que é médico? Ele curtiu uma foto sua antiga esses dias. Troca uma ideia com ele.

Não é tão difícil conseguir receitas. Talvez não seja tão fácil como comprar um cigarro ou um marroquino, mas não é difícil.  Existem várias indicações. É uma das classes de medicamentos mais receitadas no mundo.

E uma noite bem dormida não tem preço, né?

O seu médico receita sempre que você pede. É só renovar a receita. Ele nem pergunta nada. Ele sabe que você não dorme sem cinco gotinhas de clonazepam.

Cinco gotinhas. O que isso poderia fazer?

Seus receptores GABA se preenchem de Rivotril. Seus recaptadores de dopamina se enchem de metilfenidato.

Sabe o que acontece quando você entope seu cérebro de drogas? Ele se adapta. Isso chama homeostase. É o que acontece quando você bebe muita água e precisa ir ao banheiro muitas vezes, com a urina clarinha. Homeostase. Nosso organismo é especializado nisso.

Quando você toma clonazepam todos os dias antes de dormir ou metilfenidato todos os dias antes de trabalhar, seu corpo se adapta. Porque, diga o que quiser, drogas não são coisas “normais”. Drogas alteram profundamente o funcionamento do seu corpo. E ele luta contra isso. Mesmo quando você acha que elas fazem bem a você.

Com o downregulation dos receptores GABA e dos recaptadores de dopamina, a mesma dose de clonazepam ou metilfenidato não faz mais o mesmo efeito.

Você precisa de mais gotas. Você precisa de mais pílulas.

Um amigo disse que se botar embaixo da língua funciona melhor. Ou se cheirar.

Acho melhor você mandar mensagem para aquele amigo médico. O que curtiu sua foto.

Sabe outra coisa interessante que os benzos fazem? Eles liberam dopamina na via mesolímbica. A via mesolímbica é uma porção de neurônios que ficam lá no mesencéfalo. 

O mesencéfalo é uma parte bem velha do seu cérebro. Ele não sabe o que é um viés cognitivo. Ele não sabe falar italiano. O seu mesencéfalo não sabe nem andar em linha reta. Dependesse dele, a única coisa que você poderia fazer é se rastejar.

Porque o impulso de rastejar ainda existe no nosso cérebro, mesmo que não usemos. Somos seres rastejantes, só que com pernas para andar. Mas ainda sabemos rastejar. Fazer aquele movimento para um lado e para o outro, ou para cima e para baixo. Movimentos ondulatórios, sabe? Igual as minhocas.

Isso quer dizer que seu mesencéfalo é bem… como eu posso dizer isso de uma forma não-agressiva? Ele é bem reptiliano. Ele é meio sem-noção. Ele é meio animal.

E quando você joga dopamina nessa via mesolímbica, esse animal fica contente. E ele sempre quer mais. Sempre quer mais. Sempre.

E, vamos falar a verdade, você também gosta. Seu clonazepam não é só para dormir. Não me enrola. Você toma clonazepam porque é gostoso. Porque dá onda.

Porque aquele influxo dopaminérgico na via mesolímbica é bom pra caralho.

E é fácil de conseguir. E é legal. E todas as suas amigas tomam. E, claro, uma noite bem dormida não tem preço.

Que mal isso pode fazer?

Não sei se eu falei para você sobre homeostase. É que nosso organismo está sempre tentando se manter em equilíbrio. É uma adaptação ao ambiente. É igual a sola do seu pé ficando grossa de tanto andar descalça de pijama no home office.

E essa quantidade absurda de dopamina chegando no núcleo accumbens (da via mesolímbica) não é normal. E seu corpo sabe disso. E ele resolve segurar a onda diminuindo a densidade de receptores D2 naqueles neurônios.

Aí você precisa de mais clonazepam para ter aquela ondinha. Precisa de um pouquinho mais de metilfenidato para conseguir concentrar bem mesmo.

Mais uma dose, Cazuza?

O superávit crônico de dopamina na via mesolímbica provoca algumas mudanças no seu cérebro. Os efeitos dos neurotransmissores não duram apenas poucas horas. Quando você ativa uma via repetidamente, ela começa a se modificar de forma mais fundamental. Os receptores D2 superativados na via mesolímbica ativam e desativam fatores de transcrição, que ativam e desativam certos genes, que ativam e desativam certas vias metabólicas.

Seu cérebro está mudando. Anatomicamente e fisiologicamente. E essas construções estão sendo moldadas pelo seu remédio preferido.

Você entende? A dependência química não é um interruptor, não é uma lâmpada que você acende e apaga quando quiser. A dependência química é uma parede, uma casa, uma cidade. É concreto. É uma mudança anatômica no seu cérebro.

É algo que tende à permanência. E é difícil de mudar, porque as fundações são sólidas: dias e semanas e meses e anos de abuso.

Você não se torna dependente do dia para a noite. Aquela ondinha gostosa e aquela vontade de tomar o remédio de novo não é dependência. É normal você querer repetir uma dose de algo que lhe faz bem.

Afinal, uma noite bem dormida não tem preço.

A dependência vem bem depois. Ela vem depois da tolerância — lembra da downregulation dos receptores? Ela vem depois do aumento da dose. Vem depois daquele dia que você errou a mão e ficou se sentindo mal, mas no dia seguinte tomou de novo do mesmo jeito.

Nessa hora, você já perdeu a batalha. Não a guerra, mas a batalha. Você já não tem domínio total sobre o medicamento. Você não pode simplesmente parar de tomá-lo.

Sério, alguém viciado em benzos que simplesmente para de tomá-los pode morrer numa crise de abstinência. Lembre-se que você tem poucos receptores GABA agora para fazer seu cérebro desacelerar “naturalmente”. Sem o freio GABAérgico, o que lhe espera são alucinações, agitação e convulsões.

Você não pode mais lutar só. Mas pode procurar ajuda. Porque tudo começa simples, mas fica muito complicado no final.

E é mais ou menos assim que as pessoas se tornam viciadas em medicamentos.

medicamentos

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