Meu diário de médico #5

Textos anteriores: Meu diário de médico #1, #2, #3, #4.

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***

Uberlândia, 20 de dezembro de 2020.

Eu estava de plantão no único pronto-socorro de uma cidade bem pequena. Naquele momento, no início da noite, não tinha nenhum movimento, então havia me recolhido ao descanso médico. De lá, ouvi alguma movimentação do lado de fora e o barulho de ambulâncias, aparentemente saindo do hospital. Dali a pouco, mais sons estranhos vindos da rua: gritos, choros, passos. Uma ficha foi aberta.

Era uma mulher com uma criança no colo e outra na barriga. Ela chorava, desesperada, mas a criança no colo permanecia calma. Chamei a mulher.

No consultório, agitada, ela disse que alguém a havia atacado com um facão e lhe dado um chute na barriga. Por sorte, se é que caberia dizer isso naquele contexto, ela não tinha nenhum corte profundo, apenas alguns poucos arranhões nos braços. Estranho. Talvez o agressor tenha apenas batido nela com a lateral do facão? Dificilmente um ataque de facão bem sucedido resultaria apenas em alguns arranhões. E eu esperava algo mais significativo de todas aquelas sirenes e gritos.

Cheiro de que algo errado não está certo. Ma va bene così. A paciente estava bem, e isso é o que importa.

Saí do consultório para pegar um sonar para auscultar os batimentos fetais e ouvi um burburinho vindo da parte de trás do hospital. Abri a porta que dava para a sala de emergência e vi.

Isso, sim, é um ataque de facão.

***

Havia dois internos no primeiro leito, ao redor de um rapaz com a mão enfaixada. 

Rapaz é modo de dizer, porque era um homem de uns 50 e poucos anos. Talvez fosse um homem de uns 40 e poucos anos, mas abatido pela vida dura. Eu aposto mais na última possibilidade.

Enfaixada também é modo de dizer, porque sua mão estava envolta em uma camisa, sobre uma cuba.

No leito ao lado, um rapaz desacordado, mas ainda reativo, e o médico com o tubo na mão.

Em um leito atravessado, improvisado, na apertada sala de emergências, um homem mais velho com algumas escoriações. Não era facão, era um pequeno acidente motociclístico. Não sei se ficava feliz de ser uma facãozada a menos ou se ficava triste de ser um paciente a mais naquela hora crítica.

As imagens deste caso são fortes.

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