Tocilizumabe reduz mortalidade por COVID-19!

Já faz alguns meses que o imunobiológico tocilizumabe é alvo de interesse da medicina devido a seu potencial teórico de ajudar no combate à COVID-19. Até recentemente, porém, as evidências eram pouco animadoras: diversos estudos concluíram que a droga não reduziria a mortalidade da doença, e poderia até aumentar a incidência de efeitos adversos.

Isso mudou agora, com a publicação deste pré-print do grupo RECOVERY. Com um número de pacientes muito maior e um design bem feito (controlado e randomizado), a nova publicação traz a promessa de mais um tratamento realmente eficaz contra a COVID-19.

O que é “tocilizumabe”?

O tocilizumabe é um anticorpo monoclonal que age bloqueando os receptores da interleucina-6, impedindo que eles sejam “ativados” por ela. A interleucina-6 é uma citocina, uma molécula “pró-inflamatória”, atuante em diversos processos metabólicos que favorecem a inflamação.

Como já sabemos que o Sars-CoV-2 induz uma intensa reação inflamatória no trato respiratório inferior e no resto do organismo e esse estado hiperinflamatório é responsável por boa parte do dano causado pela doença, percebeu-se que talvez o bloqueio da cascata pró-inflamatória (com o tocilizumabe) pudesse ajudar a diminuir os desfechos negativos relacionados à COVID-19.

O que já sabíamos

A verdade é que vários trials já investigaram a eficácia do tocilizumabe contra a COVID-19, quase sempre com resultados negativos. Estes são alguns dos principais estudos publicados até o momento:

  • Este trial publicado no JAMA em outubro de 2020 com 131 pacientes concluiu que talvez o imunobiológico reduza a mortalidade em 14 dias, mas não houve redução do desfecho em 28 dias de acompanhamento.
  • Este outro estudo, também publicado no JAMA em outubro, contou com 126 pacientes e concluiu que o uso de tocilizumabe não era superior ao “manejo padrão” da COVID-19 para evitar a “progressão clínica negativa” da doença.
  • Este estudo clínico randomizado e duplo-cego, publicado no New England (NEJM) em dezembro, acompanhou 243 pacientes e concluiu que o tocilizumabe não era eficaz para diminuir morte ou intubação devido à infecção pelo novo coronavírus.
  • Outro trial publicado no NEJM, este em janeiro deste ano, observou 389 pacientes e tampouco achou evidências de que a droga reduz a mortalidade da doença.
  • Finalmente, este paper publicado no final de janeiro no BMJ seguiu 129 pacientes e concluiu que o tocilizumabe não melhorava diversos desfechos clínicos e ainda poderia aumentar a mortalidade pela infecção.

Ou seja, tudo fazia crer que o tocilizumabe seria mais uma ivermectina no combate à COVID-19, só que uma ivermectina bem cara e pouco acessível (e, consequentemente, de menor potencial populista). Mas essa crença mudou com a nova publicação do grupo RECOVERY: o tocilizumabe funciona contra a COVID-19!

O grupo RECOVERY

Você deve estar cético com meu entusiasmo. Eu consigo sentir. E eu não culpo você. Em uma época tão conturbada e confusa, manter a dúvida é saudável, especialmente quando se trata de supostos tratamentos milagrosos contra a doença mais famosa desta geração.

Eu imagino você se perguntando: o que esse tal de RECOVERY tem de tão especial? Afinal, foi apenas um estudo com resultados positivos, no meio de vários outros trials desanimadores, inclusive os cinco citados ali em cima, todos publicados em periódicos científicos de peso mundial.

Acontece que esse estudo foi realmente diferente, tanto que vale a pena comemorar: temos evidências científicas sólidas de que o tocilizumabe ajuda no combate à COVID-19!

Antes de destrinchar a publicação, vale a pena lembrar algumas credenciais que o RECOVERY Collaborative Group acumula:

  • Mais de 37 mil participantes em diversos trials;
  • Mais de 150 centros envolvidos simultaneamente neste momento nos diversos braços do estudo;
  • É financiado pelo governo britânico e por diversas outras instituições, incluindo a Fundação Bill e Melinda Gates, a mesma que está ajudando a erradicar a poliomielite;
  • Foi quem “descobriu” que a dexametasona funciona contra a COVID-19.

Ou seja, eles têm história. 

Favor não confundir com o COVID Recovery Group.

O que descobrimos

O novo estudo publicado pelo RECOVERY foi assim: 

  • randomizado e controlado;
  • incluiu pacientes com hipóxia (saturação de oxigênio menor que 92% em ar ambiente ou com oferta de oxigênio suplementar) e com sinal laboratorial de inflamação sistêmica (proteína C-reativa acima de 75 mg/L);
  • havia dois grupos: um controle que recebeu o “tratamento padrão” e um grupo que recebeu tocilizumabe, além do tratamento padrão;
  • participaram pacientes em diferentes níveis de comprometimento respiratório: pacientes em ventilação mecânica, em ventilação não invasiva e recebendo oferta de oxigênio simples;
  • a maioria dos participantes do estudo estavam recebendo dexametasona — pacientes que receberam corticoterapia sistêmica tiveram desfechos melhores;
  • o principal desfecho medido foi a mortalidade em 28 dias;
  • 4116 pacientes participaram do estudo, sendo 2094 no grupo controle e 2022 no grupo que recebeu tocilizumabe.

Foi (de longe!) o estudo com maior número de participantes a testar o tocilizumabe para COVID-19. No fim, os participantes do grupo que recebeu o imunobiológico tiveram chances maiores de receberem alta vivos após 28 dias (54% v. 47%). Os resultados foram consistentes entre os subgrupos do estudo e foram estatisticamente significativos.

Não tão rápido… 

O pré-print do RECOVERY traz novas esperanças para o tratamento eficaz da COVID-19, mas ainda é necessário manter a dúvida. É importante lembrar que:

  • uma andorinha não faz verão e um ensaio clínico sozinho não prova nada;
  • a publicação foi um pré-print, ainda não revisado por pares;
  • o estudo ainda não foi sequer finalizado — o seguimento de uma pequena fração dos pacientes ainda não terminou, e deve terminar apenas em 25 de fevereiro.

Não obstante tudo isso, as notícias são boas. E em tempos como esses, eu fico feliz com pouca coisa.

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