As lembranças

As lembranças mais velhas que eu guardo são de quando eu tinha três ou quatro anos de idade. Digo lembranças, no plural, porque eu realmente não sei qual é a lembrança mais velha. E conhecendo como eu conheço a falibilidade de nossos neurotransmissores e sinapses, e sabendo dos inúmeros vieses cognitivos que estão em ação sempre que qualquer ser humano age em qualquer contexto, eu desconfio de qualquer um que diga com certeza que sabe qual é a lembrança mais antiga de sua vida.

Você não sabe. Você apenas acha que sabe. E como você é o rei da racionalização dentro da sua mente (apesar de não ser o rei da mente em si), não há ninguém para dizer que você está errado. Só eu.

A verdade é que eu não tenho realmente certeza se eu estava no banco traseiro daquele Corsa (ou Logus?), atrás do motorista, com minha irmã do lado e minha mãe no banco do passageiro, vendo meu pai encostar o carro e descer correndo para entrar na padaria e comprar pão de queijo, observando umas bandeirinhas de plástico do Brasil expostas na calçada do comércio. Meu pai comprou duas dessas bandeiras, uma para mim e uma para minha irmã. Não obstante a baixíssima qualidade do produto, eu ainda vi uma dessas tais bandeiras aqui em casa na última Copa do Mundo.

Eu juraria que essa cena aconteceu em 2002, na Copa do Japão e da Coreia, quando eu tinha sete anos, estava na primeira série do ensino fundamental, no Colégio São Paschoall, poucos antes de sofrer meu primeiro grande acidente. Faz sentido. Eu já era grandinho e eu me lembro bem dessa Copa: do jogo contra a Inglaterra de madrugada (2 a 1), da Turquia na semifinal, da passeata após os dois gols do Ronaldo no Oliver… 

Acontece que existe aqui em casa uma foto guardada com um Nícolas bem mais novo, empunhando essa mesma bandeira, lá no condomínio onde eu morei entre 1995 e 2000, antes do ensino fundamental no São Paschoall, antes da Copa de 2002, antes da casa nova, antes mesmo da minha primeira lembrança.

E por isso eu simplesmente não sei se:

  • essa lembrança no carro vendo a bandeira na verdade é de 1998;
  • a bandeira da foto é outra, diferente da bandeira que eu lembro que meu pai comprou na padaria em 2002;
  • essa lembrança é totalmente falsa, e nunca houve bandeira nem padaria, nem Copa, nem pai.

E eu tendo a me convencer, racionalmente, com base nas fotos de minha mãe e na recordação de minha mente e na linha temporal dos acontecimentos, que provavelmente essa lembrança nebulosa e amorfa é um engasgo de memória de quando eu tinha três anos, uma sinapse Highlander que sobreviveu contra todas as estatísticas a anos de agressões físicas e químicas contra meu cérebro, lutando bravamente para manter essa cena, ali na Avenida Engenheiro Azeli, na padaria do Elias, viva.

Mas eu não sei realmente. Talvez seja uma lembrança completamente falsa. Talvez tenha sido um sonho. Talvez seja um recorte de diversos momentos, que eu juntei (sem perceber) em um filme único que explica a bandeira da minha foto de anos atrás e a bandeira do meu armário na última Copa — mesmo que “na realidade” sejam dois objetos distintos.

***

Eu vi uma tirinha muito legal hoje mais cedo.

Era uma tartaruga e um peixinho. A tartaruga perguntou “faz muito tempo que você é um peixe?”, e o peixe respondeu “na verdade, não”, e a tartaruga continuou “nem eu”.

E isso me lembrou uma cena da minha memória muito nítida: eu sozinho, depois de subir com dificuldade as escadas do condomínio onde eu morava (de 1995 a 2000), e pensando, olhando para minha mão: “eu tenho quatro anos… um, dois, três, quatro… não é muito… na verdade é bem pouco”.

Eu nunca questionei a veracidade dessa memória. Ela está comigo desde sempre. Essa memória, minha autoconsciência do quão jovem eu era aos quatro anos, faz parte de quem eu sou. Eu não escreveria este texto se não tivesse essa memória. Porque essa lembrança é bobinha para quem lê, mas significa muito para mim: me mostra como aos quatro anos eu já me preocupava com meu lugar no mundo e já tinha medo de ser pequeno demais. Talvez, não fosse a memória, eu não teria este blog, não moraria em Uberlândia, não teria estudado medicina, não seria amigo do Kelmer nem estaria planejando meu novo podcast com o Biloca.

E, contudo, talvez ela nunca tenha “realmente” acontecido.

Eu poderia dar dezenas de exemplos como esses, de lembranças que eu tenho e que fazem parte de quem eu sou, mas que podem ser simplesmente falsas. Certamente você também as tem. Todos as temos. A falibilidade de nossa memória é universal

Isso é facilmente notado quando presenciamos duas pessoas discutindo ferozmente sobre a cronologia exata de algum acontecimento que ambas presenciaram. As duas pessoas têm certeza absoluta de que estão certas, mesmo que isso seja impossível — provavelmente, as duas estarão erradas em algum ponto.

Não é porque estão mentindo. É porque seu cérebro está mentindo. Elas acreditam piamente na veracidade (e na infalibilidade) de receptores e sinapses que são inexoravelmente falhos.

O problema disso é: se você não sabe se aquele dia no clube você realmente comprou sorvete de menta e deixou cair um pingo na cerveja do seu pai, que achou que era cocô de pombo e jogou a cerveja fora, como você pode saber se realmente você era tão boa nos jogos de adedonha com seus colegas de turma (talento que você carrega com orgulho, e que ajudou a escolher o curso de Letras e se tornar professora de italiano, apesar de todas as dificuldades e da vontade de fazer engenharia)?

Se suas memórias são falsas, quem é você?

lembrancas

2 comentários em “As lembranças

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