Saúde mental e microbioma do intestino

Os anos 1990 foram apelidados de “a década do cérebro”. Me graduei em Psicologia em 2004, quando a onda chegou aqui no Brasil. Nessa época se eu falasse do papel do intestino na saúde mental, provavelmente seria alvo de chacota. “Onde já se viu o intestino ter alguma coisa a ver com emoções, depressão, ansiedade, esquizofrenia, autismo e afins? Só um doido acreditaria nisso!” Será mesmo?

Mas as evidências foram se acumulando. Publicações recentes na Nature, na Science, no MIT e em tantos outros periódicos, também. Já não é papo de doido, por exemplo, falar que o autismo pode ter também causas bacterianas ligadas ao intestino.

Talvez se um certo pesquisador muito antigo não tivesse sido desprezado as coisas teriam sido diferentes. Estou falando de Aristóteles, que no livro “Sobre a Alma” fala da existência de 3 sistemas psíquicos:

a) o racional, que envolve a cognição e hoje sabemos ser centrado no cérebro;

b) o sensitivo, que envolve o movimento e é centrado no coração;

c) o vegetativo, que envolve o humor e o apetite pela vida e é centrado no intestino.

Isso mesmo. O intestino foi colocado, pelo inventor da Psicologia, no mesmo patamar do cérebro e do coração.

“Mas como o intestino pode afetar a saúde mental, cara????”

Pela bioquímica produzida pelo microbioma nesse órgão.

O microbioma é o conjunto de todos seres unicelulares que vivem em nosso corpo. O intestinal é tão vasto e complexo que já é considerado um órgão em si mesmo.

Fazendo uma grossa simplificação, dentre esses microorganismos há uns bons, que vivem em simbiose conosco e nos geram benefícios; e há uns maus, que atuam como parasitas, agentes de doenças. Eis aí outra simplificação, mas com estilo Star Wars: o “lado negro” do microbioma se alimenta de açúcar e todo tipo de alimento de má qualidade, como os ultra-processados, o “lado da luz”, de alimentos saudáveis, como fibra vegetal. Além disso, praticar exercícios físicos e tomar sol de maneira saudável aumenta o “lado da luz” no intestino.

“E o que o microbioma pode fazer por nós?”

Pra começo de conversa, 90% da serotonina é produzida no intestino, com a ajuda de algumas bactérias boas. Sim, a serotonina. O hormônio da felicidade, sem o qual a pessoa fica deprimida.

Por outro lado, há evidências pululando por aí sobre o autismo, enquanto síndrome neurodesenvolvimental infantil, ser causado pela intoxicação por resíduos de bactérias do tipo Clostrídia.

A associação entre ingerir alimentos ricos em açúcar e ficar patologicamente deprimido e/ou ansioso começa a fazer ainda mais sentido, não?

O uso indiscriminado de antibióticos que devastam o microbioma intestinal, ao mesmo tempo em que se come cada vez mais açúcar e menos fibra na dieta, poderia explicar epidemias de transtornos mentais !

Em Psicologia Comportamental costuma-se dizer que a dita “saúde mental” da pessoa é determinada pelo seu ambiente como um todo. Ocorre que o corpo dessa bendita pessoa também faz parte de seu ambiente, ora essa! A ingestão de alimentos e outras substâncias como remédios nada mais é que uma forma de mudar a parte de nosso ambiente que fica “pro lado de dentro da pele” se apropriando de elementos do ambiente “pro lado de fora da pele”. Sem cuidados nutricionais esse ambiente não tem como ser saudável.

Quem sabe aquele coisa que os antigos costumavam dizer está mesmo certa? Estou falando daquela expressão usada para incentivar decisões sábias na vida: “Você precisa seguir o que dizem as suas entranhas”.

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