Por que não acredito em cores

Em 1989, já bastante doente, Cazuza gravou às pressas seu último álbum publicado em vida, Burguesia. O estado de saúde do cantor era tão sério que ele teve que gravar a maioria das músicas em uma cadeira de rodas — algumas, ele gravou deitado em uma maca. 

Uma das músicas desse álbum duplo é Azul e Amarelo, composta por Cazuza e seu amigo de longa data, Lobão. Cazuza ainda fez questão de colocar Cartola como coautor da canção, por causa do verso “não quero, não vou, não quero”, que o rockeiro pegou emprestado de Cartola, que foi uma das influências musicais mais importantes na vida de Cazuza.

Segundo o músico, azul e amarelo são as cores do seu orixá, seu santo no candomblé. Prestes a encontrar-se com o único mal irremediável, com aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a Terra, Cazuza vestia azul e amarelo, e assim na verdade se vestia com seu santo protetor tão necessário em um momento tão grave. 

Talvez isso não faça tanto sentido se você não acredita em orixás. Muito menos se, como eu, você não acredita em cores.

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Com certeza você já viu duas pessoas discutirem se “aquela cor ali,  ó” é verde ou azul. Afinal, qual é exatamente o limite entre um vermelho claro e um rosa escuro? E porque nós chamamos de vermelho a cor do morango, do urucum e da nossa pele depois de uma picada de mosquito, sendo que na verdade o que vemos são cores tão diferentes? Quando é que de fato o laranja se torna amarelo e quando é que o vermelho se torna laranja? 

Para a maioria das pessoas, isso não faz diferença. Um advogado dificilmente terá tanto interesse nas sutilezas entre uma cor e outra. Já para um designer de moda, talvez centenas de denominações sejam necessárias para que ele consiga realizar adequadamente seu trabalho.

Isso acontece porque palavras são ideias, e ideias são ferramentas. O mundo real é simplesmente complexo demais para que possamos defini-lo em palavras sem perder algum grau de resolução. Palavras são sempre insuficientes, porque o cérebro humano é sempre insuficiente. “Vermelho”, “rosa”, “advogado”, “designer” e até “cérebro” são platonificações, ideias simplificadas de algo que percebemos no “mundo real”, e nós só as usamos conforme nos convém.

Para meus pacientes, uma dor no peito é uma dor no peito. Eles não diferenciam muito bem entre angina estável, angina instável, dor ventilatório-dependente e dorsalgia: esse trabalho é meu. Para mim, “dor no peito” é um termo extremamente genérico, que pouco ajuda a decidir o que eu vou fazer do ponto de vista médico. Mas para a maioria das pessoas, é esse o nome do que estão sentindo: dor no peito. E só!

Da mesma forma, eu pouco me interesso pelas nuances do roxo. Eu não sei qual é a diferença entre roxo, púrpura, lilás e magenta. Não faz diferença na minha vida.

Eu não sou designer.

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Agora imagine uma tribo de humanos que não vive em cidades, não olha em microscópios, nem dirige carros. Imagine uma tribo de caçadores e coletores.

Para esses amigos selvagens, a diferença entre roxo e vermelho é mais desimportante ainda. O racional é muito simples: a fruta verde é ruim, a fruta madura é boa; a água sem cor é boa, a água com cor é ruim; tudo que se move é perigoso, até prova em contrário. E é isso.

No Amazonas, existe essa tribo indígena chamada Pirahã, que é desse jeito: não vivem em cidades, não olham em microscópios, nem dirigem carros. São caçadores e coletores.

Os Pirahã não têm palavras para denominar o que chamamos de laranja ou amarelo, em oposição ao que é vermelho ou roxo. Na verdade, eles têm apenas quatro palavras para denominar todas as cores: uma para “escuro”, uma para “claro”, uma que engloba vermelho, roxo, amarelo e semelhantes, e outra que engloba verde, azul e todo o resto. A expressão para vermelho, roxo e amarelo seria o equivalente em Pirahã para “igual sangue” e a expressão para verde e azul seria “temporariamente imaturo”.

Ou seja, quando um Pirahã vê uma arara, ele diz: “olha aquele pássaro temporariamente imaturo” para se referir ao azul de suas penas. Mesmo se for uma arara adulta. E quando ele vê um papagaio, ele diz: “olha aquele pássaro temporariamente imaturo” para se referir ao verde de suas penas. Mesmo se for um papagaio adulto.

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Esse texto é o trecho do roteiro de um episódio de um dos podcasts que estamos produzindo. Vai ficar muito legal. Ouçam.

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