O criativo desamor

Eu e o Nicolau estávamos falando sobre a disputa Lobão x Frejat e a conversa ficou longa, passando por várias outras polêmicas vazias um-contra-um. Sou um apaixonado por música, aquele cara chato que fica mandando músicas e CDs para os amigos escutarem. Nicolau me deu então a ideia de escrever sobre algum CD que goste e que tivesse alguma história por trás. Não tive dúvida, Rumors.

Álbum: Rumors 

Ano: 1977

Banda: Fleetwood Mac 

I’m just second hand news, I’m just second hand neeeeeews! Ótima forma de começar. A música tem o espírito do CD. Os vocalistas mostram de cara como trabalham bem em conjunto. A guitarra assume a forma de base, solo e ritmo. A bateria, sem fazer solo ou nenhuma parafernalha, envolve. Sem exageros, mas com contratempos distintos, envolve. O baixo acompanha suas batidas, com muito bom gosto. Essa é a combinação capaz de fazer de Rumors um dos maiores trabalhos do rock.

Na letra a música já sinaliza o que vem pela frente: desilusões e diferenças amorosas. Essa é a “história por trás”. Assim estavam os compositores do Fleetwood Mac: havia um bocado de amor mal resolvido entre os membros da banda. Acredito que ao invés de bloquear, isso estimulou a criação da obra prima. 

Corroborando a minha crença, invoco o hit Don’t stop, afinal o ontem já foi. Descreveria as qualidades da música como descrevi as de Second Hand News. Que jogo de vozes!

É um daqueles CDs para escutar em qualquer situação. Se ouvir sozinho vai ficar pensando “como não ouvi isso antes?”. Se colocar para tocar com os amigos em casa, eles vão curtir. Para viajar, você viaja na viagem. Para fazer esporte também recomendo muito, escuto ele direto para pedalar. 

Stevie Nicks. Uma bruxa, uma deusa? Eu amo essa mulher. A segunda música do CD, sua composição e hit Dreams, é GENIAL. Talvez a minha favorita do álbum? A música é demais. Fala sobre um término de relacionamento, ela nunca faria essa música para mim. A composição tem um vocal muito original, é de arrepiar. Stevie tem muita potência vocal e utiliza uma técnica que alterna essa potência com a ausência dela. Não me canso de ouvir.

Em 1974, quando se juntaram ao Fleetwood Mac, Stevie era casada com outro gênio, o guitarrista, cantor e compositor Lindsey Buckingham. Três anos depois, quando lançaram Rumors, o casal estava separado. O término foi conturbado, e permeou as gravações e composições de ambos em todo o CD. 

Lindsey compôs a direta e animada Go your own way. Assim como todas ou quase todas as suas outras composições para esse CD, foi feita para Stevie. A música tem uma letra cortante, uma guitarra agressiva, principalmente o solo no final. As vozes de Lindsey e Stevie como é comum no CD fazem um dueto espetacular.

Neste vídeo de Go your own way, observe Stevie e Lindsey cantando lado a lado, reparem o clima. Quando Stevie pega o instrumento de percussão e olha para ele, parece que está batendo palma. Que guitarra, Lindsey. Vocal bacana também. Gosto muito da bateria dessa música.

A resposta veio com Dreams. Dizem que depois de ouvir a canção de Lindsey, Stevie se sentou com um piano e em dez minutos a música estava pronta… Entregou o cassete para alguém e foi para casa. Ela canta praticamente sozinha. 

Entre os outro integrantes da banda estava o ex-casal Christine McVie, cantora, tecladista e compositora, e John McVie, baixista. Também haviam posto fim ao seu relacionamento antes das gravações. Somente o baterista Mick Fleetwood não estava na treta. 

You make loving fun aparentemente é para algum affair de Christine. A música é muito boa, me dá vontade de dançar. Christine, assim como Stevie, tem um timbre de voz característico, e a música escancara sua criatividade como tecladista. O CD possui vários momentos onde isso é notável, mas para mim o auge é nessa música.

Os três compositores do Fleetwood Mac, Stevie, Christine e Lindsey poderiam ter cada um sua própria banda, e isso fica claro em Rumors. Stevie tinha uma canção chamada Silver Springs, que foi recusada pelo resto da banda por “falta de espaço” e por ser lenta demais, mas foi lançada posteriormente na edição deluxe. É uma música delicada, bem bonita.

Outro hit do CD, The Chain, é a única canção feita em conjunto por todos integrantes da banda, e ostenta o potencial de cada um deles. Aaaaah, Lindsey e Stevie se olhando neste vídeo também é muito divertido. O caboclo estava inspirado, ele fazendo o solo é muito da hora. Os vocais de Christine, Stevie e Lindsey se entrelaçam, é o auge da harmonia entre as três vozes. A bateria é um tesão, o baixo acompanha com maestria, e o solo de guitarra no final dá vontade de sair pulando, correndo, sei lá. Lindsey na guitarra, como sempre, faz tudo: base, ritmo e solo.

A guitarra. As guitarras. Feroz e melódico. Acho que Lindsey merece uma menção honrosa entre os grandes guitarrista que conheço. Sua guitarra chama atenção em quase todas as faixas. Seu vocal também é distinto. Com o auxílio das back vocals fica nota 1000. Não conheço nenhum primeira voz que contou com apoios tão bons quanto Stevie e Christine.  Ele é quem mais canta como primeira durante o CD, talvez seja também sua maior força criativa, quem mais compôs.

Rumors está em praticamente todas aquelas listas dos melhores álbuns da história do rock, é um clássico aclamado pela crítica. Fleetwood Mac é uma excelente banda, que entrega no CD o seu maior legado.

Graças aos deuses do rock, o fim dos relacionamentos entre os integrantes não pôs fim à banda, tem muita coisa boa antes e depois. Caso você goste de Rumors, vale escutar mais Fleetwood Mac. Não sei porque a banda normalmente não está nas listas das que devem ser escutadas por quem curte rock no Brasil. Eles são sucesso de venda, têm qualidade, fizeram história.

Stevie também tem uma carreira solo excelente. Foi a única mulher a ser colocada no Rock and Roll Hall of Fame duas vezes, solo e com a banda. Vendeu 140 milhões de discos.

EXTRAS

Rhiannon. É tudo perfeito. Não é do CD, mas é minha música favorita da banda. Stevie Nicks… eu já disse que sou apaixonado por ela? Por que tanto? Reparem a partir do minuto 5:00, quando ela começa a enlouquecer e manda a banda acelerar. Olha pro batera, depois sinal com a mão, olha de novo: “acelera, porra”. Quando a guitarra come é um exorcismo em palco. Difícil lembrar alguma apresentação ao vivo em que a voz supere tanto a do estúdio.

E esta é da carreira solo da Stevie Nicks. Sonzeira.

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