Dos nós que cultivamos na garganta

Em um texto anterior, eu escrevi das coisas que são mais fáceis na teoria do que na prática. Isso anda se repetindo muito na minha vida.

Na minha penúltima aula do semestre, tivemos uma roda de conversa muito deliciosa sobre as vivências universitárias e concluímos, narcísica e egoicamente, que os estudantes de psicologia têm algumas peculiaridades por se dedicarem tão fielmente a essa ciência tão deliciosa.

Uma curiosidade sobre mim, que pouca gente sabe, é que passei raspando nas artes plásticas. Sou extremamente apaixonada por história da arte e sei muito sobre isso. Assim como sei muito sobre psicologia.

Eu lembro que, durante o ensino médio, eu fechava o caderno e escutava os melhores 100 minutos semanais de aula dadas por um professor que manjava muito de história da arte. E ele não brincava, não: tinha uma das provas mais difíceis de serem feitas. E eu, que ironicamente uso anotação escrita pra tudo que faço na vida, porque acredito veementemente que esse é o único jeito de que consigo aprender, produzir e memorizar algo, fechava o caderno em todas as aulas. No fim, sempre recebia um 12 com vários corações falando “parabéns lindaaaaaaa” ou “parabéns fofaaaaaa” (com muitos As, desse jeito).

No fim do terceiro ano, esse mesmo professor, sabendo que eu não só era fissurada em história da arte, mas também tinha um dom nato para pintura e desenho, me perguntou qual faculdade eu tinha escolhido para fazer o curso de artes. Eu ri e falei que não ia fazer artes. Ele, bem assustado, me perguntou por que, e intuitivamente eu respondi que os artistas se entregavam muito às suas obras e que eu não estava disposta a ser mais uma doidinha do mundo dos artistas plásticos.

E daí escolhi fazer psicologia. Enfim, a contradição.

Escolhi fazer psicologia sem nem saber o que era psicologia, sem nunca ter lido nada sobre, nem nada que passasse perto disso. Nem mesmo um livrinho de auto-ajuda. Eu só fui. A desculpa que eu usei para justificar uma escolha pouco pensada era sobre gostar muito de ler, ser ruim de matemática e boa com pessoas. No fim, deu mais do que certo.

Mas contei toda essa história para chegar em um grande insight que tive tempos atrás conversando com um cara que eu ficava — e que é artista plástico: acho que o grande problema da psicologia, assim como das artes, é que a gente deixa vários pedacinhos da gente quando mergulha e vai de cara nessa coisa louca chamada homem — e, portanto, em nós mesmos.

Não falo de cansaço, de dificuldade, de desgaste, de incertezas. Isso todo curso, à sua maneira, tem.

A psicologia leva muito de nós e, como eu sempre digo, pagamos um preço muito alto por escolher a psicologia.

Frequentemente, por saber demais, me encontro em uma corda-bamba. Eu sei o que está acontecendo, eu consigo explicar com detalhes e citações teóricas todo o processo. Eu sei o que eu deveria fazer. Mas não consigo. Isso tem sido recorrente.

Penso que talvez o processo fosse mais fácil se eu não soubesse.

Nas últimas semanas, o que tem me deixado atordoada são as coisas que deixamos ou não conseguimos ou temos muito medo de dizer.

O texto de hoje é: dos nós que cultivamos na garganta.

Tantas vezes uma sensação estranha me toma, uma coisa que surge de repente, que faz com que meu coração acelere, meu peito comece a doer e meu estômago dê uma revirada. Minha cabeça me fala “não acredito que isso tá acontecendo”. E é pior que isso, porque já aconteceu.

Quando isso rola, geralmente eu começo a rir ou a sorrir. Dependendo da quantidade de álcool consumida na noite, eu começo a gargalhar compulsivamente.

Sei que o que eu descrevi anteriormente, na grande maioria das vezes, indica uma catástrofe ansiogênica. Mas não é disso que eu estou falando. Eu estou falando de uma sensação muito gostosa. Mas também muito pavorosa. Daí, eu me perco: não sei se minha risada é de alegria ou de medo. De novo, a famosa corda-bamba.

Essa sensação de corpo que eu sinto, sempre precede a existência delas: das coisas que insistem em sair de mim, mas que acabam ficando presas em mim.

O calafrio que eu sinto, sempre que as palavras vêm mas não saem, é bem divertido, mas indicam um desafio: será que dessa vez eu consigo segurar vocês aqui dentro de mim, palavrinhas?

É aí que entra o saber — e também o não querer saber ou fingir que não sabe. É pura ilusão achar que os não-ditos não virão para me assombrar num futuro próximo.

Ultimamente, eles têm se fantasiado de insegurança, paranoias e loucuras, que são curados com muito princípio de realidade e lágrimas.

Eu sei que deveríamos nomear tudo que sentimos. Eu sei que a melhor opção é buscar sentido e confiança no mundo externo. Eu sei que o desamparo é natural e que devemos encontrar vias de satisfação parciais. Eu sei que a repetição é inevitável e que escapar dela é impossível. Eu sei que a incompletude é natural. Eu sei, eu sei, eu sei, Freud!

Mas essa parte não me interessa.

Me interessa a parte do que sempre escapa. Porque você, Freud, também disse que algo sempre nos escapa. E eu sei disso também.

Dizem as pessoas que quando conseguimos ficar em silêncio ao lado de alguém, significa que encontramos um ponto raro e profundo de intimidade. Eu entendo o sentido disso, mas faço uma ressalva. Essa frase faz referência — e por que não — à suplência à falação desnecessária de quando ainda não estamos à vontade com um outro. Mas ela não pode ser encarada como uma verdade para todos os momentos.

Acho que muitas vezes tentamos usar o silêncio para evitar essa coisinha que sempre escapa nas entrelinhas. Afinal, temos medo desse escape. O silêncio pode ser só uma posição extremamente confortável.

Mas, se você olhar bem de pertinho, tudo fala. Aos pouquinhos.

Tem sussurros no modo como te olho. Tem som na forma como te toco. Tem gritos no jeito como sorrio com você.

Apesar disso, sei que as entrelinhas escapam porque os nós que ando cultivando na garganta estão grandes demais. E a cada dia que passa eles vêm crescendo… e mais coisas vêm escapando.

Maldito seja o superego e os mecanismos de defesa.

E o que resta pra mim?

Lidar com a angústia. Disso eu também já sabia, Freud. Mas queria não saber.

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