Os primeiros sinais da esquizofrenia

Recentemente eu atendi um jovem que era provavelmente esquizofrênico. Ele fora levado ao pronto-socorro por policiais militares depois de pular o muro de um de seus quartéis, pelo que me disseram. Eu não estava lá quando ele chegou, fui apenas para reavaliá-lo. Eu deveria decidir se ele deveria ficar internado ou se poderia ir embora.

Fui até a sala de observação para conversar com ele. Era um rapaz jovem e com aparência um pouco descuidada, mas essencialmente “normal” à primeira vista. Nada chamava a atenção particularmente. Sua irmã estava lhe acompanhando. Eu cumprimentei os dois e me apresentei, e ele interagiu comigo de forma perfeitamente normal.

Então eu perguntei a eles o que faziam ali e sua irmã contou a estória do quartel da polícia militar. Questionei a razão de ter feito aquilo e ela me disse que, segundo ele, ele estava em uma espécie de missão para evitar que China acabasse com todos os seres humanos, transformando-nos em robôs. Ela contou que nas últimas semanas ele estava praticando jejum e fazendo um “treinamento militar”, preparando-se para a missão.

Ele confirmou tudo e, não com tanta calma, mas também sem afobação, pediu um celular para a irmã e disse que ia “me mostrar”. Enquanto ele mexia no celular, continuei conversando com a acompanhante. Ela me disse que ele usava maconha esporadicamente, mas nada além disso, e que não tinha nenhuma doença conhecida.

O paciente então me chamou e me mostrou no celular a prova do plano maligno chinês para transformar todos os humanos em robôs. Era um vídeo do Pica-Pau.

Foi assustador.

Eu não cheguei a ver o vídeo e não sei se nele havia alguma referência à China ou a robôs. Mas foi de dar frio na espinha ver aquele garoto em franca psicose, tão calmo ali na minha frente.

Recomendei sua internação, prescrevi contenção mecânica no leito (se infelizmente necessário) e haloperidol a critério médico, e continuei a atender os vários outros pacientes com dor de barriga, infecção de urina e suspeita de infarto. Dali a poucos minutos, o paciente “surtou” de verdade, ficando agressivo e agitado.

Provavelmente, um caso de esquizofrenia paranoide, que começou assim: invadindo um quartel da polícia.

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O tio da minha mãe, Tio Pedro, era esquizofrênico. Quarenta anos atrás, em 1980, ele matou meu avô, seu próprio irmão.

Existe uma espécie de lenda na minha família sobre como ele se adoeceu.

Dizem que Tio Pedro sempre foi muito ambicioso. Ele era alto, forte e bom de serviço, e ele trabalhava muito para conseguir comprar sua própria fazenda. Certa vez, dizem que ele emendou vários dias e noites de trabalho em uma fazenda, no ímpeto de ganhar muito dinheiro. Depois do trabalho finalizado, exausto, ele voltou para sua casa, sozinho, e desabou na cama. Dormiu, dizem, por três dias e três noites. E acordou louco.

Meus tios contam essa estória como se fosse verdade sobre pedra. Para mim, é um relato interessante de como nós tratamos as coisas bizarras que não conhecemos direito, como a esquizofrenia.

Provavelmente existe algo de verdade nessa estória. Provavelmente Tio Pedro era realmente muito ambicioso e trabalhava muito. Talvez, ali pelos seus 20 e poucos anos, ele estava no auge de sua disposição física e tenha se imposto um nível de estresse maior do que aquele com o qual estava acostumado. Talvez o excesso dopaminérgico em seu cérebro o tenha feito trabalhar como um louco por alguns dias. E depois uma espécie de “rebote” o tenha feito dormir demais — não por três dias seguidos, mas por mais tempo do que o normal.

Ou talvez ele simplesmente quisesse ficar recluso, como se se escondesse de algo ou alguém… Talvez dos soviéticos, e de seus planos de dominar os humanos e mandá-los todos para a lua.

Provavelmente um caso de esquizofrenia paranoide, que começou assim: trabalhando demais e dormindo demais.

lavrador

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Um dos esquizofrênicos mais famosos do mundo é John Forbes Nash Jr, matemático vencedor do Prêmio Nobel de Economia.

Ao contrário do meu paciente e do meu amigo Pedro, Nash Jr era superestudado. Ele tinha muita “reserva cognitiva”. É comum que pacientes com mais educação formal apresentem a doença um pouco mais velhos. Não sei exatamente a razão. Isso também acontece com o Alzheimer, por exemplo.

Mas o “pouco mais velho” da esquizofrenia ainda é bem jovem. Nash Jr começou a apresentar sinais de franca psicose com 30 ou 31 anos, enquanto meu paciente, por exemplo, tinha 22 ou 23. Trinta anos ainda é bem jovem. Eu ainda tenho 26. Eu ainda posso chegar .

Nash Jr ganhou seu Nobel por pesquisas que fez antes dos 30 anos de idade. Depois disso, ele até conseguiu voltar a pesquisar, mas nunca mais produziu como antes. A esquizofrenia não é um passeio no parque. É uma das doenças mais catastróficas que alguém pode ter. É provavelmente comparável a ter um câncer agressivo com 30 anos de idade ou desenvolver AIDS (AIDS, e não HIV) com 25.

Naquele dia, o jovem Nash Jr, um gênio matemático, ia dar uma aula para seus colegas geniais da Sociedade Americana de Matemática, na prestigiada Universidade de Columbia. Ninguém entendeu nada. Em vez de falar sobre teorias matemáticas (que para mim e você já seriam incompreensíveis), ele começou a falar de ameaças comunistas e teorias da conspiração que eram incompreensíveis até para os matemáticos presentes.

Um caso famoso de esquizofrenia (paranoide, pode-se argumentar, ainda que essa distinção não seja tão importante), que começou assim: dando uma aula sobre ameaças comunistas.

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Mas antes dos grandes eventos que são as alucinações e os delírios esquizofrênicos, que são os “surtos” que escancaram a doença para todo mundo, a esquizofrenia constantemente começa de forma mais insidiosa, com os sintomas negativos e cognitivos.

A irmã do meu paciente lá de cima disse que nos últimos meses ele “andava estranho”. A mulher de Nash também percebeu que o marido apresentava um “comportamento errático” antes de sua palestra em Columbia. Muitas vezes, talvez na maioria das vezes, a esquizofrenia começa de forma mais discreta: assuntos estranhos são levantados, hábitos antigos mudam, o padrão de sono se altera, a pessoa apresenta fixação a certos assuntos, os amigos se afastam etc.

Nada tão incomum para um adolescente ou jovem adulto. E isso se arrasta por meses ou anos, até que BUM!

Você invade um quartel de polícia.

Um comentário em “Os primeiros sinais da esquizofrenia

Adicione o seu

  1. Lendo seu texto comecei a pensar sobre como se vê e se sente nesse fenômeno psicose/ esquizofrenia

    Indico essa leitura…acho maravilhosa.. espero que faça sentido: “Uma história de borboletas” Caio F. Abreu
    Uma professora indicou no primeiro período do curso de Psicologia.

    Agradeço que compartilhe sua vivência

    Curtido por 2 pessoas

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