Eu, o sem-deus!

Uberlândia, 24 de dezembro de 2020.

11:32. Véspera de Natal.

Um dos meus poemas preferidos de Vinicius de Moraes é Pátria Minha, localizado na página 255 de sua Antologia Poética. Eu adoro como o Poetinha diz que nossa pátria é “fonte de mel, bicho triste, pátria minha, amada, idolatrada, salve, salve” e uma de minhas metáforas preferidas é “o grande rio secular que bebe nuvem, come terra e urina mar”. Eu acho linda a vontade tão intensa de Vinicius, exilado, de rever sua pátria, a ponto de dizer que “para rever-te me esqueci de tudo, fui cego, estropiado, surdo, mudo, vi minha humilde morte cara a cara”.

Em um trecho desse poema, o Poetinha escreve:

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

***

Há uns dias, eu estava indo para meu primeiro plantão médico de porta (seis horas depois de terminar meu primeiro plantão médico de enfermaria). Coloquei para ouvir no caminho: My Sweet Lord (George Harrison), Um Certo Galileu (Padre Zezinho) e Happy Xmas (John Lennon).

Tudo que eu queria naquele momento, alguns minutos antes de começar o primeiro plantão, era ter um deus a quem pudesse pedir proteção e ouvir de volta: “tudo vai dar certo!”.

Mas eu, assim como Vinicius, não tenho deus. Eu sou o sem-deus!

E, portanto, a verdade é que eu não sei se tudo vai dar certo. A verdade é que há pessoas lá fora que esperam que eu faça as coisas darem certo. 

Elas contam comigo.

***

Se não tenho deus, no sentido clássico, tenho ídolos, ou pelo menos crenças fortes que pautam a forma como encaro o mundo.

Tenho fé no amor inabalável dos meus pais.

Tenho fé na ajuda dos meus colegas médicos mais experientes.

Tenho fé na competência que construí nos últimos seis anos, apesar de tudo.

Sobretudo, tenho fé na minha boa intenção e na minha disposição em ajudar os que precisam de mim.

E agora, prestes a trabalhar por vinte quatro horas seguidas na noite mais importante do mundo cristão, eu espero que tudo isso esteja comigo de novo.

Que deus me ajude.

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