Do suor do teu rosto comerás

Tenho assistido uma série de palestras do Jordan Peterson sobre a Bíblia e está sendo fascinante. Ele apresenta um ensaio psicológico sobre a narrativa mitológica do maior best seller da humanidade, o livro que moldou a moral ocidental, partindo da análise mais racional que teria conseguido, segundo o que ele mesmo alega. Uma parcela da preleção que me impactou mais particularmente é sobre a história de Adão e Eva. O mito do Jardim do Éden narraria não só a origem material da criação, mas também de um aspecto que considero como, talvez, o mais intrigante da humanidade: o surgimento da consciência.

A consciência é algo que ainda falhamos em explicar detalhadamente. Não se sabe exatamente em que momento evolutivo teria surgido, qual seria o precursor a ela, o que teria motivado a seleção natural dessa característica que nos humaniza, que torna nossa experiência algo único, que faz com que exista um “eu”. Sabemos que existem alguns passos que podem ser relacionados ao surgimento dela, a exemplo: o uso da linguagem como meio de criação, a habilidade de se dar nome às coisas, conferindo a elas a possibilidade de serem conhecidas, identificadas, além da capacidade de acreditarmos em conceitos intangíveis, como o dinheiro, espiritualidade, ou qualquer estrutura que existiria somente num espaço alheio à materialidade. Ainda assim, o que é, como funciona, qual a estrutura neurobiológica mais específica que gera a consciência, seguem sendo matagais a serem desbravados pela racionalidade humana.

Na narrativa em questão, esse despertar de uma vivência instintiva e automática se dá através da ingestão do fruto do conhecimento do bem e do mal, após a sedução por parte de uma serpente, animal que se associa frequentemente a uma imagem aterrorizante, seja tentando ao primeiro casal, matando Thor, ou lutando contra Krishna. Há, inclusive, estudiosos que alegam que nossa visão apurada foi selecionada a partir da necessidade de reconhecer ofídios na natureza. A partir desse contato com a fruta, cada um percebe a própria vulnerabilidade, se vê sofrendo no parto, sendo obrigado a trabalhar para que coma, sendo expulso daquele paraíso. Conhece-se a possibilidade de ser ferido, e, consequentemente, a de se ferir a outrem, havendo, finalmente, diferenciação entre o mal e o bem. Adão e Eva são obrigados a irem em direção a uma terra desconhecida, cientes de que o futuro é hostil e a probabilidade de sofrerem dano é imensa.

Isso resumiria muito bem a forma como o ser humano se relaciona com a existência. Amadurecer é, de certa forma, ter contato com algum evento que tem um impacto transformador em nossa subjetiva realidade. Somos seduzidos pelo que não sabemos, com aquele misto de medo e curiosidade com que se tipicamente reage ao que não se entende, não se vê, que não está no seu território de maior conforto. Nesse processo, percebemos que estamos muito mais expostos do que gostaríamos, que há mais a ser entendido do que previamente tinha sido presumido por nós. Mudar de cidade traz esse sentimento, assim como entrar em um curso novo, ter um filho, viver uma pandemia. Não é difícil pensar em situações onde pudemos perceber que nossa visão de mundo era muito menor do que pensávamos. Uma dessas situações, para mim, tem sido trabalhar.

Os formandos são expulsos de seu comodismo ao concluir o curso de medicina e não há mais um futuro palpável que se manifestará com certa margem de confiança. Afinal, depois da aprovação e do início do primeiro período, o segundo período é uma possibilidade muito maior do que jamais tinha sido. Com frequência conseguimos colocar nosso trem em algum trilho: primeiro, segundo e terceiro ano do ensino médio, os períodos da faculdade, um tempo de mestrado, os anos de residência. Formar tirou uma das minhas formas de manter a inércia. Esse foi um início de mais uma quebra do meu Éden.

Vê-se a necessidade urgente de decidir qual residência escolher, em qual hospital, em qual cidade e até se a própria escolha pela residência é o que faz mais sentido naquele momento. Mais um trilho se desfez e somos obrigados a escolher qual bifurcação seguir, e tínhamos a ideia de que a decisão ficaria fácil com o tempo, e, apesar de se tornar menos difícil, fácil ela nunca é. Ainda assim, esse drama nem se compara à experiência que é exercer a função que há tanto tempo se esperava, encarar o dilúvio após o período extenso de construção de uma arca.

Não há mais 25% de tolerância a faltas. Ali, você é pago para fazer o que faz, e é necessário ser minimamente competente quando se é remunerado para isso, quando o nome no carimbo é seu. Além disso, há o que eu acredito ser o maior motivador de um bom exercício profissional, que é a percepção da responsabilidade que se tem no meio em que se atua, e, consequentemente, do potencial que se tem para impactar positiva ou negativamente a vida do seu cliente. Na medicina, isso pode significar vida ou morte, literalmente. Poucas coisas me trouxeram tanta realização pessoal quanto perceber que, de alguma forma, consegui ser um fator determinante para a melhora na qualidade de vida de um paciente, mesmo que esse conforto venha através de analgesia intensa para casos onde não se resta recurso a não ser diminuir a dor do doente, dando um final um pouco menos penoso àquela história.

E quantas histórias. É incrível perceber quão tocante pode ser a vivência alheia, enxergar em cada contexto uma narrativa típica de como se é humano e se enfrenta os sofrimentos que são propostos pelo destino. Ouço histórias de mães que tinham vários filhos que foram abandonados por elas, sendo, na velhice, acolhidas por esses filhos que já faziam parte de outro cenário, outra família, recebendo cuidado durante os últimos períodos em vida. Perceber a humanidade à sua frente é tocante, e mostra que assim como os seus, inúmeros paraísos são destroçados a cada diagnóstico, e que a dor e a labuta são necessários a uma expectativa de uma vida melhor.

Com frequência, percebemos certa polarização entre grupos, adversários sendo tratados com uma distância intransponível. Às vezes, nós mesmos não identificamos, ali, naquele nazista, negacionista, criminoso, qualquer semelhança com nossa própria pessoa, assumindo uma postura inflexível refletida na certeza de que daquela água não beberíamos. Construir um vínculo, através da relação médico-paciente, com os mais diversos tipos pessoas tem me dado a oportunidade de perceber quão vulneráveis somos todos, e como somos frequentemente vítimas de nossos próprios vieses, vivendo em nossas próprias bolhas e acusando veementemente quem é contrário à nossa agenda política, não permitindo que esses degenerados se sentem à nossa mesa. A proximidade revela que todos estamos nus e buscamos folhagens insuficientes para nos cobrir.

Além dessas, há outras parcelas do cenário de um médico recém-formado que trazem novidade à vida do ex-acadêmico, a exemplo, o dinheiro. A despeito do que muitos médicos têm falado, exercer a medicina é, sim, igual à riqueza. Passando de um aluno que recebia ajuda de custo por organizações sociais dentro da própria universidade para um médico empregado sob regime de CLT, é fácil perceber a gritante diferença. Segundo o IBGE, os 1% mais ricos do país ganham 28.659 reais ao mês, salário possível de ser alcançado como médico recém-formado, não sem muitas horas de trabalho, é claro, mas não é difícil encontrar oportunidades de se estar em plantões pela duração necessária para receber essa pequena fortuna. Os 5% mais ricos do país têm renda mensal superior a 10.313 reais mensais. À exceção dos residentes, pouquíssimos dos meus amigos recém-formados, para não correr o risco de dizer nenhum, ganham menos do que isso. Assim, não resta reação além da indignação quando, com frequência, ouvimos, em salas de estar médico, colegas reclamarem do quanto são mal reconhecidos e remunerados.

No entanto, como diz o mantra da cultura pop proferido por Ben Parker, “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. A súbita valorização daquela hora que você gastaria passeando por stories e perfis, num frenesi de consumo de conteúdo, leva, quase sempre, a um preenchimento completo da agenda do novo rico, digo, médico. Assim, com facilidade, vemos colegas cumprindo cargas hercúleas de trabalho, perdendo a disponibilidade para quaisquer outros projetos, seja aprender um novo instrumento ou seguir o caminho da especialização profissional. Sem um norte para guiar a própria agenda e se vendo em meio às ruínas de si causadas pelo excesso de trabalho, percebe-se a necessidade de desenvolver a capacidade de gerir o próprio itinerário, de dizer não a essa escalada social rumo aos 1% mais bem pagos da nação, ou ao menos adiá-la. Mais uma vez, somos obrigados a desenvolver novas estratégias em relação a um perigo que não considerávamos tão potencialmente danoso, que é o luxo inédito de ser bem pago.

Não me entendam mal, é excelente fazer parte de um grupo ainda mais privilegiado. Tive a oportunidade de aumentar consideravelmente a qualidade de vida de toda minha família, e perceber que as ansiedades financeiras de meu pai em relação às instabilidades geradas pela pandemia tem diminuído é maravilhosa. Finalmente tenho a chance de retribuir a quem tanto se doou, durante tantos anos incessantes, convencendo professores de colégios particulares a fornecer bolsas de estudos para um filho que teria o potencial de representar a marca da escola com uma aprovação importante — potencial do qual nunca duvidaram. Comprar roupas para sua mãe, levá-los a um rodízio em uma churrascaria famosa da cidade após tantos anos sem visitar aquele restaurante, trocar o celular de sua irmã, conseguir fazer com que seu irmão finalmente comece a autoescola, e matricular, pela primeira vez, toda a família num convênio médico são eventos ainda mais emocionantes do que o que é retratado em dramas sobre superação. Isso sem mencionar a capacidade de intervir ativamente na saúde do núcleo familiar, sabendo tecnicamente como lidar com a enxaqueca de sua mãe, com a infecção de urina de sua irmã e, especialmente, com a depressão e ansiedade da casa. Ser médico me permite melhorar consideravelmente a vida não só dos meus pacientes, mas dos que mais amo. No entanto, como diz a versão bíblica da frase do Tio Ben, a quem muito é dado, muito será cobrado.

Somada à simples carga horária excessiva, há também a carga emocional exorbitante do trabalho médico. Considero ser esse o maior motivo da exagerada remuneração médica: a responsabilidade sobre o outro em situações tão desesperadoras e potencialmente danosas. Em situações onde tem-se um indivíduo que não consegue respirar, o profissional responsável por inserir um dispositivo que torna a via aérea capaz de ser ventilada é o médico. Haja adrenalina. Quando a vida de alguém se encerra, o mensageiro dessa tão temida e sensível notícia é, preferencialmente, aquele que falhou em salvar o recém finado. Somos expostos às catástrofes da vida humana incessantemente, com o agravante de exercer papel ativo na tentativa de amenizar quadros frequentemente caóticos. O sofrimento alheio é rotineiro e, assim, temos a oportunidade de sermos continuamente lapidados, a ferro e fogo.  Somos frequentemente cobrados pelas falhas sistêmicas relacionadas à oferta governamental de saúde, sendo obrigados, por ordens judiciais, a prescrever medicamentos sem qualquer evidência científica de benefício, pelo simples capricho de um promotor, que é legitimado por um governo caricato, desonesto e nocivo. Não surpreendentemente, inúmeros médicos sofrem com a síndrome de burnout, fruto de esgotamento, composta pelo tripé: exaustão emocional, despersonalização e falta de realização profissional. Dentre as cinco especialidades que possuem maior prevalência dessa síndrome, constam medicina de família, medicina de emergências e medicina interna, que são as funções mais frequentemente atribuídas a recém-formados.

Durante a faculdade, presenciei o parto normal de um natimorto anencéfalo e a dor que sua mãe teve que passar, ainda que soubesse da inviabilidade do feto, durante o trabalho de parto e após o contato pele a pele com o corpo recém expelido. Um dos choros mais tristes e dolorosos que ouvi. Saí do centro obstétrico indignado com o exercício da profissão. Como me sujeitaria a ser espectador tão próximo de tamanha desgraça? Expus meu sentimento ao residente que me acompanhava e ele, com uma sensibilidade admirável, expôs a visão que tinha da situação, me ajudando a desenvolver uma concepção totalmente diferente: poucos têm a oportunidade de estar em contato com o ser humano em um estado tão cru, de tanta vulnerabilidade. É comovente contemplar o amor materno, mesmo que em meio a cadáveres, sangue e líquido amniótico. Ainda mais tocante é poder, através de esforço individual, trazer um bálsamo àquela situação. É necessário perceber que todos estamos nus, passíveis de ataques de predadores, à mercê da hostilidade da natureza.

Presenciar e ativamente participar da tentativa de salvação de um óbito trágico, digno de séries televisivas, é transformador. É angustiante ver as faltas de recursos, às vezes humanos, e os prejuízos gerados por elas. Mas é maravilhoso perceber que ainda se traz conforto ao intratável, que se fazem partos que tinham tudo para dar errado,  que se consegue uma nova chance a pacientes que chegaram em situações lastimáveis ao serviço, ainda que essa nova chance dure pouco tempo. Viver isso alimenta a esperança. Lutar para que isso aconteça e perceber colegas que também o fazem traz aconchego, traz um pensamento de que talvez, através de um esforço conjunto, consigamos transformar a realidade e diminuir o sofrimento desnecessário num futuro não tão distante, pelo menos um pouquinho a cada passo, gradualmente alterando as rotas dos trilhos em que viajaremos.

De forma geral, atuar profissionalmente me expõe a situações das quais mal tinha ouvido falar. Estou adquirindo conhecimento em áreas que não foram sequer citadas durante o preparo teórico que tive, ainda que tenha me formado em uma universidade de excelência. E, como a parcela mais importante do conhecimento conquistado é a forma como ele te transforma, tenho me tornado outro homem, com novas roupas necessárias para cobrir um pedaço do meu bumbum que se mostrava sem que eu soubesse. É um processo penoso em vários sentidos, mas extremamente satisfatório. Espero que o futuro reserve novos frutos e oportunidades de catarse, enquanto isso, o presente tem sido uma dádiva.

2 comentários em “Do suor do teu rosto comerás

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  1. Uau, que texto incrível! O início dele nas falas sobre a consciência me fez lembrar o livro X das confissões de Agostinho… Achei incrível a forma holística e bem escrita para descrever um pouco daquilo que você tem vivido e experimentado, parabéns!

    Curtido por 2 pessoas

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